quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Presidentes mentem, e não há nada mais revolucionário do que dizer a verdade
Jorge Ramos - NYT
Os presidentes mentem. Bem, nem todos e não o tempo todo. Mas uma das principais lições do recém falecido Ben Bradlee, ex-editor do jornal "The Washington Post", é que nós jornalistas não podemos acreditar nos que têm poder. Nosso trabalho é questioná-los, sempre.
Bradlee foi responsável pela cobertura que seu jornal deu ao escândalo de Watergate --a complexa rede de espionagem e corrupção que culminou com a renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon em 1974. Foi uma história que transformou para sempre o ofício do jornalismo, porque demonstrou como dois repórteres persistentes, Bob Woodward e Carl Bernstein, puderam ter um papel decisivo para remover um político mentiroso do cargo mais importante da nação. Depois de Watergate, escreveu Bradlee, "comecei a buscar a verdade depois de escutar a versão oficial de uma verdade".
Nixon não foi o primeiro nem o último presidente a mentir. Há literalmente mil exemplos. Hugo Chávez, da Venezuela, foi um grande mentiroso. Em 1998, disse que entregaria o poder em cinco anos e que não nacionalizaria indústrias nem meios de comunicação. Mentiu. A Venezuela se contorceu com mentiras para o totalitarismo, primeiro com Chávez e agora com Nicolás Maduro.
No México, temos uma longa tradição de presidentes mentirosos, que chegaram ao poder com terríveis fraudes eleitorais. Foram escolhidos por "dedaço" e depois tentaram se vender como democratas. Impossível.
Outro mentiroso, Fidel Castro, depois da vitória da revolução cubana em 1959, disse em várias ocasiões: "Não somos comunistas". Cinquenta e cinco anos depois, seu irmão Raúl lidera um dos regimes comunistas mais repressivos do planeta.
Como jornalistas, somos obrigados a não engolir a história oficial e a duvidar de "quase" tudo o que nos digam os ditadores, os presidentes e seus funcionários. Isto é o que ultimamente se chama "jornalismo com um ponto de vista". Esse é um tipo de jornalismo irreverente, rebelde, com os de baixo enfrentando os de cima, que prefere ser visto, mais que como amigo, como inimigo dos que estão no poder, e que exige resultados dos que governam.
Se vale começar uma entrevista ou uma reportagem com uma posição antagônica.
Isso é o que Edward R. Murrow fez há 60 anos, quando decidiu enfrentar as táticas anticomunistas do senador Joseph McCarthy em seu programa "See it Now" [Veja agora]. Walter Cronkite fez outro tanto quando criticou a manipulação governamental da guerra do Vietnã. Christiane Amanpour, da "CNN", atacou a passividade do governo em relação aos abusos sérvios na guerra dos Bálcãs na década de 1990. E Anderson Cooper não hesitou em revelar os fracassos da administração do presidente George W. Bush depois do desastre do furacão Katrina em Nova Orleans em 2005. E a lista não termina.
Mais que ser objetivos, trata-se de ser justos. Não se pode tratar por igual um ditador e uma vítima de sua ditadura. Nossa principal responsabilidade social como jornalistas é evitar os abusos dos que exercem o poder. Os melhores jornalistas são sempre um pouco rebeldes, não escravos do sistema.
Mas quando nós jornalistas nos esquecemos de que nosso trabalho é questionar, incomodar e evitar o abuso dos governantes, as consequências são enormes. Mais de 120 mil civis iraquianos e 4.500 soldados americanos morreram no Iraque, uma guerra desnecessária que começou com mentiras sobre armas de destruição em massa inexistentes. Essa foi uma triste época do jornalismo americano. O patriotismo ganhou do jornalismo.
Outro grave exemplo. Dezenas, talvez centenas de estudantes mexicanos foram massacrados pelo Exército na praça de Tlatelolco em 1968. Os jornalistas mais conhecidos ficaram calados. Não merecem ser chamados de jornalistas. Mas essa cumplicidade e covardia não poderia se repetir hoje no México.
Os recentes massacres de Tlatlaya e Iguala --realizados pelo Exército e pela polícia, com dezenas de mortos-- estão sendo cobertos por uma nova geração de jornalistas mexicanos, sobretudo na mídia digital, sem medo de enfrentar os de cima. Diante dessa nova onda de críticas de jornalistas com um ponto de vista, a resposta do governo do presidente Enrique Peña Nieto foi a paralisia e o silêncio. Mas é preciso perguntar até que se saiba tudo.
Poucas vezes ocorre que jornalistas derrubem do poder presidentes corruptos e líderes mentirosos. Mas Ben Bradlee e seus repórteres do "Washington Post" nos ensinaram que todo político deve temer essa possibilidade. Não há nada mais revolucionário do que dizer a verdade. 
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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