A perigosa constituinte do PT
BERNARDO SANTORO - GAZETA DO POVO (PR)
A
presidente Dilma anunciou, no seu discurso da vitória, que a reforma
política será a grande prioridade do seu novo mandato. A necessidade de
uma reforma política é quase uma unanimidade, especialmente em virtude
dos altíssimos custos de campanha, do sistema de financiamento dessas
campanhas, do excesso de partidos e da falta de conteúdo ideológico dos
mesmos. O problema está na forma e no conteúdo da reforma política que
está sendo desenhada pelo PT.
Quanto à forma, o PT argumenta ser
necessária uma “mini-Assembleia Constituinte” para produzir os efeitos
necessários, com sua decisão de instalação a cargo de um plebiscito.
Isso é uma completa falácia. A Constituição brasileira é bastante
flexível quanto à sua organização política, e o sistema
político-eleitoral pode ser reformado por emenda constitucional sem
maiores problemas. Só haveria necessidade de uma Assembleia Constituinte
caso o PT quisesse acabar com alguma das cláusulas pétreas da
Constituição, que são a forma federativa de Estado; o voto direto,
secreto, universal e periódico; a separação dos poderes; e os direitos e
garantias individuais. Uma reforma política que acabasse com qualquer
um desses direitos e garantias seria necessariamente uma reforma de
cunho ditatorial.
No conteúdo, o PT pretende acabar com o
financiamento privado de campanhas por empresas, criar cláusula de
barreira, adotar lista fechada de candidatos com cotas para mulheres e
negros e a criação de comitês populares. O financiamento privado de
campanhas é um problema, pois as grandes empresas nacionais investem em
candidaturas para exigir favores e contratos públicos posteriormente. A
atual legislação é bastante restritiva, sendo essa burocracia a criadora
do famoso “caixa dois”, ou, no dizer do ex-tesoureiro do PT Delúbio
Soares, “recursos não contabilizados”. O financiamento público exclusivo
não resolveria esse problema, pois as doações privadas continuariam
existindo, só que agora totalmente irregulares, com 100% de doações em
“caixa dois”, sem contar que os partidos maiores receberiam mais
recursos, criando eleições injustas. Além disso, seria muito triste ver
recursos que deveriam ser destinados para educação, saúde e segurança
pública indo parar nas campanhas de políticos com cujas ideias não
concordamos.
A cláusula de barreira restringe a pluralidade
democrática e só é necessária porque hoje existe Fundo Partidário e
tempo de tevê gratuito. Por que não atacar a raiz do problema, acabando
com esse desvio legalizado de recursos públicos para políticos?
A
proposta de lista fechada defendida pelo PT retira do eleitor o direito
de escolher seu representante e o entrega para o diretório do partido
votado. Se esse mecanismo já não fosse antidemocrático por natureza,
criar cotas sexuais e raciais para esse fim gerará a total alienação do
cidadão brasileiro do processo eleitoral. A nossa representação deve ser
escolhida pelo povo de maneira livre, e não por políticos
profissionais. A criação de comitês populares, já vislumbrada pelo
Decreto 8.243/14, retira competência dos representantes democraticamente
eleitos pelo povo e a entrega para militantes profissionais e grupos de
interesse que não receberam nenhum voto de ninguém.
Tudo
exposto, com todos os seus graves problemas, pelo menos o atual sistema é
democrático, o que não se pode dizer da proposta petista. Se é para
mudar assim, melhor ficar com o velho.
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