sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Como os Estados Unidos ajudaram o Estado Islâmico
Andrew Thompson e Jeremi Suri - NYT 
AFP - 13.set.2014
Imagem de vídeo divulgado pelo Estado Islâmico mostra refém britânico David Haines antes de ser decapitado por um membro do grupo extremista jihadista Imagem de vídeo divulgado pelo Estado Islâmico mostra refém britânico David Haines antes de ser decapitado por um membro do grupo extremista jihadista
Os terroristas do Estado Islâmico que emergiram no Iraque e na Síria não são novos nem tampouco desconhecidos. Muitos deles passaram anos em centros de detenção administrados pelos Estados Unidos e seus parceiros de coalizão no Iraque depois de 2003. Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do Estado Islâmico, passou quase cinco anos preso em Camp Bucca, no sul do Iraque. Uma maioria de altos líderes do Estado Islâmico também é de ex-prisioneiros, entre eles: Abu Muslim al-Turkmani, Abu Louay, Abu Kassem, Abu Jurnas, Abu Shema e Abu Suja.
Antes de serem presos, al-Baghdadi e outros eram radicais violentos, com a intenção de atacar. O tempo deles na prisão aprofundou seu extremismo e deu a eles oportunidade para aumentar o número de seguidores. Em Camp Bucca, por exemplo, as figuras mais radicais eram presas ao lado de indivíduos menos ameaçadores, alguns dos quais não eram culpados de nenhum crime violento. As prisões da coalizão se tornaram locais de recrutamento e treinamento para os terroristas que os Estados Unidos estão combatendo hoje.
Este processo começou quando as forças de coalizão chegaram no Iraque em 2003 e prenderam supostos terroristas sem muito preparo ou supervisão. Embora os soldados tenham tentado documentar as circunstâncias por trás das prisões de iraquianos e combatentes estrangeiros, o processo se deteriorou sob a pressão do conflito, a falta de intérpretes treinados em árabe, e a névoa da guerra.
O simples fato de ser um homem "de aparência suspeita" em idade de serviço militar na vizinhança de um ataque era suficiente para colocar alguém atrás das grades. No auge da guerra, havia 26 mil presos, e mais de 100 mil indivíduos passaram pelos portões das prisões Camp Bucca, Cropper e Taji. Muitos deles eram insurgentes perigosos; muitos outros eram inocentes.
Delinquentes, terroristas violentos e personalidades desconhecidas eram separados apenas dentro das linhas sectárias. Isso forneceu um espaço para os extremistas espalharem sua mensagem. Os presos que rejeitaram os radicais em suas celas enfrentaram a retaliação de outros prisioneiros através de "tribunais da Sharia" que infestaram as prisões.
A radicalização da população carcerária era evidente para qualquer um que prestasse atenção. Infelizmente, poucos líderes militares faziam isso.
Em Camp Bucca, os extremistas obrigaram presos moderados a ouvirem clérigos que defendiam a jihad. A maioria dos prisioneiros era analfabeta, então era particularmente suscetível. Os prisioneiros frequentemente recusavam atendimento médico e treinamento vocacional por medo de infringir regras religiosas. As prisões se tornaram praticamente universidades terroristas: os radicais mais endurecidos eram os professores, os outros presos eram os estudantes, e as autoridades da prisão desempenhavam o papel de administradores ausentes.
As políticas mudaram em 2007 quando líderes militares norte-americanos começaram a colocar mais ênfase em compreender a população de detentos. Quando possível, os militares tentavam separar terroristas linha-dura dos moderados. Os prisioneiros ganharam maior acesso a programas que ofereciam habilidades vocacionais, alfabetização e uma versão moderada do Islã.
Algumas dessas reformas funcionaram, mas o estrago já tinha sido feito. Os terroristas tiveram quatro anos para construir uma rede, recrutar e impor sua versão extrema do Islã a milhares de detentos.
Um de nós trabalhou em Camp Cropper em 2009 como oficial de inteligência do complexo com a tarefa de coletar informação sobre presos e impedir a atividade extremista. Cumprir a primeira prioridade era relativamente fácil; a segunda era quase impossível.
Os "emires" do complexo controlavam a população da prisão. Os presos, por exemplo, recusavam-se a assistir televisão ou jogar pingue-pongue para não enfrentar o julgamento dos tribunais da Sharia. Presos moderados sofriam agressões físicas repetidas dos radicais. Quando revidavam, eram punidos pelas autoridades da prisão.
Insurgentes com provas condenatórias contra si eram soltos por causa da incompetência do sistema judiciário iraquiano e da recusa dos EUA em compartilhar informações confidenciais. Esforços para aumentar a eficiência motivaram as duas políticas, e os erros se complementaram.
Em dezembro de 2009, apenas alguns milhares de detentos permaneciam nas prisões e Camp Bucca foi fechada. Embora os soldados norte-americanos, apoiados pelas agências de inteligência, tenham tentado identificar os presos mais ameaçadores, o esforço estava fadado ao fracasso. Registros insuficientes, habilidades linguísticas limitadas, a confusão dos presos e a pressão para cortar gastos impediram uma avaliação eficaz dos prisioneiros.
Os radicais mais extremistas nunca foram listados para serem libertados. Um número deles já havia sido sentenciado à morte e esperava transferência para o sistema de justiça iraquiano. Mas depois que os EUA se retiraram, esses prisioneiros se encontraram sob a custódia iraquiana. O Estado Islâmico transformou em prioridade libertar esses extremistas enquanto conquistava partes do Iraque neste último verão. Com uma nova chance para viver, esses ex-prisioneiros são agora alguns dos combatentes mais dedicados do Estado Islâmico.
Os Estados Unidos deveriam guardar em mente esta lição à medida que começa outra campanha contraterrorista no Iraque e na Síria. Grandes instituições de detenção só criam as sementes para mais radicalização e violência. Há provas contundentes de que as prisões administradas pelos governos do Iraque e da Síria já tiveram esse efeito.
Os Estados Unidos devem convencer seus parceiros regionais a evitar misturar radicais e moderados, e fornecer alternativas para criminosos em pequena escala. Se continuarmos a repetir a história de encarceramento em massa no Oriente Médio, continuaremos presos no ciclo atual onde nossos esforços contra o terrorismo criam mais terroristas. 
Tradutor: Eloise De Vylder

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