Constrói-se uma verdadeira ‘herança maldita’
O Globo
Ao
assumir no seu primeiro mandato, em janeiro de 2003, Lula encontrou a
economia na rota da desestabilização, com o dólar nas alturas — roçou
nos R$ 4 —, inflação de dois dígitos, clima tenso de insegurança. Isso,
mesmo com as promessas sensatas de Lula, feitas por meio da Carta ao
Povo Brasileiro, em meados do ano anterior, de que respeitaria
contratos, não tentaria executar delirantes propostas que o PT passou
muito tempo fazendo de palanques e tribunas.
Hábeis no marketing,
criativos em frases e slogans, os petistas logo instituíram a ideia da
“herança maldita”. A economia não teria fraquejado devido ao justificado
medo dos mercados diante da possibilidade de um governo petista, mas
por culpa dos governos do PSDB, de Fernando Henrique Cardoso. A herança,
na verdade, era bendita, porque Lula receberia um país com algumas das
reformas estratégicas já feitas ou encaminhadas — como privatizações,
lei de responsabilidade fiscal etc.
A ironia, agora, é que o
terceiro mandato petista consecutivo construiu uma herança, esta sim, de
fato maldita, de responsabilidade em grande parte do governo da
presidente candidata à reeleição, Dilma Rousseff. Outra curiosidade de
almanaque é que a própria Dilma poderá herdar os malfeitos que cometeu
na economia.
O quadro faz jus à imagem da “tempestade perfeita”,
termo tomado emprestado pelo ex-ministro Delfim Netto da meteorologia,
para designar a conjugação de uma série de fatores negativos na
conjuntura econômica capaz de gerar crises graves. Os gráficos acima,
neste sexto e último editorial da série “Problemas do Brasil”, trazem
alguns ingredientes desta “tempestade”: inflação persistentemente acima
da meta — característica do governo Dilma — e, no momento, além do
limite superior; economia sem fôlego e gastos públicos primários — não
financeiros, sem incluir os juros da dívida — em ascensão constante. Não
é uma faceta apenas do PT — os tucanos praticaram o mesmo, mas, de Lula
a Dilma, estas despesas, de 15,1% do PIB, galgaram 19%. Quatro pontos
percentuais de PIB não são pouca coisa.
Os dados divulgados
anteontem com o agravamento da situação das contas públicas em agosto
são parte da “tempestade perfeita”. Além de ser o quarto mês de déficit
primário consecutivo — logo, sem incluir os juros — do “setor público
consolidado”, ou seja, União, estados, municípios e estatais, o
resultado foi o pior para um mês de agosto desde 2001, quando a série
estatística começou a ser produzida.
Nada é por acaso. Ao
aprofundar o modelo intervencionista, heterodoxo, do “novo marco
macroecônomico”, o governo engessou a relação juros-câmbio, foi leniente
com a inflação, desestimulou os investimentos privados — por enevoar os
horizontes —, não elevou os públicos, reduziu a taxa de poupança,
entrou em rota perigosa de desequilíbrio das contas oficiais e ainda
estimulou contadores criativos lotados na Secretaria do Tesouro para
tentar embonecar as estatísticas. Grande ingenuidade.
Um dos
desdobramento de tudo é que não será atingido o superávit primário
prometido de 1,9% do PIB. A não ser à base de muita criatividade. E
muita receita extraordinária. Mas a realização a toque de caixa do
leilão da banda 4G na telefonia celular, por exemplo, rendeu menos que o
esperado. Há sempre, porém, a possibilidade de alguma mágica executada
pelo Tesouro. Mas sem resultado prático, pois analistas já depuram essas
manobras quando calculam o superávit primário. Daí preverem algo
próximo do zero este ano, antessala de aumento da dívida pública. Mesmo
da líquida, conceito desacreditado pelo uso da contabilidade criativa
para retirar da dívida neste conceito centenas de bilhões injetados pelo
Tesouro em bancos públicos.
A candidata Dilma garante que não
será necessário um ajuste fiscal em 2015. Mas a presidente em segundo
mandato ou Marina ou Aécio não terá alternativa. A não ser que aceite o
Brasil derrapar para uma situação de crônica de mediocridade como a da
Argentina.
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