O Estado de S.Paulo
A presidente Dilma Rousseff completará seu
primeiro mandato com as contas públicas em frangalhos, mas seu quase
ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, prometeu um "esforço fiscal
maior" nos próximos quatro anos. Escalado para tranquilizar os mercados,
um dia depois da reeleição da presidente, ele foi mais parcimonioso nas
informações do que tem sido no manejo do dinheiro público. Não contou
como será o "esforço maior" - um tema fascinante, num país com um dos
orçamentos mais engessados do mundo. Não explicou sequer como será
fechado o balanço deste ano. O governo, limitou-se a dizer, deverá
empenhar-se para alcançar "a melhor meta fiscal possível" em 2014.
Nenhuma palavra, nenhum número, para dar uma ideia de como poderá ser
essa meta, nem sobre o possível envio ao Congresso de um projeto de
mudança da programação orçamentária. Mais que isso: o ministro encerrará
sua longa passagem pelo governo com mais um exercício de contabilidade
criativa? Sobre todos esses pontos, apenas silêncio. Se o seu objetivo
era mostrar aos mercados uma firme condução da política econômica, a
entrevista foi mais um fracasso.
O ministro nem sequer explicou por que será necessário um maior esforço fiscal. Afinal, a população, segundo ele, aprovou a política econômica executada nós últimos anos e por isso reelegeu Dilma. Se o governo acertou e se a sua política foi aprovada nas urnas, como disse o ministro, fica difícil entender qualquer mudança relevante, como deve ser um empenho maior para reduzir o desequilíbrio das contas públicas. Fiel ao estilo da presidente, o ministro passa longe do reconhecimento de qualquer erro. O padrão vale para todos os escalões. Um dia depois da entrevista de Mantega, o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Paulo Rogério Caffarelli, descreveu a atual gestão das finanças públicas como "uma política fiscal forte".
Com essa política, disse Caffarelli, será possível, nos próximos anos, fazer a inflação sair "do teto" e levá-la para a "parte central", criando condições para os juros convergirem para o "patamar internacional". Embora sem reconhecer qualquer falha do governo, o secretário admitiu um ponto raramente mencionado por seus colegas: uma gestão prudente das contas públicas tornará mais fácil o combate à inflação e abrirá espaço para uma redução dos juros. Faltou explicar por que a inflação estaria tão longe da meta de 4,5%, se a política fiscal fosse realmente "forte".
Afinal, o ministro e seu auxiliar parecem atribuir pouca importância à "aprovação" eleitoral da política econômica. Não houve, durante a campanha, nenhuma discussão séria dessa política. Os concorrentes preferiram passar longe dos detalhes mais complicados - e mais importantes, a longo prazo - da gestão orçamentária, da estratégia de crescimento industrial, do combate à inflação e da administração das contas externas. A presidente e seus auxiliares podem continuar com suas bravatas. Quem acompanha os números e sabe analisá-los pode contar a história dos últimos anos com maior realismo.
Para essas pessoas a credibilidade do governo é muito baixa. De alguma forma, a presidente e o ministro percebem o problema. Podem considerar-se injustiçados, mas têm de reconhecer o perigo: sem a confiança dos investidores e dos mercados em geral, o crescimento continuará insuficiente e será impossível de sustentar as políticas sociais. Mas é preciso muito mais que promessas vagas e retórica populista para construir credibilidade. Nesse quesito, o governo continua falhando.
Nenhum comentário:
Postar um comentário