Discriminação disfarçada
O GLOBO
Em
nome de alegadamente superar dificuldades ditadas por demandas
estruturais, de soluções mais complexas, o país tem sido pródigo em
recorrer a medidas imediatistas, rasas — que não atacam a raiz dos
problemas e propõem saídas pontuais, epidérmicas. Cria-se, com isso, a
sensação de que se removeram obstáculos, quando, na verdade, fica apenas
a falsa impressão de que grupos até então atingidos por algum tipo de
conflito terão ingressado no melhor dos mundos. As dificuldades
persistem, mas se vende a ideia de que elas estão ultrapassadas em
definitivo.
É o terreno em que prospera o populismo, na política,
na cultura ou outros setores. Uma dessas manifestações, em que há um
receituário contra as consequências, em lugar da mais árdua opção por
atacar as causas, ganhou abrigo no Senado. Por meio de sua Comissão de
Educação, a Casa discute uma reforma ortográfica que mal disfarça o viés
populista. A ideia central dos patrocinadores dessa causa é a adoção,
na língua escrita, do princípio de “se escrever como se fala". O
substrato seria uma pretensa necessidade de simplificar a ortografia
para facilitar a alfabetização.
Em nome disso, o grupo que
defende a reforma propõe a supressão de letras que não se pronunciam nas
palavras (como o “h” em “hoje”) e a duplicidade da grafia para o mesmo
som. A História está cheia de supostos bons propósitos que,
deliberadamente ou não, surgem, como ideia, com objetivos nobres, mas
que, na prática, se revelam nocivos. Este é um deles. Mira-se uma
pretensa inclusão social, mas a proposta mal disfarça seu caráter
discriminatório, pois parte do princípio de que as pessoas a quem se
pretenderia beneficiar com as mudanças não teriam condições de se educar
para alcançar novo patamar cultural.
A deterioração da norma
culta, portanto, se manifesta como metástase da perigosa doença do
populismo. É sintomático que, contra essa iniciativa, tenham se
levantado vozes representativas da inteligência nacional. A preocupação
imediata é que, tendo alcançado o Legislativo, o movimento prospere a
ponto de tais ideias chegarem ao plenário em forma de projeto de lei.
A
presidente da Associação Brasileira de Linguística, Marília Ferreira,
enviou à comissão do Senado um texto alertando que dificuldades de
alfabetização não são provocadas pela ortografia, mas pelas escassas
oportunidades que segmentos de estratos sociais mais baixos, supostos
beneficiários, têm de acesso a experiências educacionais e culturais
paralelas ao processo de aprendizado formal. O filólogo Evanildo Bechara
atribui a defesa da simplificação a um equívoco. E, em artigo recente
no GLOBO, a escritora Ana Maria Machado deu a receita: o remédio é
qualidade na educação.
São opiniões que não podem ser desprezadas
pelo Senado, caso se pretenda de fato levar à frente, até o
imprevisível crivo do plenário, o absurdo que se discute na Casa.
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