Fala mansa
DORA KRAMER - OESP
A
vantagem da reeleição é que o país não precisa esperar os dois meses
que separam a eleição da posse nem os tradicionais primeiros 100 dias de
governo para conferir se a figura do candidato se encaixa na pessoa do
presidente. Ou melhor: se o que foi feito para ganhar combina com o que
será feito para governar.
A presidente Dilma Rousseff que surgiu
reeleita na noite de domingo para discursar em prol do diálogo e da
união nacional era outra na forma, mas ainda ficou devendo a prova de
que na essência não continua a mesma.
Livre das jogadas ensaiadas
que fizeram dela mera repetidora de frases desconexas, Dilma pôde se
dirigir à nação com surpreendente fluência. Um alívio, pois se vê que
não há nada de preocupante com ela. Apenas, não sendo política de raiz,
tampouco é uma atriz. Nem improvisa nem segue com naturalidade o script.
Dilma
disse as palavras adequadas no momento certo. A cobrança dos últimos
dias eram todas no sentido em que foi construído o discurso. Era o que
se esperava dela. Correspondeu bem a essa expectativa, principalmente
quando exaltou o valor dos resultados apertados como agentes de mudanças
mais eficazes do que vitórias muito amplas.
Foi ao ponto ao
estabelecer que falar em união não significa defender unidade de ação e
pensamento, pois o espaço para a divergência é sagrado. E foi em frente
no comprometimento com reformas, com o reconhecimento de que pode ser
uma pessoa de trato bastante melhorado, que a economia necessita de
mudança de rumos, que o diálogo com todos os setores precisa ser
qualificado, que a corrupção requer duro combate e o Congresso um
relacionamento renovado.
As palavras da presidente são
completamente diferentes das atitudes da candidata. Em quem o país deve
acreditar? Aí depende da disposição de se aceitar, ou não, a teoria do
“diabo”, segundo a qual pela vitória vale tudo. Ou os fins justificam os
meios.
O problema da tese é que quem se orienta por ela pode
adotá-la em qualquer situação: na campanha ou no governo. De onde a
correção do discurso presidencial logo após a vitória deve ser visto com
ressalvas. Primeira delas: tão amoldado à expectativa e contraditório
em relação ao que gritava a militância que a ouvia ensandecida contra a
“mídia golpista”, que autoriza a desconfiança de que seja mais uma peça
de marketing.
A suspeita tem base em práticas anteriores. Já
vivemos a publicidade da “faxina”, da “gerente”, da “durona”, que hoje
promete ser “uma pessoa melhor”. Mas, sigamos com fé. Para que essa fé
não nos falhe é necessário que a formalidade das palavras seja
correspondida pela efetividade dos atos.
A presidente acena com
diálogo. Se a memória não comete grave traição, ela fez gesto semelhante
ao assumir a Presidência em 2010. A realidade resultou em isolamento.
Sim, pode ter havido aprendizado, mas desta vez é preciso explicitar
quais as bases, com quem e como o governo pretende estabelecer a
interlocução para ganhar crédito. Terá de levar o PT a adotar a mesma
orientação de que a crítica não significa “golpismo” e representa apenas
uma parcela substantiva da população.
O compromisso com as
reformas também não pode se resumir à repetição da proposta já repudiada
do plebiscito para a reforma política. Há outras na pauta que implicam
disposição do Poder Executivo de enfrentar e arbitrar contenciosos.
Para
concluir, o enrosco urgente da Petrobras. A presidente aborda o tema da
corrupção falando em mudanças nas leis. Não poderá, no entanto, passar
os próximos quatro anos de olhos fechados para o fato de o PT ter optado
por financiar seu projeto de poder por meio de traficâncias no aparelho
do Estado.
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