Eleição é coisa séria
Ninguém, em
sã consciência, nomeia um bandido para seu procurador privado. Por que o
desdém com a outorga pública a mandatários representada pelo voto?
NELSON PAES LEME - O Globo
Os
indivíduos de uma espécie dispõem de movimentação própria limitada e
pouco perceptível, como a rotação da Terra, por exemplo. Tudo o que
ocorre entre os indivíduos, até o sexo e a alimentação, é decorrência de
imposição anterior das próprias espécies e da movimentação coletiva à
qual pertencem. Os pensadores sociais que mais se aproximaram dessa
constatação singela, no caso da espécie humana, foram Durkheim, com sua
“consciência coletiva”, e Jung, com seu “inconsciente coletivo”. Há uma
ordem universal preconcebida e preestabelecida com rigor imutável que
torna o indivíduo de qualquer espécie dependente desta, mesmo depois de
morto biologicamente. Isto porque a morte de um indivíduo não significa a
morte da espécie, como comprovação incontestável dessa hipótese. Já o
contrário é inexorável: a extinção de determinada espécie não consegue
poupar seus indivíduos, o que é outra prova dessa interdependência entre
o monos e a polis, como assinalam os filósofos pré-socráticos em seus
preciosos fragmentos. Portanto, as coletividades estão hierarquicamente
acima das individualidades. A polis grega é a matriz, até semântica, da
ciência política, como é sabido. E nessa matriz, o voto das
coletividades em torno de uma liderança candidata (vindo de candura e
não de arrogância ou prepotência) é a maneira mais adequada e eficaz da
representação individual e coletiva ao mesmo tempo. O mandato que se
outorga a um representante, nas democracias, deve ser revestido até de
maior solenidade e de maior responsabilidade do que os poderes que se
outorgam a alguém, no plano individual, por uma procuração, para
representação na vida privada.
Ninguém, em sã consciência, nomeia
um bandido, um marginal ou mesmo uma pessoa de caráter duvidoso para
ser seu procurador privado. Por que, então, esse desleixo e até esse
desdém com a outorga pública a mandatários representada pelo voto? Ao
contrário, o mandato público requer até muito maior cautela e
consciência que o mandato privado. O mandatário público, ao inverso do
privado, lidará com verbas na casa de bilhões e, às vezes, trilhões. Um
mandatário privado se restringe, no máximo, a milhares ou a milhões. O
mandatário público lida com a saúde, a educação, a segurança, a energia,
o transporte, a água, a fiscalização dos alimentos, a infraestrutura, a
moeda, o crédito, a preservação do meio ambiente e a qualidade do ar
que respiramos, entre tantas outras relevâncias. Um mandatário privado
nunca se ocupa de temas tão abrangentes. Muitas vezes o mandato privado
se restringe a um único e específico ato.
Quando um mandatário
privado lesa seu outorgante, vira procurador infiel e se submete aos
rigores da lei. Mas isso é muito raro se comparado aos desmandos e à
corrupção generalizada constatados nos mandatários públicos. No Brasil
da impunibilidade geradora da impunidade, essa prática já virou quase
regra. Dilapida-se a coisa pública, os bens e o dinheiro públicos com a
mais completa desfaçatez (e até cinismo) sem qualquer punição imediata.
Com as raras e honrosas exceções de praxe. De quem é a culpa primeva?
Óbvio que do eleitor. Do outorgante do mandato público irresponsável e
leviano. Em duas palavras: nossa culpa.
Desde o fim da ditadura
militar, elegemos pelo voto universal direto e secreto (essa nossa
procuração pública outorgada na solidão da cabine eleitoral e no sigilo
da urna lacrada) apenas quatro mandatários para dirigir nossos destinos.
O primeiro deles vinha ungido pela mística da mudança e foi deposto nas
ruas por corrupção. Assumiu o vice, que evitou o retrocesso
institucional. O segundo, um intelectual de peso internacional, governou
por dois mandatos, reformou a economia e consolidou a democracia, mas
não conseguiu fazer seu sucessor. O terceiro, um operário sindicalista,
também em dois mandatos, promoveu um simulacro de crescimento e de
integração social, mas sua equipe central foi parar na cadeia. A quarta,
uma técnica da mesma burocracia partidária, sem qualquer experiência
como mandatária, entrega um país pior do que encontrou. Estamos às
vésperas de eleições gerais no Brasil. Ainda dispomos de leis muito
precárias e de instituições muito tíbias e muito frágeis em nossa
infante democracia. Cabe a nós, coletivamente, o aperfeiçoamento dessas
leis e dessas instituições para reger o político, o social e o
econômico. E não há outro caminho senão a representação, o mandato, o
voto consciente e ponderado, abstraído do “marketing político”, essa
aberração cosmética produzida em estúdios como qualquer personagem
novelesca de ficção. Já conseguimos a Lei da Ficha Limpa e isso foi
conquistado através de incisiva campanha coletiva. O voto consciente é o
desdobramento natural da ficha limpa, nesse sentido. Se cada brasileiro
conseguir dois votos conscientes dessas pobres vítimas do fisiologismo
corporativista e do paternalismo clientelista e eleitoreiro, certamente
teremos uma representação bem melhor do que esta que substituiremos
nesse próximo pleito. Por isso, a política é importante e
transcendental. E, nela, o voto consciente e cauteloso é, por certo, a
maior arma de defesa dos verdadeiros interesses dos indivíduos e da
coletividade. Um tema sério para a reflexão autocrítica de cada eleitor.
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