Sinais trocados
João Bosco Rabello - OESP
Não foram boas as
sinalizações da presidente reeleita, Dilma Rousseff, no seu discurso de
vitória, em que sobressai a proposta de uma reforma política
plebiscitária, já rejeitada pelo Congresso Nacional quando proposta no
auge das manifestações de rua em junho de 2013.
Ali atribuiu-se à falta de resposta imediata ao clamor das ruas por
melhor gestão pública, o recurso reforma como panaceia para as mazelas
nacionais. Mas sua reinserção no discurso da presidente vitoriosa nas
urnas parece desconhecer a ineficiência da proposta para a reversão dos
problemas que respondem pelo desgaste de seu governo.
Dilma não mencionou a oposição na sua proposta de diálogo, uma
omissão que, em discurso lido, preparado com antecedência, não pode ser
debitada a uma falha comum ao improviso dos pronunciamentos feitos no
calor das comemorações.
Sua oferta de diálogo pareceu ter como destinatário o eleitor, mesmo
finda a campanha, resvalando novamente para a relação direta com a
população, que a proposta plebiscitária já traíra no início de sua fala.
Disse não ver o país dividido e respaldou a exortação à união na
abstrata figura de “uma energia mobilizadora, um bom terreno para a
construção e pontes”.
É um mau começo para quem precisa sinalizar a um legislativo que
reduziu numericamente a bancada do PT, fortaleceu o PMDB que, por sua
vez, sai das eleições dividido em duas alas – a governista e a
oposicionista. E que terá um PSDB motivado na oposição , o que não
ocorreu em todo o seu primeiro mandato.
Dilma insistiu na crença de que o plebiscito legitimará a reforma
política que pretende fazer, abraçando a linha bolivariana do PT que
reduz a importância do Congresso Nacional como fórum , este sim,
legitimador das mudanças a serem implementadas no país.
A opção por fazer o discurso da vitória em ambiente de militância,
transformou o que deveria ser uma peça isenta, em consonância com a
proposta de conciliação nacional, em uma comemoração partidária, cuja
moldura era formada pelos dirigentes do PT que vocalizam o discurso do
“nós contra eles”, que permeou a campanha da candidata vitoriosa.
O palco do pronunciamento teve o desenho de gueto, a denunciar a
pressão que o PT tentará exercer sobre o segundo mandato da presidente,
sob os aplausos da militância, desprezando a importância do ritual
político que simboliza um governo para todos.
Dilma reeleita mostrou-se a mesma Dilma do primeiro mandato, que
continua sem pressa na indispensável reconciliação com o mercado, que
amanheceu de ressaca com o resultado eleitoral: bolsa em queda de 6%,
dólar em alta, a R$ 2,56 e as ações da Petrobras em baixa superior a
14%.
Não houve na campanha, e continua ausente, a informação essencial ao
mercado: o que pensa a presidente reeleita , para a economia, em seu
segundo mandato. A única menção ao tema foi tão vaga quanta
desalentadora, pela sugestão de medidas de varejo: “Promoverei ações
localizadas para retomar o ritmo de crescimento e manter a garantia de
níveis altos de emprego e salários”.
A corrupção, que seguramente será a principal protagonista do cenário
político, mereceu referência breve e genérica: “Terei um compromisso
rigoroso com o combate à corrupção, com mudanças na legislação para
acabar com a impunidade”.
É surpreendente que a presidente mantenha discurso que associa o
combate à corrupção com mais legislação, quando esta já garantiu o
avanço das investigações sobre a Petrobrás até o Supremo Tribunal
Federal, palco anterior das condenações de dirigentes de seu partido, e
de outros da base aliada, sem que fosse preciso uma parágrafo a mais no
texto legal.
O descuido com uma cena de vitória mais sintonizada com o momento de
divisão eleitoral do país, revela um bastidor conflagrado no PT, que
entrou na campanha dividido, inclusive com os dois principais atores do
teatro político, o ex-presidente Lula e a presidente reeleita,
estremecidos pessoalmente.
O discurso da presidente não contribuiu para a difícil tarefa de dar a
um governo reeleito sob forte desgaste político, um clima de novo.
Subtraídos os 15 milhões de votos dos beneficiários do bolsa-família
obtidos no primeiro turno – e ratificados no segundo -, pode-se dizer
que o governo foi politicamente reprovado nas urnas pela maioria da
sociedade organizada.
Com o país registrando crescimento abaixo de 1%, sem investimentos,
com inflação acima da meta e credibilidade internacional abalada (há
expectativa de novos rebaixamentos de crédito), analistas do próprio
universo governista temem que a presidente acredite que foi reeleita por
seus acertos.
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