A cultura do bode
Hélio Schwartsman - FSP
SÃO PAULO - "A culpa é do FHC." A escusa favorita de Dilma
Rousseff, receio, está fazendo escola. Não que todos estejam
incriminando o tucano por tudo de errado que acontece no país, mas
parece cada vez mais prevalente a tendência de não assumir as próprias
responsabilidades, preferindo imputar sempre a um terceiro os resultados
indesejados de suas decisões ou atitudes.
Que indivíduos ajam assim quando sua autoimagem está em jogo é um
fenômeno esperado pela psicologia. A situação se torna mais preocupante
quando policiais, delegados e promotores, que de algum modo deveriam
estar preocupados em "fazer justiça" (deixemos passar o caráter meio
metafísico da expressão), embarcam nessa mesma lógica.
Num exemplo concreto, o jovem estudante ingere voluntariamente 30 doses
de vodca numa festa universitária, entra em coma e acaba morrendo. De
quem é a culpa? Para o delegado que investiga o caso, o rapaz foi
assassinado pelos organizadores da festa, que foram presos sob a
acusação de homicídio com dolo eventual.
Não estou aqui afirmando que os organizadores não violaram nenhuma lei
ou norma de segurança nem que não tenham de alguma forma contribuído
para o trágico desfecho, mas não me parece que faça muito sentido
equiparar sua atitude à de alguém que tira intencionalmente a vida de
outra pessoa (homicídio doloso) ou mesmo à do sujeito que dá um tiro no
rival mirando sua perna, com o objetivo de assustá-lo, mas acerta o
coração e acaba por matá-lo (um caso mais clássico de dolo eventual, em
que perigos concretos são conscientemente desprezados pelo agente).
Não ignoro que dá para construir um bom caso filosófico em torno da
inexistência do livre-arbítrio. Mas, mesmo que ele não passe de uma
ilusão da consciência, as pessoas precisam assumir responsabilidade
pelos seus atos e parar de buscar bodes expiatórios, ou a vida em
sociedade se torna um romance muito mal escrito.
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