terça-feira, 3 de março de 2015

Judeus alemães são desaconselhados a usar o quipá
Peter Maxwill - Der Spiegel 
Dan Balilty/AP Photo
Cabeleireiro israelense Shalom Koresh criou em janeiro de 2015 um quipá invisível, feito de cabelo, para que judeus usem o tradicional solidéu com discrição Cabeleireiro israelense Shalom Koresh criou em janeiro de 2015 um quipá invisível, feito de cabelo, para que judeus usem o tradicional solidéu com discrição
O quão antissemita é a Alemanha? O Conselho Central dos Judeus está alertando os membros da comunidade os tradicionais solidéus que usam para cobrir a cabeça. É uma precaução que Mark Krasnov, 26, vem tomando há algum tempo.
 Antes de sair de casa, em Berlim, Mark Krasnov sempre se pergunta: devo me arriscar a usar o quipá? "Eu não quero provocar ninguém, nem dar ideias ruins às pessoas", diz o judeu de 26 anos de idade. O resultado é que dificilmente veste o solidéu quando sai às ruas. Ele acha muito arriscado.
A questão da segurança dos judeus na Alemanha se tornou tema de debate público na quinta-feira (26) depois que Josef Schuster, presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, perguntou em uma entrevista de rádio, "se realmente fazia sentido" em "bairros problemáticos, com grandes populações muçulmanas, tornar-se reconhecível como judeu, usando um quipá?" Ele sugeriu que "pode ser melhor escolher outra forma de cobrir a cabeça" em tais casos.
"O risco existe", concorda Krasnov, que é diretor do centro comunitário para a juventude judaica de Wiesbaden. "Quando você sai da sinagoga, os seguranças costumam dizer: é melhor tirar o quipá; é mais seguro". Krasnov diz que quase nunca mostra seu quipá quando está em público. "É uma medida de segurança preventiva e, em última análise, de autodefesa".
Krasnov diz que o problema não é novo, mas recentemente agravou-se. "Agora eu estou um pouco mais cuidadoso -é claro que também é uma reação aos ataques em Paris e Copenhague", diz ele. "O risco acaba de aumentar". Quatro judeus foram mortos no ataque a um supermercado judeu em Paris, que ocorreu em conjunto com o ataque fatal ao jornal satírico "Charlie Hebdo". Há duas semanas, duas pessoas morreram em ataques a um centro cultural judaico e uma sinagoga em Copenhague.
Mas há mais fatores envolvidos. Muitos judeus têm percebido uma mudança também no clima na Alemanha. A Fundação Amadeu Antonio, um grupo que combate o racismo, contabilizou 864 crimes antissemitas no ano passado, um aumento de quase 10% sobre 2013. A organização diz que seus números são derivados de informações fornecidas pelo governo federal alemão, que não são divulgadas publicamente.
A Alemanha abriga cerca de 250 mil judeus, e 118 mil pertencem às 108 comunidades judaicas oficiais do país. O país é o único na União Europeia que registrou um crescimento de sua população judaica nos últimos anos, enquanto muitos outros, incluindo a França, registraram um êxodo. Na verdade, a ansiedade entre os judeus franceses ficou extremamente elevada com o aumento do perfil dos ataques antissemitas. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, chegou a pedir aos judeus franceses que emigrassem para Israel.
Ainda assim, a comunidade na Alemanha se sente ameaçada por três lados: por extremistas de direita, que são responsáveis pelos ataques mais violentos contra judeus, pela esquerda anti-israelense e antissionista e pelos islamistas.
Krasnov diz que até mesmo os grandes protestos anti-islâmicos em Dresden e Leipzig, nos últimos meses fizeram ele se sentir "esquisito". As marchas foram organizadas pelo Pegida (Patriotas Contra a Islamização do Oeste), um grupo que tem como alvo específico a integração muçulmana. Mas sua vertente de direita também causa preocupação aos judeus.
Portanto, Krasnov prefere ser discreto. Ele diz que, mesmo não sendo o tipo de sujeito que sai gritando "slogans pró-israelenses", ele percebe que o simples ato de usar o quipá em público é considerado por alguns como uma provocação. "As pessoas olham, porque não é algo que estão acostumadas a ver".
Quando ele vai à sinagoga, ao seu centro de jovens ou aos cemitérios judaicos, ele sempre usa o quipá. E, eventualmente, ele o veste em público. "Se estiver acompanhado de um grupo quando vou de casa para a sinagoga, então às vezes me atrevo a usar", diz ele. "Porque eu sei que há outros comigo que podem me ajudar em caso de emergência".
Tradução: Deborah Weinberg

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