terça-feira, 3 de março de 2015

O couchsurfing funciona: como conheci Massachusetts com muito pouco dinheiro
Diego Cobo - El País
Jodi Hilton/The New York Times
Atravessei o Atlântico. Peguei o trem, o metrô, passeei pelo mapa e cheguei à casa de Nadim, na parte alta de Manhattan. Era um imenso edifício de apartamentos, e o porteiro verificou meus dados: meu anfitrião já havia informado sobre mim. Lá em cima, Nadim me recebeu com um gesto amistoso, como se me conhecesse havia tempo.
Claro que me conhecia, mas não pessoalmente: o couchsurfing tem dessas coisas. Você quer ir a uma cidade, sonda as possibilidades e acaba dormindo no sofá --ou em uma cama, ou no colchão, ou no chão, ou sobre almofadas-- da pessoa que o recebe. Em mais de 200 mil cidades e com mais de 10 milhões de usuários, Couchsurfing.com se transformou, em seus 11 anos de vida, na rede de hospedagem altruísta que é hoje: além de conhecer os lugares pela mão de moradores locais, permite economizar muito dinheiro em viagens adequadas apenas para viajantes flexíveis.
Recentemente percorri todo o litoral de Massachusetts durante três semanas, embora começando por Nova York, hospedando-me diariamente por meio dessa plataforma online onde se oferece basicamente hospedagem. Mas às vezes o convidam para jantar, o levam a passear, a tomar uns drinques e, como aconteceu comigo, lhe emprestam o carro --"mas deixe o tanque como estava".
A ideia do "couchsurfing" [literalmente, "surfe de sofá"] começou em 2004, quando um grupo de jovens mandou uma mensagem eletrônica para estudantes da Islândia. Ser recebidos por pessoas que não conhecemos, pensaram eles, que boa ideia! Eles a puseram em prática, e o sucesso é evidente. Hoje, além do imenso mapa de particulares que hospedam em suas casas, são organizados eventos, festas e demais consequências de se pôr em contato milhares de pessoas com os mesmos interesses.
Mas nem sempre é fácil encontrar hospedagem. Em minha estada em Nova York, passei por dois apartamentos, mas pedi um pedacinho de chão para mais de 40. Muitos responderam que naquelas datas não podiam, estavam ocupados, já tinham hóspedes. Outros responderam semanas depois, ou meses, pedindo desculpas pela demora e dizendo que "se você vier de novo, me avise". Às vezes seria mais simples ir diretamente a um hotel, mas isso pode acabar com sua poupança.
Finalmente, na primeira casa consegui um sofá e na segunda um colchão. Isto sem dar muitas explicações, e digo "muitas" porque no primeiro caso, na casa de Nadim, tive de explicar o motivo de minha visita e inclusive minhas intenções, embora pouco tivesse a ver com outro pedido que enviei para um potencial anfitrião. Este quis saber mais sobre mim, acabamos falando pelo Whatsapp e ele me ofereceu uma massagem. E eu sem entender nada. Ou entendendo tudo.
Minha viagem por Massachusetts começou em Concord, um povoado próximo de Boston. Ali me recebeu, encantada, Carol. Foi me buscar na estação rodoviária de Boston depois de dirigir mais de meia hora, cumprimentou-me sem muita ênfase e fomos para sua casa, um acolhedor edifício pré-fabricado que o colégio onde trabalhava fornecia para alguns professores.
"O que inclui o couchsurfing?", perguntaram-me muitas vezes. Eu sempre respondo a mesma coisa: o que seu anfitrião quiser. Às vezes lhe oferecem uma refeição ou o café da manhã, sempre um lugar para dormir e às vezes, mesmo que você seja um desconhecido, lhe dizem para "sentir-se em casa, pegue o que quiser". Mas outras vezes não lhe dizem nada, e embora essa rede seja construída sobre as fundações da confiança, ficamos imobilizados quando não nos dão explicações: então se respira certa contradição.
Creio que na Espanha o modo de receber as pessoas é diferente, como se existisse uma responsabilidade e se exigisse um excesso de atenção e formalidades que nos EUA não existem. Em Newport (Estado de Rhode Island), o início de minha rota litorânea que me levou até o extremo norte de Massachusetts, Eric me recebeu em sua casa despojada. Indicou-me o quarto de hóspedes, disse-me que precisava ir trabalhar --já era noite fechada-- e nunca mais voltei a vê-lo. Na manhã seguinte fui embora, deixando a chave que ele tinha me emprestado sobre uma mesa em uma cozinha de pernas para o ar. Em casos assim, não sabemos o que pensar.
Minhas sensações também não mudaram muito em minha escala seguinte, New Bedford, já em Massachusetts. Havia hesitado entre me hospedar na casa de Paul ou na de Russ; afinal me inclinei pelo primeiro, mas me vi no estacionamento de uma lanchonete com o segundo. Minha rota, que decidi fazer em um carro alugado, diante dos preços acessíveis do aluguel e da gasolina, me permitia maior liberdade para ir aos lugares que havia planejado e muitos dos quais o transporte público não alcançava.
E na casa de Paul, aonde cheguei com um pouco de comida no porta-malas, o fiz com uma dose a mais de desconfiança. Bati à porta da casa nesse antigo porto baleeiro --aqui começa o romance "Moby Dick"-- e apareceu um homem sem camisa que, através do vidro, me disse que avisaria Paul. Era seu irmão. O aspecto do lugar era lúgubre, o que não ajuda a gerar confiança quando você chega como convidado a um lugar com um pão de forma, latas de feijão e um saquinho de maçãs, e vê que seu anfitrião não sai de casa nos dois dias que você passa ali.
Enquanto isso, a televisão não para de cuspir notícias econômicas e seu computador, de projetar os valores da Bolsa, até que finalmente você comprova que o fundo tem muito mais valor que as formas e que nada de estranho acontece.
É nessas ocasiões especiais que chegamos a compreender nossa própria incompreensão das coisas. Não havia sido difícil encontrar hospedagem em New Bedford, no sul do Estado. Mal havia trocado algumas palavras com meu anfitrião antes que ele admitisse --que distância dos interrogatórios para conseguir uma cama em Nova York--, mas em pouco tempo Paul estava riscando mapas, dizendo-me como chegar aos lugares que eu queria.
Além de enfrentar a demora ou o absoluto silêncio nas respostas de possíveis anfitriões, uma viagem improvisada por meio do couchsurfing também tem muito de imprevistos. Porque nem sempre se encontra alojamento no lugar exato que se deseja, ou simplesmente não existem anfitriões ali: apesar das 200 mil cidades, existem espaços que ninguém cobre.
Com ligeira flexibilidade, fui subindo para o norte e passando as noites onde encontrasse um teto oferecido pelo couchsurfing. Em Cape Cod não foi fácil, principalmente porque esse "braço curvo e desnudo de Massachusetts", como o definiu Henry D. Thoreau em seu livro "Cape Cod" ("o ombro está em Buzzard's Bay; o cotovelo, ou o osso do cotovelo, em Cape Mallebarre; a munheca em Truro; e o punho arenoso em Provincetown", disse também), se enche de turistas no verão. No inverno, por sua vez, a população diminui e existe muito menos hospedagem. Finalmente fui recebido por Marcelo, um imigrante brasileiro que vivia com sua parceira Valerie e as duas filhas dela em Brewster.
Depois de percorrer o sul do cabo, telefonei para Marcelo de um restaurante para lhe dizer que estava indo para lá. Mas em um território de estradas labirínticas, florestas, lagoas e casas dispersas, combinamos em um posto de gasolina. Ele me esperaria ali com sua caminhonete de carpinteiro, disse-me. E lá estava eu 20 minutos depois, com uma saudação afetuosa --de novo a uma pessoa que só conhecia por meio daquela ligação e da letra padrão das poucas mensagens que trocamos pela rede--, disposto a segui-lo até sua casa.
Lá jantamos, trocamos confidências e acabamos tomando algumas taças de vinho. Eu o havia conhecido pessoalmente naquela noite, mas já existia certa confiança, quase códigos compartilhados, apesar de que desde minha volta dessa viagem pelos EUA não tive mais contato com nenhum deles. Serão possíveis tais oásis de lealdade concentrada?
No dia seguinte subimos pela "munheca em Truro" até o "punho arenoso de Provincetown". Ele me acompanhou e me guiou: o couchsurfing já não era somente uma cama --em sua casa tinha um quarto ótimo; nem sequer o jantar ou o café da manhã, ou uma noite de bebidas e risos. Também o serviço desinteressado de guia pela região, pois eu procurava alguns dos faróis mais representativos do cabo.
Dois dias depois, Valerie levou-me para almoçar no hospital onde trabalhava, de onde partiria pouco depois o barco que tomei para a ilha de Nantucket. O couchsurfing, que na fria teoria se baseia em hospedar-se na casa de desconhecidos, na realidade vai até onde chegar a cumplicidade.
Mas talvez quem mais me surpreendeu (parece que a surpresa do tratamento aumentava na medida em que minha viagem avançava) foi meu anfitrião em Nantucket. Apanhou-me na porta de um bar próximo ao porto desta ilha legendária, da qual partiu o barco Pequod, o baleeiro que, com fúria raivosa, perseguiu Moby Dick. Joguei a mochila na parte de trás da caminhonete e no caminho de sua casa de madeira ele parou para comprar umas cervejas. Mau presságio, auguravam meus preconceitos. E um erro delirante.
Em sua casa, Erick hospedava mais um rapaz, que dormia em outro quarto. Ele preparou um jantar e, superada a dúvida inicial, dei-me conta de que a generosidade daquele sujeito era tal que ele não lhe dava importância. Por essa mesma razão, sua mensagem na plataforma havia sido tão breve --apenas um "quando você vem?" e "aqui terá lugar". Mas suas maneiras diziam totalmente o contrário. "Entre e saia quando quiser, o chuveiro fica em cima, lá fora tem uma bicicleta, aqui está a geladeira, amanhã jantamos com meu amigo David e na quinta o levarei às 6h da manhã de novo até o barco."
E assim foi. Percorri a ilha em sua bicicleta e comprei uma garrafa de vinho para o jantar que dividiríamos com seu amigo David, que chegou um pouco tarde, mas trouxe uma garrafa de vinho argentino, dois rolos de papel-toalha (?) e uma lata de pó de café. Também me levou de volta ao barco depois de passar vários dias em sua casa, com um ligeiro aperto de mãos, mas sem muita ênfase, o que novamente se chocava com suas maneiras: não moveu a caminhonete enquanto não viu que o fiscal havia rasgado minha passagem e eu já subia a rampa do ferry-boat. Acenou com a mão, eu sorri e ele desapareceu.
Depois de Nantucket, seria difícil manter o nível, por isso me foi impossível encontrar alojamento desde a localidade de Sandwich até Boston. Dezenas de mensagens enviadas a Plymouth, a Scituate, a Duxbury, a Quincy, a Boston. Sempre explicando na página de Couchsurfing.com quem eu era, o que desejava e por que queria compartilhar um tempo com essa pessoa. Mas o tempo se esgotava, as desculpas eram variadas e resolvi que a melhor maneira de passar a noite seria novamente em Concord, o lugar de minha primeira visita. Carol ficaria encantada, disse a mim mesmo.
Ela me recebeu feliz por mais alguns dias. Dali eu iria até Gloucester, passar o dia. E também a Salem, cidade das bruxas, e ao restante do litoral. Ela se ofereceu para me emprestar o carro e o GPS, então me desfiz do carro alugado com o qual havia subido desde Hyannis, onde desembarquei ao chegar de Nantucket; também me livrei do imenso mapa da Nova Inglaterra que havia comprado em Nova York e cujo nível de detalhe tornava possível que eu chegasse a muitos pontos aos quais tinha de ir, muitas vezes no final de estradas secundárias.
Depois de mais alguns dias em sua casa em Concord, convivendo com seus pais e seu cão, jantando no colégio interno do imenso campus para adolescentes endinheirados da região, minha viagem chegava ao fim e eu tinha de partir. Ela telefonou para um amigo que conhecia bem o caminho até o aeroporto e fomos ao colégio. Ali pegamos uma caminhonete de propriedade do colégio ("muitas vezes utilizo meu carro para levar os alunos, por isso não há problema em pegar a caminhonete que está livre", justificou-se) e eu desci no Aeroporto Logan de Boston. Ela me abraçou ligeiramente, mas eu me senti muito endividado com Carolina e com cada uma das pessoas que, sem se dar muita importância, me deram tudo em troca de nada.

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