A 'nova rota da seda' e o Brasil
É hora de reconstruir o caminho das especiarias de Marco Polo, desta vez indo do Ocidente para o Oriente
Marcos Sawaya Jank - FSP
Mais de dois milênios após o seu surgimento, a grande novidade da China é
o projeto da "nova rota da seda". Chamada de "One Belt, One Road" (um
cinturão, uma estrada), a iniciativa foi apresentada em março pelo líder
Xi Jinping no Fórum Econômico de Boao.
A China pretende redesenhar a ordem econômica e política da região
criando um corredor de investimentos em infraestrutura que vai
interligar as grandes cidades ao longo das antigas rotas de especiarias.
Pelo lado terrestre, a rota irá da China para a Ásia Central, a Rússia e o sul da Europa.
Pelo lado marítimo, ela ligará o Sudeste Asiático, o oceano Índico, o leste da África e o golfo Pérsico, até o canal de Suez.
Duas grandes iniciativas que somam quase US$ 100 bilhões foram lançadas:
o AIIB (Banco de Investimentos e Infraestrutura da Ásia), que já atraiu
47 países interessados, apesar da forte oposição dos EUA, e o Fundo da
Rota da Seda.
A rota tradicional da seda nunca chegou às Américas, mas as grandes
navegações, sim. Foi em busca de novos caminhos para o Oriente que
espanhóis e portugueses desembarcaram no hemisfério Ocidental. Hoje o
principal excedente de especiarias do século 21 --minerais e produtos
agropecuários-- está bem mais a oeste da roda da seda, e a Ásia como um
todo precisa dele.
As importações chinesas de produtos agropecuários e alimentos mais do
que duplicaram nos últimos cinco anos, ao passar de US$ 47 bilhões para
US$ 108 bilhões por ano. Quem lidera a exportação para a China são os
EUA (US$ 30 bilhões) e o Brasil (US$ 22 bilhões), seguidos de Canadá,
Argentina, Austrália e Nova Zelândia. A China tornou-se o primeiro
mercado destino dos EUA e do Brasil, atingindo um quinto de suas
exportações.
O grande problema é que a China ainda pratica uma política comercial
altamente seletiva e cirúrgica, pautada pela busca da autossuficiência.
Quase 70% das importações chinesas no agronegócio concentram-se em um
pequeno grupo de matérias-primas básicas --grãos e fibras--, para as
quais a China abre exceção e facilita a entrada de produtos com tarifas
baixas. Estamos falando basicamente de soja e milho para produzir rações
para animais e algodão para a indústria têxtil.
As oportunidades inexploradas entre Brasil e China são imensas, não
apenas no campo do comércio mas também em investimentos, construção de
parcerias estratégicas e projetos de cooperação e treinamento. Apenas no
agronegócio, o vasto espaço de cooperação cobre infraestrutura e
logística, biotecnologia, qualidade e sanidade dos alimentos, joint
ventures e construção de cadeias produtivas integradas entre os dois
países.
Menos de um ano após a visita do líder Xi Jinping, em julho passado, o
Brasil recebe de 18 a 20 deste mês o primeiro-ministro da China, Li
Keqiang. É hora de aproveitar o bom momento das relações bilaterais para
avançar concretamente na exploração das grandes oportunidades que a
China e a nova rota econômica da seda podem oferecer para o Atlântico
Sul.
Sete séculos depois, é hora de reconstruir o caminho das especiarias de
Marco Polo com inteligência e sofisticação, desta vez indo do Ocidente
para o Oriente.
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