Ian Johnson - NYT
Sim Chi Yin/NYT
Livro de Li Riu é proibido na China, que tenta interceptar publicações críticas ao governoQuando Li Nanyang viajou de Hong Kong para Pequim, há dois anos, levou consigo algo que muitos historiadores e pensadores chineses aguardavam com ansiedade: várias dezenas de exemplares do livro de memórias de seu pai. Nele, Li Rui, de 98 anos, um oficial aposentado do Partido Comunista, oferecia um relato nu e cru sobre suas experiências dentro da liderança. Mas quando Li passou pela alfândega do aeroporto, as autoridades apreenderam os livros, uma experiência cada vez mais comum para os viajantes chineses que voltam ao país.
Em uma nação com a maior população mundial de usuários de internet, a batalha legal de Li pode ser percebida como uma coisa de outra época. Mas é exatamente por causa dos sofisticados filtros de internet da China que os livros e outras publicações impressas à moda antiga continuam sendo uma saída importante para os escritores e leitores que buscam driblar a censura chinesa --e um problema para o partido, que se esforça para limitar as informações que contradizem sua versão higienizada da história.
Segredo
Durante décadas, esses livros fluíram em segredo para a China a partir de Hong Kong, colônia britânica até 1997, onde os moradores ainda desfrutam de mais liberdade. Mas os autores e editores chineses dizem que os controles de fronteira se tornaram bem mais rígidos nos últimos anos, fazendo com que seja muito mais arriscado levar livros banidos para a China continental."Eu me sinto impotente --não tenho como mudar a política", disse Yin Hongbiao, professor da Universidade de Pequim. Como muitos acadêmicos chineses, ele publicou seu trabalho em Hong Kong, incluindo histórias bem conceituadas da destrutiva Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, mas teve problemas para levar cópias de seu livro para a China.
Yin disse que as autoridades da alfândega confiscaram seus livros em várias ocasiões durante os últimos três anos, impedindo que ele compartilhasse seu trabalho com outros acadêmicos. "É muito difícil contornar a situação", disse ele.
O controle mais rígido na fronteira --chamado de "Projeto Monte Sul", nome que se refere a um posto de vigilância que monitora Hong Kong, ao sul-- inclui a ampliação do uso de imagens de raio-X nas bagagens, principalmente de viajantes que parecem ser de etnia chinesa e desembarcam de voos ou trens que vêm de Hong Kong. As autoridades também notificaram os guias turísticos e pediram para que eles passem os alertas para os visitantes que possam ficar tentados a comprar as revistas políticas e biografias não autorizadas de líderes chineses vendidas nas livrarias de Hong Kong.
O foco, no entanto, tem estado nas pessoas que carregam pacotes de livros, mais fáceis de detectar nas imagens de raio-X.
Regulamentação
O aumento do rigor data do período anterior à reunião do Partido Comunista de 2012, quando Xi Jinping assumiu o poder. Uma regulamentação baixada em janeiro daquele ano diz que todos os viajantes que vêm de Hong Kong devem se submeter a um controle mais rigoroso da bagagem."Hong Kong se tornou uma fonte importante de atividade editorial prejudicial", disse uma ordem que teve ampla circulação. Os materiais, muitos publicados nos EUA ou no Ocidente, acrescentou a ordem, "distorcem a história revolucionária chinesa, a história do partido, a história da Nova China e da reforma e abertura, depreciam o partido e os líderes do governo."
A ação de Li está tentando obrigar os funcionários da alfândega a especificarem o que eles rejeitam no livro de memórias de seu pai. Isso os colocou em uma posição desconfortável, em parte porque o pai dela continua tendo uma boa posição enquanto membro do partido.
Crucial
Embora tenha sido expulso da liderança várias vezes --inclusive por um intervalo de cerca de 20 anos quando trabalhou no interior do país depois de contestar as políticas que levaram à fome em massa no final dos anos 50--, Li foi reabilitado depois da morte de Mao e desempenhou um papel crucial para restaurar outros membros do partido ao poder, alguns dos quais permanecem influentes. Mesmo assim, ele costuma pedir por mais democracia no partido, e apoia um jornal que mergulha nos aspectos sombrios da história do Partido Comunista.Seu livro de memórias, de 467 páginas, "O relato oral de Li Rui sobre acontecimentos do passado", publicado em 2013, em Hong Kong, faz parte dessa tradição. Com o tipo de detalhe que é retocado nas histórias oficiais, Li descreve com franqueza as desastrosas políticas de Mao e uma reunião importante em 1959, quando oponentes tentaram detê-lo. Li também compartilha suas opiniões sobre os funcionários que conheceu em sua carreira, inclusive a maioria dos principais líderes do país.
Li diz que seu pai foi condenado a não falar com jornalistas estrangeiros há quase dez anos e que se recusou a entrar com ela na ação judicial por causa da idade. Mas em fevereiro, ele participou de uma reunião para celebrar o 10º aniversário da morte de Zhao Ziyang, secretário reformista do partido, demitido antes do massacre de Tiananmen em 1989. De acordo com duas pessoas presentes, que pediram para não ser identificados, Li falou sobre o confisco do seu livro sobre o fracasso do partido em estabelecer um governo constitucional.
Visibilidade
Li, 65 anos, que mora na região de San Francisco depois de uma carreira nos Laboratórios Nacionais do Departamento de Energia, diz que a ação judicial é sua busca pessoal para dar visibilidade a este fracasso. "Quero que as pessoas pensem menos como indivíduos e mais como cidadãos", disse ela. "Quero que as pessoas assumam a responsabilidade por mudar a China, em vez de esperar que os que estão em cima reformem o sistema. Eu não espero ganhar", acrescentou ela, "mas quero chamar a atenção para as práticas da alfândega."Um tribunal de Pequim aceitou sua ação judicial em setembro depois que ela comprovou que ainda era cidadã chinesa, apesar de morar fora do país nos últimos 25 anos. De acordo com a lei chinesa, uma audiência deveria ter sido realizada no prazo de três meses. Mas os tribunais determinaram a postergação várias vezes, a mais recente este mês. "Eles podem continuar adiando o caso", disse o advogado dela, Xia Nan, "muito embora isso não corresponda ao espírito do direito."
Liu Junning, um estudioso de filosofia política que foi colocado na lista negra, disse acreditar que Li não tem muita chance de conseguir uma resposta do governo. "Se as autoridades quiserem que ela ganhe, ela pode ganhar", disse ele. "Mas se ela ganhar o caso, isso seria visto como um incentivo para outros."
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