Henry Siegman- TINYT
Ronen Zvulun/Reuters
O primeiro-ministro de
Israel, Benjamin Netanyahu, coloca pedido no Muro das Lamentações, em
Jerusalém, o lugar mais santo do judaísmoAs saudações estendidas na semana passada pelo presidente Obama ao novo governo de Israel podem soar conciliatórias, mas Obama não tem mais nenhuma ilusão a respeito dos líderes de Israel.
Bem antes de Netanyahu declarar durante a recente campanha eleitoral que os palestinos permaneceriam sob ocupação militar israelense enquanto ele fosse o primeiro-ministro de Israel, Obama entendeu que o entusiasmo do governo israelense pela continuidade das negociações de paz com os palestinos servia apenas para fornecer cobertura para a continuidade da expansão dos assentamentos judeus e impedir o surgimento de qualquer coisa que lembrasse um Estado palestino na Cisjordânia.
Diante dessa realidade sombria, alguns observadores torceram ingenuamente pela União Sionista de centro-esquerda durante a campanha. Mas a noção de que um governo liderado por Isaac Herzog e Tzipi Livni poderia produzir um acordo de dois Estados com os palestinos também era uma ilusão. Um acordo baseado nas fronteiras de 1967 nunca apareceu na plataforma da União Sionista ou foi proferida por Herzog.
Na verdade, estava claro para qualquer pessoa familiarizada com a história do conflito entre israelenses e palestinos que a pequena esperança restante por uma solução de dois Estados dependia do surgimento de um governo israelense totalmente sob controle da extrema direita de Israel. Apenas um governo de extrema-direita que ofendesse profundamente as sensibilidades democráticas americanas –-como este certamente fará-– poderia fornecer a abertura política necessária para uma mudança na política americana para o Oriente Médio.
Netanyahu não perdeu tempo em proporcionar essa ofensa, ao nomear como ministra da Justiça uma parlamentar do Knesset, Ayelet Shaked, que postou um artigo em sua página no Facebook pedindo a destruição de "todo o povo palestino, incluindo seus idosos e mulheres, suas cidades e aldeias, suas propriedades e infraestrutura".
A vitória da extrema direita de Israel fornece assim uma abertura inesperada, mesmo que estreita, para Obama, permitindo que ele peça uma reavaliação da política de paz dos Estados Unidos.
Essa reavaliação deve começar pelo abandono da antiga suposição de que os palestinos podem obter um Estado apenas negociando com Netanyahu. Devido às declarações e comportamento de Netanyahu durante as eleições (sem contar a continuidade da construção de assentamentos), essa crença foi irreparavelmente desacreditada. Agora é certo que uma solução de dois Estados nunca surgirá de alguma negociação bilateral entre israelenses e palestinos.
Esse acordo só pode ser obtido se o Conselho de Segurança da ONU, com forte apoio dos Estados Unidos, apresentar às partes termos claros para a retomada das negociações de paz que produzam um acordo dentro de um prazo específico. (Isso iria além de uma proposta francesa sobre a qual há rumores.)
Se Israel ou a Palestina, ou ambos, não aceitarem os termos do Conselho de Segurança, ou não conseguirem chegar a um acordo dentro do prazo específico, os Estados Unidos então se juntariam aos outros países no pedido para que o Conselho de Segurança resolva as questões pendentes do status final, como a situação de Jerusalém, o destino dos refugiados palestinos, os assentamentos ilegais e os arranjos de segurança.
Um governo israelense de direita certamente não aceitaria uma decisão do Conselho de Segurança pedindo pelo estabelecimento de um Estado palestino e o fim da ocupação por Israel. Mas essa decisão encorajaria os boicotes internacionais a Israel e contestaria sua legitimidade. O status de Israel como uma democracia seria amplamente questionado, e a amizade e apoio incondicionais dos Estados Unidos inevitavelmente ruiriam. Essas circunstâncias teriam maior probabilidade de mudar as políticas de Israel do que qualquer uma das atuais estratégias.
Essa mudança por parte do governo Obama sem dúvida encontraria forte oposição doméstica por parte do lobby pró-Israel e de muitos membros do Congresso. Mas a decepção com as políticas de Netanyahu, que acredito estarem crescendo entre os segmentos não ortodoxos da comunidade judaica americana (e possivelmente até mesmo dentro de parte de suas organizações esclerosadas) poderia fornecer a Obama o espaço político que ele precisa para se mover de modo decisivo em uma nova direção.
O governo dos Estados Unidos nunca assumiu um compromisso incondicional com Israel de bloquear um papel do Conselho de Segurança na promoção do acordo de paz de dois Estados. Ele se comprometeu a bloquear um papel do Conselho de Segurança enquanto houvesse uma perspectiva razoável de as partes chegarem a um acordo por conta própria. Essa perspectiva não existe mais.
Os Estados Unidos assumiram um compromisso incondicional com a segurança de Israel –acertadamente. Mas esse compromisso corre o risco de ser minado caso o governo Obama continue impedindo o Conselho de Segurança de buscar um acordo de dois Estados, ao mesmo tempo que fornece assistência militar a Israel para que mantenha a ocupação.
Os americanos seriam vistos como colaborando com o governo de Netanyahu na contínua opressão aos palestinos. Isso minaria irreparavelmente a honra e os interesses nacionais dos Estados Unidos.
O compromisso dos Estados Unidos com a segurança de Israel o obriga a pressionar o Conselho de Segurança a buscar o fim da ocupação e abrir o caminho para um Estado palestino.
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