Diversos Autores - IMB
Talvez
o principal erro teórico daqueles que se põem a imaginar formas de crescimento
econômico é ignorar o fato de que seu país, seu estado e sua cidade não são uma
ilha isolada, mas sim uma simples delimitação geográfica em meio a todo o globo
terrestre.
Quando
você imagina a economia de um país como sendo uma entidade completamente
isolada do mundo, seu crescimento econômico realmente se torna algo
difícil. Afinal, nesse cenário, você
teria de fabricar tudo localmente, você só poderia vender para seus vizinhos, e
toda a sua capacidade de investimento estaria limitada ao (escasso) capital
disponível em sua vizinhança.
Por
outro lado, quando você entende perfeitamente que seu país é um mero pedaço de
terra envolto por vários outros no globo terrestre, a perspectiva muda completamente.
A
partir do momento em que você entende que o seu mercado é global — em vez de
apenas local —, que você pode transacionar com qualquer indivíduo do planeta, que
você pode vender para, e comprar de, qualquer pessoa de qualquer ponto do
mundo, e que, principalmente, qualquer indivíduo do mundo pode investir em sua
área, toda a análise econômica muda.
Pense,
por exemplo, em uma determinada região do seu país que seja extremamente
pobre. Muito provavelmente, os
habitantes locais não terão capital físico nem recursos financeiros para fazer
grandes investimentos. Consequentemente,
será impossível que essa região enriqueça.
Entretanto, se você considerar que tal região está inserida em um grande
contexto global, o cenário muda totalmente.
Os habitantes locais podem não ter capital nem recursos próprios para
investir, mas certamente há outros habitantes do resto do globo que possuem
esse capital e que, com os devidos incentivos, terão sim interesse de investir
ali.
E
isso muda tudo.
Implicações
Quando
você passa a pensar em termos globais em vez de meramente nacionais, estaduais
ou locais, vários desafios econômicos desaparecem.
Um
exemplo trivial bastante interessante é o do setor aéreo de um determinado país. Vários economistas temem um oligopólio neste
setor simplesmente porque eles próprios cometeram o erro de criar um arranjo no
qual empresas aéreas estrangeiras são proibidas de fazer vôos nacionais dentro
deste país. Sendo assim, com o mercado
nacional fechado ao mercado global, e com as empresas aéreas nacionais
usufruindo uma reserva de mercado (por obra e graça das regulamentações
estatais, que proibiram empresas aéreas estrangeiras de fazerem voos nacionais),
a possibilidade de fusões e aquisições neste setor realmente irá levar a um
oligopólio.
Ato
contínuo, os próprios criadores deste cenário de reserva de mercado passam a
aplicar políticas que visam a impedir o surgimento deste oligopólio — como
leis anti-truste — ou que, em última instância, visam a tentar regular esse
oligopólio.
Perceba,
no entanto, que o erro foi cometido lá no início — quando o governo proibiu
empresas aéreas estrangeiras de fazer voos nacionais —, e o que se está
fazendo agora é um mero paliativo. A
partir do momento em que o governo fecha um mercado à concorrência externa,
tentar regulá-lo é um esforço inútil. É
impossível tornar mais eficiente, por meio de imposições burocráticas, um
mercado fechado que foi fechado à concorrência.
Por
outro lado, se o mercado aéreo de um país é aberto ao mundo, de modo que
empresas estrangeiras não são proibidas de — ao contrário, são bem-vindas para
— fazer vôos nacionais, não há a mais mínima possibilidade de fusões que levem
a um oligopólio. Para isso acontecer, todas
as empresas aéreas do mundo teriam de se fundir em uma só.
O
mesmo raciocínio acima se aplica ao setor de telefonia, ao setor de internet,
ao setor de TV a cabo, ao setor bancário, ao setor elétrico, ao setor
petrolífero, ao setor rodoviário e até mesmo ao setor de saneamento. Aliás, se aplica até mesmo a empresas de
ônibus, de seguro-saúde, hospitais, escolas, açougues, restaurantes,
churrascarias, padarias, borracharias, oficinas mecânicas, shoppings, cinemas,
sorveterias, hotéis, motéis, pousadas etc.
Se
você pensa nestes mercados apenas em termos locais ou nacionais, partindo da
premissa de que apenas pessoas que nasceram dentro dos mesmos limites
geográficos que o seu podem investir nestes setores, aí realmente o
desenvolvimento de vários destes setores será um grande desafio. Se você proíbe o capital externo de investir
nestes setores, a melhoria deles se torna bem mais difícil.
Por
outro lado, se você pensa nestes mercados em termos globais, de modo que
qualquer pessoa ou empresa do mundo tenha a liberdade de investir nele e de
auferir lucros, a realidade muda.
Como
bem disse Lee Kwan Yew,
o homem responsável por implantar as reformas econômicas que fizeram com que
Cingapura deixasse de ser um país de terceiro mundo — praticamente uma favela a
céu aberto — e se transformasse em um país de primeiro mundo,
Enquanto a maioria dos países do Terceiro Mundo denunciava a exploração das multinacionais ocidentais, nós as convidamos todas para ir a Cingapura. Desse modo conseguimos crescimento, tecnologia e conhecimento científico, os quais dispararam nossa produtividade de uma maneira mais intensa e acelerada do que qualquer outra política econômica alternativa poderia ter feito.
Quando
se entende que o mercado é global, e não meramente local, vários obstáculos
deixam de existir. Problemas como falta
de recursos físicos ou de capital financeiro são imediatamente mitigados. Se os empreendedores de uma determinada
região não possuem recursos para fazer um investimento vultoso e altamente
demandado pelos habitantes locais, certamente há empreendedores no resto do
mundo que possuem. E, se estes tiverem a
garantia de que poderão manter seus lucros, eles virão.
Se
um determinado país está sem recursos para construir portos, aeroportos,
estradas, sistemas de saneamento etc., certamente há investidores e
empreendedores em algum ponto do globo interessados em ganhar dinheiro com este
mercado. Basta apenas deixá-los livres
para tal.
Se um país cria um ambiente de respeito à propriedade privada, permite a
liberdade de comércio, incentiva o investimento estrangeiro, fornece plena
liberdade às transações comerciais, e permite a acumulação de capital, metade
da estrada para o progresso já foi percorrida.
Falta agora a outra metade.
As
quatro barreiras ao crescimento econômico
Sim,
o crescimento econômico e o enriquecimento são possíveis em qualquer ponto do
planeta. Sim, fazer uma economia crescer
é fácil. Com efeito, o crescimento
econômico é algo que ocorre de maneira natural.
Como indivíduos inseridos em um mercado global, nossa predisposição à
produção e às trocas comerciais é inata, pois nossa sobrevivência depende
delas.
Um
brasileiro transacionar comercialmente com outro brasileiro é tão efetivo
quanto esse mesmo brasileiro transacionar com um vietnamita. Em ambos os casos, ele está buscando melhorar
seu padrão de vida.
Não havendo barreiras ao exercício dessas trocas comerciais, o crescimento
econômico ocorre como que por gravidade.
Por isso, é essencial entender quais são as barreiras que podem impedir
o crescimento econômico.
Moeda
A primeira e mais crucial barreira ao crescimento é a saúde da moeda. Dado que o dinheiro representa a
metade de toda e qualquer transação econômica, a saúde da moeda irá
determinar a saúde de toda a economia. Se a moeda é instável, a economia também
se torna instável.
Além de ser o meio de troca, a moeda é a unidade de conta que permite o
cálculo de custos de todos os empreendimentos e investimentos. Se essa unidade de conta é instável — isto
é, se seu poder de compra cai contínua e rapidamente, principalmente em termos
das outras moedas estrangeiras —, não há incentivos para se fazer
investimentos.
Daí os economistas clássicos, à sua época, já defenderem a ideia de que a
moeda, para ser eficaz, deveria ser a mais estável possível. Tais
economistas corretamente compreenderam que ter uma moeda cujo valor flutuasse
constantemente seria o equivalente a utilizar unidades de medida que flutuassem
diariamente.
Hoje, infelizmente, a teoria econômica que se tornou dominante — e que é
adotada por quase todos os governos — inverteu completamente essa
lógica. Os economistas de hoje não mais veem o dinheiro como uma unidade
de conta que deve ser a mais estável possível. Ao contrário: eles
acreditam que uma unidade de conta totalmente volúvel e flutuante,
principalmente em relação às demais moedas estrangeiras, turbina a atividade
econômica.
Eis o principal problema com esse raciocínio: quando investidores investem
— principalmente os estrangeiros —, eles estão, na prática, comprando um
fluxo de renda futura. Para que investidores (nacionais ou
estrangeiros) invistam capital em atividades produtivas, eles têm de ter um
mínimo de certeza e segurança de que terão um retorno que valha alguma coisa.
Mas se a unidade de conta é diariamente distorcida e desvalorizada, se sua
definição é flutuante, há apenas caos e incerteza. Se um investidor não
faz a menor ideia de qual será a definição da unidade de conta no futuro
(sabendo apenas que seu poder de compra certamente será bem menor), o mínimo
que ele irá exigir serão retornos altos em um curto espaço de tempo.
Para países em desenvolvimento, que precisam de investimentos estrangeiros,
essa questão da estabilidade da moeda é ainda mais crucial. E por um motivo muito simples: uma moeda
estável cria as condições necessárias para a transferência de conhecimento.
O conhecimento acompanha o investimento: o capital estrangeiro vem acompanhado de conhecimento estrangeiro.
Se um país desvaloriza continuamente sua moeda, ele está mandando um sinal
claro aos investidores estrangeiros: "mantenham sua riqueza financeira e
intelectual longe daqui; caso contrário, você irá perdê-la sempre que for
remeter seus lucros".
O máximo a que um país de moeda fraca pode aspirar é utilizar para fins de
curto prazo o capital puramente especulativo (o chamado "hot money") que entra
no país à procura de ganhos rápidos com arbitragem. Adicionalmente, os melhores cérebros do país
abandonarão as profissões voltadas para o setor tecnológico e irão se
concentrar no mercado financeiro, especialmente no setor de hedge.
Já um país de moeda forte e estável envia um sinal bem diferente ao mundo:
"tragam seu dinheiro; mandem para cá seus especialistas; construam suas
fábricas aqui; ensinem a nós tudo o que vocês sabem; e riqueza que vocês
criarem aqui voltará para vocês multiplicada e em uma moeda que mantém seu
valor".
E é exatamente por isso que uma moeda forte e estável é indispensável para o
crescimento econômico. Quando a moeda é estável, investidores têm mais
incentivos para se arriscar e financiar ideias novas e ousadas; eles têm mais
disponibilidade para financiar a criação de uma riqueza que ainda não
existe. O investimento em tecnologia é maior. O investimento em
soluções ousadas para a saúde é maior. O investimento em infraestrutura é
maior. O investimento em ideias para o bem-estar de todos é maior.
Já quando a moeda é instável — ou passa por períodos de forte
desvalorização —, os investidores preferem se refugiar em investimentos
tradicionais e mais seguros, como imóveis e títulos do governo. Não há
segurança para investimentos de longo prazo, que são os que mais criam riqueza.
Uma moeda instável desestimula investimentos produtivos. E,
consequentemente, age contra o crescimento econômico.
Uma moeda forte e estável é indispensável para atrair o capital estrangeiro
e, com isso, gerar crescimento econômico.
Estando a questão da moeda resolvida, restam três barreiras.
Impostos
Uma característica humana que todos nós temos, e que torna o crescimento
econômico algo fácil e natural, é o fato de que nossos desejos são
ilimitados. Estamos sempre desejando
coisas a mais. Só que, para poder
consumir esses bens que desejamos, temos antes de ter produzido algo. Como indivíduos, nós trocamos "produtos por
outros produtos". Trabalhamos em troca
de dinheiro, é verdade, mas só aceitamos esse dinheiro porque sabemos que, com
ele, poderemos adquirir outros produtos.
Ou seja, o que permite o nosso consumo é a nossa produção, que
necessariamente tem de vir antes do consumo.
No nível mais simples, um indivíduo tem primeiro de oferecer algo de
valor para só então poder comprar algo que deseja. E o fato de termos de produzir para consumir
— ou seja, o fato de que temos de trocar nossa mão-de-obra por alimentos,
roupas, abrigos, veículos e amenidades várias que ainda não possuímos — é o
que gera o crescimento econômico.
Portanto, para se estimular o crescimento econômico, é crucial estimular a produção. O caminho para o crescimento econômico passa
pelo estímulo da oferta.
E, para estimular a oferta, além de uma moeda forte e estável, é necessário
remover as barreiras tributárias, burocráticas e comerciais que emperram a
produção.
Vale repetir: para que os indivíduos possam consumir, eles têm antes de
produzir. Sendo assim, é crucial remover
obstáculos à produção.
E o primeiro obstáculo a ser removido são os impostos. Impostos nada mais são do que um preço que o
governo coloca sobre a produtividade; uma penalidade impingida ao trabalho.
Empreendedores são, por definição, indivíduos que gostam de se
arriscar. Quando empreendedores
talentosos de todos os cantos do globo decidem investir em um país, eles estão
correndo risco e esperam enriquecer em decorrência disso. No entanto, se o preço a ser pago são
impostos altos, vários serão desestimulados.
Para o criador de software cujas inovações irão aprimorar a eficiência das
empresas, ou para o cientista cujo trabalho irá demandar várias horas para
encontrar a cura do câncer, passando pelo simples dono de restaurante que
alimenta as pessoas, tributar sua renda equivale a cobrar um preço pelos seus
esforços. Equivale a cobrar deles um
preço pelo seu trabalho, algo totalmente sem sentido.
Por isso, o objetivo deve ser o de diminuir esse preço do trabalho a fim de
estimular ao máximo os esforços econômicos. Em virtude de seu sucesso, empreendedores
melhoram substantivamente as nossas vidas, e o fato de que eles devem ser
punido por isso, tendo uma fatia de sua renda confiscada, deveria ser visto
como algo grotesco.
Não há empregos sem investimentos. E
não há empregos que paguem bem sem investimentos vultosos. Se a renda dos
investimentos será tributada, o incentivo para empreendê-los é drasticamente
reduzido.
Por tudo isso, é crucial que o governo seja o menor possível. Quanto maior for o governo, maiores serão
seus gastos. Quanto maiores forem seus
gastos, maiores terão de ser os impostos.
E quanto maiores forem os impostos, menores serão os incentivos ao
investimento e à produção. (Se o governo
financiar seu aumento de gastos por meio do endividamento, o resultado será inflação,
o que nos remete ao item 'moeda').
Quando políticos falam que irão aumentar os gastos, o que eles realmente
estão dizendo é que irão aumentar os custos sobre os indivíduos produtivos, que
são aqueles que arcam com o ônus dos impostos.
Aumentar os gastos do governo equivale a aumentar os custos sobre
aqueles que levantam cedo e vão trabalhar.
Burocracia
Empreendimentos são feitos em busca do lucro. E a burocracia inibe o processo. A burocracia exige que uma grande quantidade
de tempo, energia, esforço e dinheiro seja gasta apenas para se certificar de
que o empreendimento está cumprindo todas as ordens inventadas pelos
funcionários do governo.
A burocracia nada mais é do que um custo artificial imposto ao
empreendimento.
Embora raramente atinja seus supostos objetivos, a burocracia é extremamente
bem-sucedida em sufocar a economia e impedir o surgimento de novos
empreendimentos. A burocracia rouba dos
trabalhadores e dos empreendedores o tempo e os recursos que poderiam ser
direcionados à produção de bens e serviços desejados pelo mercado.
O mais irônico de tudo é que toda a burocracia estatal — suas leis e
regulamentações — está majoritariamente sob o comando de pessoas que
jamais empreenderam em toda a sua vida, mas que se sentem perfeitamente aptas a
ditar ordens aos reais empreendedores.
Comércio
O comércio é o mais simples desses quatro elementos relacionados ao
crescimento econômico. Cada um de nós,
na condição de indivíduo, pratica diariamente o livre comércio. Todos nós somos adeptos do livre comércio
porque o livre comércio é justamente o propósito de trabalharmos.
Todos nós trabalhamos diariamente porque há muita coisa que queremos mas que
ainda não temos. Trocamos os frutos do
nosso trabalho pela comida, pelas roupas, pelos carros, e pelos aparelhos
eletroeletrônicos que não produzimos, mas que são produzidos por terceiros ao
redor do globo.
Sendo assim, tarifas de importação nada mais são do que uma punição sobre o
nosso trabalho e nossa produção. Tarifas
de importação são tautologicamente um imposto sobre o nosso trabalho e nossa
produção.
Pior ainda, tarifas de importação sempre são implantadas pelo governo com o
intuito de proteger a reserva de mercado de empresas ineficientes (se fossem
eficientes, não teriam medo da concorrência estrangeira), o que acentua a nossa
privação. Trabalhamos e produzimos, mas
o governo só nos permite trocar os frutos da nossa produção por bens nacionais
mais caros e de baixa qualidade.
No que mais, barreiras comerciais sempre são retaliadas pelos outros países,
o que significa que as empresas nacionais mais eficientes arcarão com o maior
dos ônus: mercados estrangeiros fechados.
Isso reduz o estímulo a novos investimentos em empresas eficientes, e
privilegia o investimento em empresas protegidas da concorrência. No geral, a ineficiência econômica é premiada
e aumentada.
Conclusão
Atualmente, a economia passou a ser vista como algo
intimidante, uma ciência sombria e impenetrável, compreendida apenas por
acadêmicos especializados. Não deveria
ser. Todos nós somos microeconomistas em
nossa rotina diária. As principais noções
de economia estão ao alcance da compreensão de qualquer pessoa que pratique
trocas comerciais em sua rotina. A
economia está em todos os cantos para onde você olhe. Nada é mais fácil de
entender do que as noções básicas de economia.
As medidas que geram crescimento econômico são lógicas, sensatas e
facilmente compreendidas por qualquer um, pois vivemos suas consequências
diariamente.
É necessário ter um Ph.D. em economia para complicar o
assunto.
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