Nicolas Bourcier e Stéphane Foucart - Le Monde
Chris Wattie/Pool/AFP
Apesar dos atentados de Paris, Ottawa suspende seus ataques e quer acolher 25 mil refugiadosApós sua retumbante vitória nas eleições legislativas de outubro, Justin Trudeau tomou uma decisão de forte impacto simbólico. Duas semanas antes de seu juramento em Ottawa, o futuro primeiro-ministro canadense telefonou para o presidente Barack Obama para lhe assinalar sua decisão de suspender a participação de seu país na missão militar no Iraque e na Síria. Os seis aviões de caça engajados contra a organização Estado Islâmico (EI) agora permaneceriam em solo.
Foi uma maneira de o jovem e insolente Trudeau, eleito sobretudo pela promessa de um Canadá "responsável e engajado de maneira positiva no mundo", mostrar que pretendia manter sua palavra: o país queria esquecer o mais rápido possível os anos Stephen Harper, uma década na qual o ex-chefe do governo conservador havia se afastado de uma longa tradição de multilateralismo no cenário internacional. "Para nós, a questão nunca foi saber se o Canadá devia ou não se envolver militarmente, mas sim qual seria a melhor maneira de estar presente", explicou ao "Le Monde" o novo primeiro-ministro liberal às vésperas da abertura da COP21.
Mais treinadores
"Estamos retirando nossos aviões da Síria, mesmo com os atentados de Paris, porque a melhor maneira de o Canadá ajudar talvez não seja com esses seis aviões de caça", ele diz. "Não estou dizendo que os ataques aéreos sejam inúteis, pelo contrário. Mas cada um dos 65 países da coalizão faz coisas bem diferentes."O novo primeiro-ministro pretende concentrar os esforços canadenses na formação de tropas locais contra os jihadistas. Justin Trudeau afirma que quer aumentar o número de treinadores militares em campo, atualmente em 70, mas sem especificar o número total que ele quer destacar. "Estamos justamente trabalhando com nossos aliados para avaliar nosso impacto real", ele diz, antes de acrescentar: "Durante dez anos no Afeganistão, o Canadá desenvolveu uma competência no nível da formação de tropas locais. Todos sabem que em lugares como o Oriente Médio não são os ocidentais que vão resolver o problema. A ideia é realmente ajudar as comunidades e os Exércitos locais a manterem suas posições contra os terroristas."
"Parceiro desejável"
Nessa mesma linha, Justin Trudeau afirmou que o Canadá assuma sua parte na atual crise migratória, acolhendo 25 mil refugiados sírios. "O país sempre soube que o fato de trazer pessoas em situação de risco, de integrá-las em nossos bairros, nossas comunidades e nossas sociedades, era um bom caminho não somente para o mundo, mas também para a diversidade, a economia e o sucesso de um país."Para Justin Trudeau, esses 25 mil refugiados "serão 25 mil novos canadenses já nos próximos meses": "É evidente que após os atentados de Paris, uma de nossas preocupações é garantir que essas pessoas sejam acolhidas de maneira positiva e calorosa, e não com preocupação. Então vamos levar um pouco mais de tempo para nos certificarmos de que tudo foi feito com respeito à segurança", ele ressalta.
Segundo as estimativas do primeiro-ministro, 10 mil refugiados sírios deverão aterrissar em solo canadense antes do dia 1º de janeiro de 2016 e mais 15 mil até o final de fevereiro. "Somos um país que quer contribuir de maneira ativa e positiva para as grandes questões do mundo, pois o Canadá já esteve e ainda estará em um momento em que o mundo precisará disso. Isso faz parte dessa vontade de voltar a se tornar um parceiro desejável", ele diz.
É uma maneira de lembrar um de seus slogans de campanha: "Canada is back". O Canadá está de volta, mas à sua maneira.
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