Hackers usam velho golpe de internet para ajudar Assad
David E. Sanger e Eric Schmitt - TNYTNS
Para o jovem combatente sírio rebelde, a mensagem pelo Skype no início de dezembro de 2013 parecia vir de uma mulher no Líbano, chamada Iman Almasri, interessada pela causa dele. A foto dela, em um pequeno ícone ao lado de seu nome, mostrava uma jovem de pele clara na faixa dos 20 anos, com um lenço de cabeça preto e óculos escuros.
Para o jovem combatente sírio rebelde, a mensagem pelo Skype no início de dezembro de 2013 parecia vir de uma mulher no Líbano, chamada Iman Almasri, interessada pela causa dele. A foto dela, em um pequeno ícone ao lado de seu nome, mostrava uma jovem de pele clara na faixa dos 20 anos, com um lenço de cabeça preto e óculos escuros.
"Como um anjo", ele respondeu. "Você me deixa louco."
O que o combatente não sabia é que escondido no código da segunda foto estava um malware potente que copiou arquivos de seu computador, incluindo planos táticos de combate e grande quantidade de informações sobre ele, seus amigos e companheiros de combate. A mulher não era uma amiga de bate-papo, mas um hacker pró-Assad –todas as fotos aparentemente foram retiradas da internet.
O conflito sírio é marcado por uma ciberbatalha muito ativa, mesmo que apenas esporadicamente visível, envolvendo todos os lados, uma que é menos dramática do que as bombas de barril, atiradores de elite e armas químicas –mas talvez seja igualmente eficaz. Os Estados Unidos penetraram profundamente nos sistemas telefônico e de internet na Síria um ano antes dos levantes da Primavera Árabe se espalharem pelo país. E assim que começou, os guerreiros digitais de Assad começaram a atuar, à procura de qualquer vantagem que pudesse mantê-lo no poder.
Neste caso, o combatente caiu no mais velho golpe da internet, um que ajudou os aliados de Assad. A conversa está presente em um novo estudo feito pela divisão de coleta de inteligência da FireEye, uma empresa de segurança de informática, que penetrou em cantos escondidos do conflito sírio –um no qual até mesmo uma força de combate de baixa tecnologia encontrou uma forma de usar a ciberespionagem a seu favor. Os pesquisadores da FireEye encontraram uma coleção de conversas e documentos enquanto pesquisavam malware escondido em documentos PDF, que costumam ser usados para compartilhar cartas, livros e outras imagens. Isso os levou rapidamente aos servidores onde os dados roubados ficam armazenados.
Assim como os hackers que os Estados Unidos dizem que trabalhavam para a Coreia do Norte quando atacaram a Sony Pictures em novembro, os hackers que auxiliam as forças de Assad neste caso tomaram medidas para esconder suas verdadeiras identidades.
O relatório diz que os hackers pró-Assad roubaram uma grande quantidade de documentos fundamentais revelando a estratégia, os planos táticos de batalha, pedidos de suprimentos e dados sobre as próprias forças da oposição síria –que puderam ser usados para rastreá-los. Mas não ficou evidente como ou se essa informação de campo de batalha foi usada.
"Você tem um conflito com a participação de muitos combatentes jovens, que mantêm seus contatos e suas operações no telefone no bolso de suas calças", disse um alto funcionário da inteligência americana, que falou sob a condição de anonimato para discutir assuntos de espionagem. "E está claro que as forças de Assad têm a capacidade de explorar isso."
Assad também foi vítima de ciberataques, mas de uma natureza bem mais avançada.
Um documento da NSA (Agência de Segurança Nacional, na sigla em inglês) datado de junho de 2010, de autoria do chefe de "Acesso e Desenvolvimento de Alvo" da agência, descreve como o envio de "aparelhos de rede de computadores (servidores, roteadores, etc.) sendo entregues a nossos alvos por todo o mundo são interceptados" pela agência. O documento, publicado recentemente pela "Der Spiegel", a revista alemã, veio da grande quantidade vazada por Edward J. Snowden; ele mostra uma foto de funcionários da NSA abrindo uma caixa de equipamento da Cisco Systems, uma grande fabricante de equipamento de rede.
Após ser aberto, "implantes sinalizadores" foram colocados no circuito. Um conjunto de dispositivos era "destinado à Sirian Telecommunications Establishment para serem usados como parte de sua estrutura de internet", revela o documento. Para encanto das agências de inteligência americanas, eles logo descobriram que tinham acesso à rede de celulares do país –permitindo às autoridades americanas descobrir quem estava ligando para quem e de onde.
Essas interceptações ainda são altamente confidenciais e o governo americano nunca discutiu seu acesso à rede de comunicações de Assad. Mas o relatório da FireEye, deixa claro que essa "exploração da rede" agora é parte rotineira até mesmo das guerras civis mais brutais, mesmo de que de baixa tecnologia, e disponível até mesmo para aqueles que operam com orçamento limitado.
E esse é um novo desdobramento. O roubo dos planos de combate dos rebeldes contrasta do cibervandalismo realizado nos últimos anos pelo Exército Eletrônico Sírio, que as autoridades de inteligência americanas suspeitam ser na verdade iraniano, que realizou ataques contra alvos nos Estados Unidos, incluindo o site do jornal "The New York Times". Mas a maioria deles foi de ataques de negação de serviço, que são incômodos, mas não algo capaz de mudar o jogo no campo de batalha.
Exatamente quem conduziu o hacking em prol das forças de Assad permanece um mistério, assim como se os dados roubados foram usados pelos militares sírios. Um dos autores do relatório, Nart Villeneuve, um analista de inteligência de ameaça da empresa, disse que é provável que os hackers estavam no Líbano –o que seria a única declaração verdadeira na conversa com o combatente sírio. Eles usaram um servidor na Alemanha, onde a FireEye encontrou muitas das conversas deles em diretórios não protegidos. Um punhado de alvos da operação síria foram contatados nos últimos meses por pesquisadores da FireEye.
"Eles realmente não entendiam o que tinha acontecido", disse Villeneuve. "Eles não sabiam que seus computadores e telefones tinham sido comprometidos."
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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