Portugal quer reparar 'tiro no pé' histórico contra judeus
Luiz Felipe de Alencastro
A notícia de que o governo português aprovou na última quinta-feira
(29) um decreto-lei regulamentando a concessão de nacionalidade
portuguesa, por naturalização, a descendentes de judeus sefarditas
(oriundos da península ibérica) expulsos de Portugal a partir do século
15, repercutiu no Brasil. O tema deve ter interessado muita gente. Foi
assunto, notadamente, de uma reportagem no "Jornal da Globo".
Em fevereiro do ano passado, o governo espanhol havia tomado uma medida
pioneira da mesma natureza. Como sublinharam os jornalistas da Globo,
milhões de brasileiros têm nomes de origem sefardita. Isto quer dizer
que todos poderiam pleitear a nacionalidade portuguesa? Não é bem assim.
Excluindo os degredados, a maior parte dos judeus portugueses que
vieram para o Brasil colônia não foram propriamente "expulsos" de
território português. Até 1822, a América portuguesa era um território
sob a soberania lisboeta e seus habitantes continuavam sendo súditos da
Coroa de Portugal. Mesmo quando eram executados, torturados ou
extorquidos.
Teoricamente, a reparação visaria sobretudo os
portugueses (incluindo portanto os colonos do Brasil) judeus e
cristãos-novos --judeus convertidos a força ao catolicismo-- que fugiram
para outros países. Ou os brasileiros descendentes dos indivíduos que
foram diretamente atingidos pelos braços da Inquisição portuguesa. Será
preciso esperar a publicação do decreto-lei, no próximo mês de março,
para dirimir tais dúvidas.
Citada por alguns jornais para
calcular o número de descendentes de sefarditas ibéricos vivendo fora de
Portugal e da Espanha, a cifra de 3,5 milhões de indivíduos parece
bastante subestimada. A expulsão dos judeus e as perseguições aos
cristãos novos têm sido regularmente condenadas em Portugal. Quase
sempre a crítica se fundamenta na perda de capitais e de cérebros que
tal medida causou. A ponto de se atribuir o subdesenvolvimento de
Portugal à repressão praticada pela Inquisição.
Já em 1643, o
padre Antônio Vieira escrevia ao rei d. João 4º para criticar a
incoerência econômica da política régia: "Verdadeiramente é
dificultosíssima de entender a razão de Estado de Portugal porque, sendo
um reino fundado todo no comércio, lança os seus mercadores para os
reinos estranhos...". Vieira se referia aqui aos comerciantes judeus ou
cristãos novos forçados a deixar Portugal.
Num comentário sobre o
decreto lei publicado na semana passada num jornal lisboeta, um
internauta português escreveu, na mesma linha do padre Antônio Vieira:
"é a reparação possível de um dos maiores tiros no pé que Portugal deu
ao longo de sua história, para além de um ato de justiça".
Ao
anunciar o decreto lei, a ministra da Justiça de Portugal, Paula
Teixeira da Cruz, mencionou as "infelizes razões históricas" a que a
medida se relaciona. Partindo desta interpretação, outras vozes se
levantaram em Portugal, e na Espanha, para que fossem também
reconhecidas as iniquidades praticadas contra os muçulmanos ibéricos
massacrados, escravizados ou expulsos dos dois países nos séculos 15 e
16.
Ficou faltando ao governo de Portugal declarar que deplorava
ainda as "infelizes razões históricas" que fizeram o país proceder à
escravização e deportação maciça de africanos para as Américas, durante
mais de três séculos. Principal coautor desta imensa tragédia entre 1822
e 1850, o Brasil deveria se associar à eventual declaração portuguesa.
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