sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Aproximação de Buenos Aires com Teerã irrita judeus argentinos
Simon Romero* - TNYT                 
Dezoito anos se passaram desde que um homem-bomba atingiu com uma caminhonete Renault carregada de explosivos a sede do centro comunitário judeu da capital argentina, matando 85 pessoas. Desde então, as investigações têm avançado erraticamente. Mandados de prisão emitidos pela Interpol levaram a lugar nenhum. Os suspeitos ligados ao ataque estão envelhecendo e começaram a morrer.
Mas na ilusória busca por justiça para as vítimas do atentado, que foi um dos ataques antissemitas mais letais ocorridos desde a Segunda Guerra Mundial, poucos acontecimentos têm irritado tanto os líderes judeus da Argentina quanto a decisão do governo do país que, nas últimas semanas, vem tentando melhorar suas relações com o Irã – nação que tem blindado nos escalões mais elevados de seu establishment político vários dos acusados por promotores argentinos de terem autorizado o ataque.
Cada país tem suas razões internas para se relacionar com outras nações. À medida que o crescimento econômico da Argentina desacelera, uma dessas razões tem sido encontrar no Irã um cliente robusto para suas commodities agrícolas – o volume dos produtos comercializados entre as duas nações disparou mais de 200% nos últimos cinco anos, saltando para mais de US$ 1,2 bilhão.
O Irã, por sua vez, busca atenuar seu isolamento diplomático, expandindo os laços amistosos que forjou com outras nações da América Latina, mais especificamente a Venezuela, a Bolívia e o Equador.
“Nós não conseguimos compreender isso”, disse Guillermo Borger, presidente da Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), entidade que foi bombardeada em 1994. “O mundo está fechando suas portas para o Irã, e nós estamos dando a esse país a chance de dizer que a Argentina é, de alguma forma, sua amiga agora. Os iranianos não deixaram de afirmar que seus cidadãos são inocentes. Então, por que a Argentina deveria dialogar com eles?”
A reação tem sido muito diferente em Teerã, onde os líderes saudaram a mudança diplomática da Argentina. “Esperamos que essa ação judicial seja descartada e não seja apresentada novamente”, disse Hamid Reza Taraghi, que dirige o departamento internacional do influente Partido da Coalizão Islâmica, referindo-se à investigação que é supervisionada por promotores de Buenos Aires. “Essa medida vai ajudar a aliviar a pressão internacional sobre o nosso país”.
Tanto o ex-presidente da Argentina, Nestor Kirchner, quanto sua viúva, Cristina Fernández de Kirchner, que o sucedeu, ofereceram um grande apoio às investigações relacionadas ao atentado. A abordagem dos dois contrastou com a de Carlos Saul Menem, que era presidente na época do atentado e é formalmente acusado de obstruir as investigações. Menem, agora senador, negou a acusação.
A investigação foi marcada por acusações de corrupção, atrasos e incompetência, mas Alberto Nisman, promotor especial que assumiu o caso em 2005, parece ter injetado uma dose de vigor no caso. Ele acusou o Hezbollah, grupo libanês que tem fortes laços com o Irã e a Síria, de realizar o bombardeio, e autoridades iranianas de planejá-lo e financiá-lo.
Apesar disso, Argentina e Irã estão retomando suas relações – do modo informal, fizeram isso durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, em setembro passado; e novamente, em outubro, durante negociações formais em Genebra, na Suíça. Outra rodada de negociações está prevista para o final de novembro.
Nem todos entre os judeus da Argentina – país que detém a maior comunidade da América Latina, com cerca de 250 mil pessoas – se opõe às negociações. Em uma entrevista, Sergio Burstein, que apoia Kirchner e é líder de um grupo que representa parentes das vítimas mortas no atentado, disse que as negociações ofereceram um “lampejo de esperança” para a possibilidade de o Irã vir a entregar suspeitos para serem julgados na Argentina.
Da mesma forma que uma aura de mistério ainda encobre muitos aspectos do atentado, dúvidas e sigilo encobrem as atuais negociações bilaterais. O Ministério das Relações Exteriores da Argentina rejeitou pedidos de sobreviventes do ataque e de líderes judaicos da Argentina, apresentados através do escritório de Nisman, promotor da investigação sobre o atentado, para obter informações sobre as negociações.
O ministro das Relações Exteriores da Argentina, Hector Timerman, que está conduzindo o esforço diplomático com o Irã, também se negou a atender uma solicitação de entrevista sobre as negociações, que começaram após o Irã ter se recusado repetidamente a cumprir uma ordem da Argentina para a expedição de mandados de prisão internacionais para nove pessoas. Entre os suspeitos estão o ex-presidente iraniano Ali Akbar Hashemi Rafsanjani e o ministro da Defesa do Irã, o general Ahmad Vahidi.
Embora os investigadores argentinos e norte-americanos tenham concordado há muito tempo que o atentado suicida foi realizado por um militante do Hezbollah, Nisman, o promotor responsável pelo caso, alegou que a decisão de atacar a Amia foi tomada durante uma reunião realizada em 1993 na cidade iraniana de Mashhad, na presença de Rafsanjani.
Outros envolvidos na investigação sobre o atentado, incluindo James Bernazzani, ex-agente do FBI que foi chefe do departamento da agência que cuidava do Hezbollah, têm contestado a ligação explícita com o Irã.
Em entrevista concedida por telefone, a partir dos Estados Unidos, Bernazzani, que ajudou os argentinos em suas investigações, criticou o cruzamento circunstancial de registros telefônicos realizado pelos investigadores argentinos, que, na realidade, não chegaram a interceptar essas ligações. E esse cruzamento de chamadas serviu para acusar Mohsen Rabbani, adido cultural iraniano na Argentina em 1994, de envolvimento na coordenação do atentado.
Além disso, Bernazzani questionou o uso pelos investigadores argentinos do testemunho de um desertor iraniano cuja confiabilidade tem sido questionada. “Embora eu tenha muitos motivos para suspeitar da cumplicidade iraniana devido à relação do país com o Hezbollah, esses motivos não resistem aos padrões adotados pelo FBI”, disse ele. “Precisamos de provas, e o que conseguimos provar é que o indivíduo que estava naquela van era filho de um líder patriota do Hezbollah”.
É claro que Ibrahim Hussein Berro, o libanês de 21 anos identificado por meio da análise de DNA como o homem-bomba que dirigia a van Renault, está morto. Acredita-se que outro suspeito, Samuel Salman El Reda, um colombiano que os promotores argentinos acusam de coordenar a célula do Hezbollah que realizou o atentado, esteja vivendo no Líbano.
Enquanto isso, os iranianos ligados ao caso parecem se sentir imunes aos mandados de prisão emitidos contra eles. Em entrevista concedida em outubro passado a um jornal brasileiro a partir da cidade iraniana de Qom, Rabbani, o ex-adido cultural do Irã na Argentina, zombou das investigações argentinas e proclamou sua inocência. Vahidi, ministro da Defesa do Irã, viajou em 2011 para a Bolívia, que faz fronteira com a Argentina.
Adriana Reisfeld, presidente do Memória Ativa, grupo que representa os parentes das pessoas mortas no atentado, disse ter pouca expectativa de que ao reatamento diplomático com o Irã leve a um encerramento justo para o caso.
“Tudo o que quero agora é chegar o mais perto possível da justiça”, disse Reisfeld, cuja irmã foi morta na explosão. “Nós não podemos deixar o caso Amia ser arquivado nem ser esquecido”.
*Colaboraram Thomas Erdbrink colaborou de Teerã (Irã), e Emily Schmall colaborou de Buenos Aires (Argentina)
Tradutor: Cláudia Gonçalves

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