sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Eleições na Catalunha assume ares de referendo por independência
Sandrine Morel - Le Monde           
Gustau Nacarino/ReutersMilhares de velas formam o desenho da bandeira catalã na cidade de Vic, na Catalunha. A crise econômica da Espanha é apontada como a causa do fortalecimento de movimentos separatistas da região
Milhares de velas formam o desenho da bandeira catalã na cidade de Vic, na Catalunha. A crise econômica da Espanha é apontada como a causa do fortalecimento de movimentos separatistas da região
A questão da independência nas eleições da Catalunha
Os catalães elegerão, no dia 25 de novembro, seu Parlamento regional. Uma eleição com ares de referendo de autodeterminação.
Bandeiras catalãs e europeias rodopiam atrás de Artur Mas, o presidente da Catalunha, enquanto ele se aproxima do microfone. “Pela primeira vez em três séculos, o povo da Catalunha finalmente poderá decidir seu futuro”, diz o carismático líder da coalizão nacionalista de direita Convergência e União (CiU), diante das 3 mil pessoas que compareceram, no dia 18 de novembro, ao palácio dos esportes de Mar Bella de Barcelona para o grande comício de campanha das eleições regionais da Catalunha.
No domingo (25), os catalães não votarão somente para renovar o Parlamento regional. Eles decidirão, acima de tudo, dar ou não seu voto a favor da independência.
Ao organizar essas eleições antecipadas dois anos antes da data prevista, o governo catalão decidiu tomar “o caminho da liberdade” depois que Madri lhe negou, em setembro, um novo pacto fiscal que visava reduzir sua contribuição para a solidariedade nacional. Quase 16 bilhões de euros, ou seja, 8% do PIB, são descontados na Catalunha e não voltam para ela, segundo cifras oficiais.
O programa de Mas abre com duas promessas: “consultar o povo da Catalunha durante a legislatura para que ele possa decidir livre e democraticamente sobre seu futuro” e “construir uma maioria social para que a Catalunha possa ter seu próprio Estado dentro da Europa”.
As declarações do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, que deu a entender que a Europa não reconheceria um novo Estado nascido de uma secessão, não o ressabiaram. “O caminho está cheio de incertezas, mas menos do que aquele que consistiria em permanecer imóvel, em uma relação com a Espanha que nos enfraquece”, garante Oriol Pujol, filho do nacionalista Jordi Pujol, o emblemático presidente da Catalunha entre 1980 e 2003 e secretário-geral do partido liberal Convergência Democrática da Catalunha (CDC), que junto com os democratas-cristãos da União Democrática da Catalunha (UDC) formam a coalizão CiU.
Na sala, Laura Mas Vidal, agente comercial de 46 anos, está nas nuvens: “Um futuro melhor se abre para a Catalunha”, ela diz, convicta da validade do caminho proposto por Mas. No entanto, mesmo dentro da própria coalizão CiU, que reúne independentistas e federalistas, há quem se preocupe com o rumo tomado pelos acontecimentos. Teria Artur Mas se deixado levar pelo clamor popular expresso durante a Festa da Nação Catalã no dia 11 de setembro, quando 1,5 milhão de pessoas saíram às ruas de Barcelona para exigir a independência?
Até então, a CiU sempre empregara tanta energia em pedir por mais autonomia para a Catalunha quanto em preservar suas relações com o resto da Espanha, principal mercado das empresas da região. Mas hoje o divórcio parece consumado. “Quero que nossos direitos sejam respeitados”, explica Olga Garcia, 43, filha de pais da Andaluzia e de Estremadura. “Madri nos maltrata. Somos o motor da Espanha, mas ela monopoliza nossas riquezas enquanto caímos na miséria”, afirma essa recém-convertida à luta pela independência.
“Quem mais criou independentistas foi o governo central”, alega Ramon Espadaler, presidente do conselho nacional da UDC. A infraestrutura negligenciada por Madri, as ações contra o ensino em catalão nas escolas e a censura em 2010 do Tribunal Constitucional a vários artigos fundamentais do novo estatuto de autonomia aprovado em 2006 reavivaram as tensões. E, com a crise econômica, o sentimento independentista, atualmente compartilhado por 44% da população, se expandiu.
É atribuída à CiU uma ampla maioria, reforçada pela derrota dos socialistas, e ela espera obter no domingo a maioria absoluta para defender seu projeto em Madri e em Bruxelas. E também, para além da questão da independência, poder governar livremente em Barcelona.
Nos dois últimos anos o governo regional pôde aprovar orçamentos de austeridade graças ao apoio do Partido Popular (PP, direita), partido “recentralizador” com o qual a ruptura foi consumada. As outras forças políticas, inclusive as independentistas de esquerda, avisaram que não apoiariam a política de austeridade da CiU. Só que a Catalunha, um dos motores econômicos da Europa, não escapou da crise, com uma dívida que representa 21% de seu PIB e um desemprego de 22%.
Na lanchonete do palácio dos esportes, Laura Anreus, 32, assiste distraidamente à apresentação de Artur Mas. “Não entendo nada da independência”, diz essa mãe de quatro filhos, funcionária de um supermercado a 600 euros por mês, que por acaso topou com o comício. “Só sei que os remédios aumentaram 50% e que em vez de pegar os ricos o governo está atacando os pobres...”
Seu marido, ex-operário da construção civil, está desempregado há dois anos. Os dois votarão na Plataforma para a Catalunha, um partido xenófobo que aproveita a onda da crise reivindicando “a prioridade de emprego para as pessoas daqui”.
Tradutor: Lana Lim

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