Foi uma pena Mitt Romney não ter vencido. Em caso de uma vitória do republicano, nós finalmente saberíamos com certeza que nossa suspeita do fim iminente dos Estados Unidos está correta. “Mais quatro anos”, traduzido para o ponto de vista alemão, está mais para “quatro anos de adiamento”.
Para os mais vigilantes entre nós, os sinais da queda são óbvios. Basta apenas uma olhada nas condições das ruas (uma entre quatro pontes está ruindo!), ou para toda a rede elétrica ultrapassada, para chegar à conclusão que o futuro do país ficou para trás. Um país cujos fios elétricos ficam pendurados em postes nas ruas, em vez de enterrados de forma ordenada no subsolo, não pode realmente ser levado a sério.
Com um pouco de sorte, o espectro do outro lado do Atlântico pode dar cabo de si mesmo. Isso não pode ser descartado. Quando não estiverem atirando uns nos outros ou sendo fritados por fios elétricos pendurados, os americanos podem simplesmente estourar. Dois entre três cidadãos americanos estão acima do peso, ou mesmo obesos! Qualquer criança alemã conhece os números.
Foto 1 de 200 - O presidente reeleito dos Estados Unidos, Barack Obama, discursa sobre a economia do país, em salão da Casa Branca, em Washington Nicholas Kamm/AFP
Uma bênção viver na Alemanha
Uma pessoa pode concluir que é uma bênção viver na Alemanha, um país onde as estradas são regularmente reparadas e as máquinas de lavar usam tão pouca água que seria possível molhar todo o Saara com o que sobra. No qual iniciativas dos cidadãos são organizadas contra o McDonald’s e dramas policiais baratos são o pináculo do entretenimento na TV. Se postes de rua quebrassem como palitos de dente aqui, então seria por culpa de alguma catástrofe natural, do tipo que faria um furacão parecer uma brisa gentil.
Eu não quero soar como um sabichão, mas alguém se lembra de quando, em dezembro de 2005, uma tempestade de inverno surpreendentemente forte deixou 250 mil pessoas na área ao redor de Münster sem eletricidade por dias? Münster e seus arredores não querem governar o mundo. Mas mesmo assim, foi estranho ouvir os mesmos especialistas na TV que dois anos antes, durante um grande apagão na Costa Leste americana, argumentaram por que algo assim nunca teria ocorrido na Alemanha.
As críticas aos Estados Unidos sempre foram um tanto infantis. Elas lembram a teoria da psicanálise, em que as pessoas falam sobre transferência, ou quando sentimentos ou emoções reprimidas são superados por meio da projeção deles em outros. Pode funcionar por algum tempo, melhorar a autoestima de alguém por meio da desvalorização de um adversário imaginário. Mas sempre fica aquém, o motivo para o ritual precisar ser constantemente renovado.
Desde que posso me lembrar, os Estados Unidos estão em declínio. Já nos anos 70, o país estava condenado, e isso foi antes de pessoas como Ronald Reagan ou George W. Bush chegarem ao poder. Enquanto isso, os americanos deixaram os comunistas de joelhos, promoveram a era da Internet e revolucionaram o capitalismo várias vezes.
A realidade é que um quarto da riqueza global ainda é criado nos Estados Unidos. Eles ainda têm ao seu comando o maior poderio militar do planeta, e continuarão assim, apesar de toda conversa sobre mundo multipolar.
A paixão por Obama
Acima de tudo, os Estados Unidos permanecem o principal destino escolhido por milhões de pessoas no mundo. Se pudessem escolher onde viver, a maioria estranhamente não escolheria o padrão alemão de felicidade, mas sim a vida em Nova York ou na Califórnia, onde os buracos na rua são tão grandes quanto buracos de pedreiras. Isso pode fazer as pessoas aqui quererem acender o máximo de velas possível, para rezar para que a queda finalmente aconteça.
A empolgação infantil com Obama, que novamente tomou conta dos alemães durante esta eleição –93% do país teriam votado nele nesta eleição– é o verso desse desejo pelo fim dos Estados Unidos. O fato de os alemães, entre todas as pessoas, se identificarem com um advogado negro de direitos civis de Chicago só pode ser explicado pelo fato de o verem como o oposto do que consideram ser americanos normais.
Desde que Obama falou ao mundo em frente à Coluna da Vitória em Berlim, durante sua primeira campanha presidencial em meados de 2008, ele encontrou uma residência firme nos corações dos cidadãos alemães. Eles serão gratos a ele para sempre por essa honra. Esse é o motivo para o perdoarem por manter a prisão de Guantánamo aberta e por enviar aeronaves não tripuladas da mesma forma que outras pessoas enviam cartões postais.
No jornal “Süddeutsche Zeitung”, Andrian Kreye apontou corretamente que para a Europa, a vida com presidentes republicanos geralmente é mais fácil, porque os Estados Unidos passam a levar as obrigações de suas alianças a sério.
Obama não tem interesse na Europa, e toda sua atenção está voltada para a Ásia. Se o presidente telefona para o gabinete da chanceler alemã, é apenas para tentar convencê-la a finalmente implantar os títulos do euro, para que Wall Street possa voltar a dormir. Mas esse é um daqueles fatos que é melhor suprimir.
As superpotências não desaparecem ao longo de anos. Isso leva décadas, se não séculos. Assim, o veredicto pode demorar a sair. Os profetas do apocalipse podem continuar torcendo.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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