Matthew Taylor - Prospect
Jefferson Bernardes/VIPCOMM
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Em 26 de outubro de 1863, os representantes de 12 clubes se reuniram na
Freemason's Tavern, na Great Queen Street, Londres, para discutir a
criação de um conjunto comum de regras para o futebol. Na época, a
maioria das equipes jogava de acordo com regras distintas, influenciada
pelos jogos que aprenderam na escola e faculdade. Alguns defendiam um
jogo onde a bola pudesse ser carregada e onde pontapés nas canelas eram
permitidos. Outros preferiam o jogo com os pés como principal método de
movimentação da bola.
Um jogo composto, baseado em elementos de
ambos, parecia provável. Mas na quinta reunião da nova FA (Football
Association ou Associação de Futebol), em 1º de dezembro, vários dos
defensores de um jogo ao estilo do rúgbi estavam ausentes. Assim, o
presidente Arthur Pember e o secretário Ebenezer Morley aproveitaram
para remover das regras os pontapés e correr carregando a bola.
Em resposta, os defensores do jogo ao estilo do rúgbi abandonaram a FA.
Eles acabaram formando a RFU (Rugby Football Union ou União de Futebol
Rúgbi) em 1871 e o rúgbi se desenvolveu como um esporte separado.
Ao longo do meio século seguinte, o jogo incorporado nas primeiras
regras da FA prosperou. Ele se espalhou pelo Reino Unido, pela Europa e
pelo império formal e informal. Em muitas partes da América do Sul,
África e Ásia, ele foi abraçado como esporte nacional e, com a
introdução da Copa do Mundo em 1930, se transformou em um esporte
global.Mas e se Pember e Morley estivessem ausentes na reunião de 1º de dezembro? Como o mundo dos esportes seria diferente se os defensores de correr carregando a bola tivessem triunfado, com a FA presidindo um jogo ao estilo do rúgbi ou um contendo elementos de ambas as regras?
Um jogo ao estilo do rúgbi poderia ter inicialmente predominado no futebol com "regras de guerra" dos anos 1860 aos 1880. Uma FA constituída de modo diferente teria sido mais ativa em convencer os seguidores dos jogos jogados com os pés, em lugares como Sheffield, Nottingham e Escócia, a se converterem às suas regras. Cidades como Lancashire e Yorkshire poderiam ter servido, ao lado de Londres, como bases a partir das quais o jogo de rúgbi da FA colonizaria outras regras do "futebol". Competições como a Copa e ligas teriam surgido primeiro no rúgbi, atiçando o orgulho cívico e provocando uma expansão adicional.
Uma União da Associação de Futebol (apesar de que não se chamaria assim) poderia ter surgido no início dos anos 1870, como a RFU. Mas já seria tarde demais. Dado que os clubes de rúgbi superavam em número os da associação em partes da Inglaterra do início até meados da década de 1870, uma federação dinâmica com oito anos de vantagem teria assegurado que as regras de dribles com os pés do futebol seriam relegadas às margens da cultura esportiva britânica nos anos 1880.
De modo alternativo, um esporte muito diferente, contendo características tanto do futebol quanto do rúgbi, poderia ter prosperado. As regras e estilos de jogo nunca permanecem estáticos, é claro, e o esporte resultante poderia posteriormente pender na direção do futebol ou do rúgbi.
Mas é igualmente possível que um jogo parecido com o futebol com regras gaélicas ou australianas –onde a bola é carregada na mão– poderia ter se desenvolvido. Esse seria o esporte que autoridades coloniais, soldados e engenheiros britânicos levariam consigo ao redor do mundo.
Como isso teria afetado o impacto global da versão britânica do futebol? Possivelmente não muito. Se presumirmos que os esportes britânicos se espalharam em grande parte em consequência do poder e influência globais do Reino Unido, então qualquer tipo de futebol teria feito sucesso.
Mas o jogo também foi importante. As regras do futebol eram poucas em número e fáceis de entender e traduzir em diferentes línguas. Não era necessário muito equipamento. O jogo tinha um fluxo contínuo e, poder-se-ia argumentar, um apelo estético mais óbvio do que outras regras de futebol.
Um tipo diferente de futebol poderia ter sido menos popular e permanecido reservado aos britânicos que viviam e trabalhavam no exterior. Nesse caso, haveria um vácuo que seria ocupado por uma regra rival de futebol de outro país. Mas a maioria desses esportes era de caráter mais local, servindo a propósitos nacionais mais estreitos. Nenhum estava maduro para exportação.
Nessas circunstâncias, um esporte americano, como o beisebol, poderia muito bem ter se transformado no esporte global dominante. Promotores como Albert Spalding estavam ávidos em globalizar o beisebol no final do século 19. Turnês mundiais nos anos 1870 e 1880 ajudaram o esporte a fincar o pé em partes do Pacífico e do Caribe, mas não em outras partes.
Uma versão menos popular do futebol teria proporcionado oportunidades que missionários do beisebol como Spalding poderiam explorar. E sua popularidade global poderia ter sido estimulada por sua própria Copa do Mundo, deixando o futebol britânico para se desenvolver como um esporte predominantemente nacional.
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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