O real, 20 anos depois
GILMAR MENDES LOURENÇO - Gazeta do Povo (PR)
A
moeda brasileira, o real, nascida em 1.º de julho de 1994, completa 20
anos de existência absolutamente carente da viga mestra representada por
uma abrangente e consistente orientação macroeconômica e apoiada apenas
em retórica e prática populistas, represadoras de um conjunto
apreciável de problemas que, por certo, emitirá a fatura maior depois
das eleições.
Não é segredo para ninguém que a aliança hegemônica
de poder que administra a nação desde 2003, ao surfar nas ondas
radicais produzidas pelas altas cotações das commodities em escala
global, foi gradativamente abandonando o tripé da estabilização,
aplicado a partir de 1999, formado por câmbio flutuante, superávits
fiscais primários e metas de inflação, e, o que é pior, apostando todas
as fichas na dupla CC (crédito e consumo do governo e das famílias),
especialmente com o auge do pânico da crise internacional, em setembro
de 2008.
De 2011 para cá o governo Dilma Rousseff alardeia o
emprego de uma nova matriz econômica, amparada em crédito oficial
subsidiado e incentivos tributários para os “eleitos do senhor” e
pronunciado intervencionismo nas regras de operação e precificação de
importantes atividades públicas e privadas, ensejando estrondosas perdas
corporativas e sacrificando investimentos.
De esforços
estruturantes sobraram o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC),
que está mais para um empreendimento imobiliário, por causa da
destinação de 55% dos recursos para o Minha Casa, Minha Vida; o Plano
Brasil Maior, que em vez de política industrial horizontal é um festival
de desonerações fiscais para ramos escolhidos por critérios vagos; e as
privatizações (ou concessões, como quer o governo), que esbarram em
toda a sorte de interferências públicas.
Como resultado, o Brasil
colhe o retorno de embaraços considerados superados, como déficits
externos recordes; elevação dos desequilíbrios nas finanças públicas;
inflação próxima do teto da meta de 6,5% ao ano, fixada pelo Conselho
Monetário Nacional (CMN), apesar do represamento dos reajustes dos
preços dos combustíveis, energia elétrica e transporte coletivo;
estagnação dos níveis de atividade econômica, causada, sobretudo, pela
desidratação da indústria; dentre outros.
As trapalhadas com os
elementos conjunturais têm sido ladeadas pela ausência de um projeto de
expansão econômica sustentada, baseado na negociação política da segunda
geração das reformas institucionais, incluindo a tributária, a fiscal, a
trabalhista, a previdenciária, a patrimonial, a financeira e o pacto
federativo, redefinindo receitas e responsabilidades entre União,
estados e municípios.
Lembre-se de que o primeiro estágio de
mudanças concentrou-se nos anos 1990 e começo da década de 2000, com a
abertura comercial, a desestatização, a regulamentação das concessões
dos serviços públicos, a flexibilização dos monopólios e a Lei de
Responsabilidade Fiscal (LRF), sendo timidamente ampliado, nos tempos
recentes, com o crédito consignado, o cadastro positivo e a Lei de
Falências.
Aos 20 anos, o real está debilitado. O revigoramento e
os muitos anos de vida saudável da moeda brasileira dependem da ação de
um verdadeiro estadista transformador, menos ocupado com as demandas
eleitorais e mais preocupado com o futuro do país. Uma revisita ao
princípio do governo Itamar Franco, em 1992-1993, seria um belo começo.
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