Le Monde
AFP PHOTO / FRANCK FIFE
François Hollande, presidente da França
Em torno da Europa, o Oriente Médio e a Ucrânia estão no caos da
guerra. Em Bruxelas, a França briga com seus parceiros europeus para
defender seu orçamento. E na França, o que está acontecendo? O Partido
Socialista, ainda maioritário na Assembleia Nacional e no comando do
Executivo, está se dividindo.
Seus militantes, decepcionados com
François Hollande, estão desertando o partido ou seus debates, tanto
que é possível pensar se seu primeiro secretário, Jean-Christophe
Cambadélis, não teria se tornado o guardião solitário de uma casa vazia.
Seus dirigentes estão em conflito e, para usar a expressão de
Cambadélis, estão mostrando o "triste espetáculo da presunção, da
divisão e do posicionamento". Alguns meses atrás era anunciada a
hipótese do fim do PS, e hoje o que ressurge é a ameaça da cisão.Ao exigir uma "reorientação" da política do governo, Martine Aubry semeou a discórdia, no dia 19 de outubro. Essa não foi a primeira vez na história do PS, onde os confrontos ideológicos muitas vezes mascaram uma guerra de egos. A prefeita de Lille deu em seguida sinais de apaziguamento. Ela se recusa a se colocar como "opositora" de Hollande, e seu braço direito, o ex-ministro François Lamy, se distanciou dos "rebeldes" ao votar a favor da parte relativa às receitas do orçamento.
Imaturidade
Mas a máquina enlouqueceu. Benoît Hamon, que no dia 25 de agosto ainda era ministro de Manuel Valls e que quer ser perdoado por sua corrente na ala esquerda do PS para reconquistá-la, não hesitou em proclamar que a política do governo --a mesma da época em que ele foi ministro da Educação-- "ameaça a República" e anuncia "um imenso desastre democrático" em 2017. E o primeiro-ministro alimentou a estratégia da tensão, denunciando na revista "L'Obs" de 23 de outubro "a esquerda passadista, que se apega a um passado distante e nostálgico, obcecada pelo superego marxista e pela lembrança dos '30 anos gloriosos'". Sempre apegado à abertura para o centro e à mudança de nome do PS, Valls defendeu uma esquerda "pragmática, reformista e republicana". E não... socialista.Tudo tem acontecido como se, na visão de alguns dirigentes do PS, o presidente Hollande, que ainda tem dois anos e meio de mandato pela frente, já estivesse morto politicamente, devido a uma vertiginosa impopularidade. Como seria incapaz de se levantar, ele não poderia se recandidatar em 2017. Em vez de provocar uma crise que pudesse levar o PS a se recuperar e se colocar em ordem de batalha para salvar o soldado Hollande, essa perspectiva leva os 'elefantes' ['caciques' do PS] a acertarem suas contas à base de pequenas frases assassinas. É um sinal trágico de imaturidade e de irresponsabilidade.
O PS de 2014 lembra a SFIO [Section Française de l'Internationale Ouvrière] de 1969, que estava nas últimas... Cambadélis, que prega a unidade, previu para 6 de dezembro assembleias gerais com o intuito de redefinir a identidade de seu partido. Essa deverá ser a oportunidade para um esclarecimento ideológico cada vez mais indispensável. A maioria do PS é reformista. Aubry, que não pretende encarnar uma ala esquerda em ruptura com essa orientação, está no centro do partido. E Valls, marcado demais à sua direita, não pode uni-lo. Mas quem poderá? Esse papel cabe ao presidente, que deve falar no dia 6 de novembro. Mas será que ele tem essa vontade ou, mais importante, a capacidade para tal?
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