Licença para enganar
Fica, pois, assentado que campanha é assim mesmo, um vale-tudo emocional, sem relação com os fatos e com a lógica
CARLOS ALBERTO SARDENBERG -O Globo
Dá
para compreender: eleição tem muito de emoção, de modo que as
campanhas, dominantemente de rádio e TV, precisam apelar para o
sentimento dos eleitores. Mas vale enganar, especialmente, as pessoas
mais desinformadas?
Pessoal que trabalha com Dilma tem dito que
muitas afirmações feitas pela presidente, como a que os banqueiros
querem dominar o Banco Central para tirar a comida do povo, são “coisa
de campanha”. Reparem: o pessoal faz essa ressalva para os eleitores
mais informados, líderes de setores, formadores de opinião ou, para usar
a linguagem de Lula, a elite rica.
Supondo que vale a ressalva,
fica assim, portanto: a campanha tem umas mentirinhas para pegar o voto
daquela turma que, vocês sabem, não é muito esperta; mas no governo será
diferente, mais razoável e menos emocional.
Se for isso, a
conclusão é inevitável: campanha é uma licença para mentir; e não se
trata “apenas de propaganda”, mas de propaganda enganosa.
Muita
gente diz que nos Estados Unidos é pior. Não é. Sobram lá os ataques
pessoais, assim entendidos como a crítica feita diretamente à pessoa do
candidato, não tanto a suas posições. Por exemplo: dizer que o
adversário é incompetente, falso e sem moral.
Acontece. Cada
campanha assume os riscos desses ataques. Sim, riscos, porque muitas
vezes produzem efeito contrário. De todo modo, os candidatos não têm
como escapar de posições definidas sobre os grandes temas nacionais e
internacionais. Trata-se de uma cobrança do ambiente político.
Considerem
os debates pela televisão, aliás, uma invenção da democracia americana.
As regras são mínimas, em geral, selecionando apenas o assunto central,
por exemplo, diplomacia ou economia. Os mediadores, jornalistas, têm
ampla liberdade para perguntar e reperguntar, para gastar tanto tempo
quando considerem necessário para esclarecer uma posição.
Aqui,
por exigência dos candidatos, nisto apoiados pela legislação eleitoral,
não por acaso feita pelos próprios políticos, as regras são colocadas de
modo a criar menos riscos para os participantes. Falando francamente:
são regras para permitir que os candidatos se escondam nas generalidades
e não sejam cobrados por isso.
Fica, pois, assentado que
campanha é assim mesmo, um vale-tudo emocional, sem relação com os fatos
e com a lógica, e, sobretudo, não constitui um compromisso de governo.
Eis uma ideia generalizada por aqui.
Trata-se de um dano para a
democracia. Primeiro, porque coisas de campanha acabam sendo coisas de
governo. O candidato passa o tempo todo fugindo de temas como reforma da
Previdência, da legislação trabalhista ou ineficiência do serviço
público — e não terá como introduzi-los no governo, mesmo porque logo
haverá outra eleição.
Segundo, essas campanhas não formam opinião
geral ou consensos ou mesmo maiorias sobre políticas de governo. Surgiu
assim uma geração de líderes de campanha, tão vagos e tão indefinidos
como suas propagandas de rádio e TV. No governo, esses líderes tratam de
empurrar com a barriga, atender clientelas organizadas e não criar caso
com ninguém.
Por isso, aliás, acontecem alianças que parecem
estranhas, mas que, na verdade, são muito lógicas, pois estão todos na
geleia geral.
Claro, não é todo mundo igual. Há níveis e escalas.
Marina, por exemplo, foi surpreendentemente clara, para os padrões
vigentes, quando propôs a independência do Banco Central ou a
flexibilização da legislação trabalhista. Verdade que precisou depois
“amenizar” a última proposta, mas foi um avanço.
Pequeno. Por
exemplo, ninguém discutiu a sério, em todo o período eleitoral, um tema
crucial para a produtividade da economia brasileira: a terceirização do
trabalho.
E a campanha da presidente Dilma está no lado oposto,
no lado do máximo vale-tudo: banqueiro é ladrão de comida, os ricos
querem expulsar os pobres dos aeroportos, a imprensa é contra o povo, as
empresas querem matar os seus trabalhadores para ter mais lucro, ter
uma colaboradora acionista de banco é grave falta pessoal.
Já ter aliados na cadeia ou perto disso é perseguição política do Judiciário das elites.
Classificar
isso de esquerda, progressista ou popular, é até injusto com as
doutrinas socialistas ou trabalhistas. Cai mesmo no lado dos
bolivarianos. E se é tudo coisa de campanha, é pior ainda: um falso
bolivarianismo seria o quê?
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