O dia seguinte
RUBENS BARBOSA - OESP
Ao
final de uma das eleições mais renhidas das últimas décadas, as urnas
falaram de forma clara e 120 milhões de votantes manifestaram-se de
forma ordeira e tranquila, dando mais um sinal de maturidade
democrática. Na disputa entre dois modelos distintos de governo, a
maioria mais apertada desde 1945 optou pelo do PT. Não se deu a
alternância de poder, tão saudável para a democracia.
Nos dias
seguintes aos resultados, contudo, temos de pensar no Brasil em primeiro
lugar, virar a página dessa histórica eleição e tratar de olhar para a
frente pensando no futuro de nosso país. O Brasil não para e não pode
ficar refém de rixas radicais entre grupos políticos. A sociedade
brasileira espera que de norte a sul, dos mais favorecidos aos mais
desvalidos, as feridas e os ressentimentos deixados pelos duros embates e
evidentes exageros das campanhas eleitorais sejam superados. A
intolerância atingiu níveis perigosos e inaceitáveis no contexto de um
rotineiro enfrentamento político que se pressupõe civilizado e
conducente ao aperfeiçoamento das práticas democráticas.
O País
terá de enfrentar a partir de agora a dura realidade da economia em
recessão e das contradições e dos desafios na política nacional.
O
governo vai ter de cumprir os principais compromissos assumidos pela
presidente reeleita, tais como medidas para estabilizar a economia,
ajustes na política econômica para reduzir a inflação, volta do
crescimento para manter o nível de emprego e reforma política para
permitir o avanço das mudanças de que tanto o País necessita. Por outro
lado, esperam-se o prometido combate à corrupção e o restabelecimento
dos princípios éticos com a punição dos culpados pelo assalto aos cofres
públicos e que tanto prejuízo causaram à maior e mais prestigiosa
empresa brasileira.
As oposições, que saem derrotadas, têm de se
reinventar e atuar de forma diferente da dos últimos 12 anos para melhor
defenderem o modelo e as políticas que expuseram na campanha eleitoral e
cobrar resultados do governo nas áreas política, econômica e social.
Os
ataques pessoais e a exacerbação das críticas fizeram crescer as
paixões partidárias e a animosidade entre os simpatizantes do PSDB e do
PT. O ardor da disputa em diversos momentos, não só nos debates na
televisão, mas também nas ruas, acirrou os espíritos e fez com que o
País emergisse, depois da eleição, dividido eleitoralmente entre
Norte-Nordeste e Sul-Sudeste, e socialmente entre pobres e ricos, povo e
elite, entre "nós e eles".
Olhando para os interesses
permanentes do Brasil, esse elemento novo é preocupante. A insistência
na divisão, tão explorada pelo PT para se manter no poder, é uma receita
bastante perigosa para a preservação da democracia e da tranquilidade
em nosso país.
O novo mandato não se prenuncia fácil para o
governo do PT. Se a tática de divisão entre "nós e eles" continuar, a
radicalização política e o enfrentamento derivado das opções que serão
adotadas vão provocar uma situação de conflito que não deveria
interessar a ninguém.
Temos de encontrar formas de restabelecer a
harmonia interna para podermos avançar nas agendas que interessam ao
Brasil. Desde o início do novo governo petista teremos de estabelecer
pontes e canais de comunicação para evitar que a radicalização e a
polarização dos últimos meses da campanha eleitoral se mantenham,
fracionando a nossa sociedade. Isso vai exigir um esforço de moderação
dos dois lados. Temos de demonstrar maturidade para poder dialogar de
forma democrática e pacífica.
A legitimidade consagrada pela
vitória eleitoral impõe a responsabilidade de que as propostas
apresentadas durante a campanha sejam discutidas e aprovadas pelo
Congresso Nacional, que, passando a contar com representantes de 28
partidos, normalmente verá seu processo decisório tornar-se mais difícil
e complexo.
O próximo ano prenuncia-se difícil não só, como tudo
indica, pela gradual deterioração da economia - o que exigirá a tomada
de medidas fortes para equilibrar as contas públicas, conter a escalada
da inflação e tentar aumentar o crescimento econômico -, mas também
porque, do ponto de vista político, os detalhes divulgados nas delações
premiadas no caso de corrupção na Petrobrás começarão a ser expostos com
provas ao grande público e os acusados deverão começar a ser julgados.
Algumas
das políticas e medidas prometidas pela então candidata, agora
presidente reeleita, têm grande potencial de levar ao aprofundamento das
divisões internas. O plebiscito para a reforma política, o controle
social da mídia, o controle econômico das empresas de comunicação, a
revisão da Lei de Anistia, a criação da política nacional de
representação social e a modificação da lei que torna privativas funções
de chefia no Itamaraty - para mencionar apenas algumas - não contam com
o apoio da maioria da sociedade brasileira. Caso o governo reconduzido
queira aplicá-las, haverá, sem dúvida, o aprofundamento da divisão
interna e um novo inevitável choque de consequências imprevisíveis para a
democracia e a estabilidade do nosso país.
Embora o discurso da
presidente Dilma Rousseff após o anúncio oficial dos resultados, no
domingo, tenha conclamado "todos os brasileiros e todas as brasileiras
sem exceção" à "união" e ao "diálogo", não houve um gesto em relação à
oposição, nem sequer uma menção, como é de praxe, a seu opositor, que a
havia cumprimentado pouco antes.
O grande desafio que o Brasil
vai enfrentar nos próximos meses será como estabelecer as referidas
pontes para evitar a radicalização e procurar deixar as diferenças de
lado. Não será fácil.
Governo e oposição têm responsabilidade
compartilhada para evitar que a divisão se agrave, se aprofunde e leve a
uma crise institucional.
Nenhum comentário:
Postar um comentário