Roger Cohen - TINYT
Eu não sei quanto a vocês, mas muitas vezes acho que as conversas ao
jantar estão tomando rumos estranhos atualmente, como o amigo que me
disse na outra noite que os terroristas que se autodenominam Estado
Islâmico poderiam facilmente enviar um dos seus homens para a África
Ocidental, garantir que ele pegasse o vírus do ebola e, em seguida,
levá-lo para o metrô de Londres, Paris ou Nova York, para que se
espremesse contra muita gente na hora do rush, e bingo!
"Quero
dizer", ele falou, "certamente não sou o primeiro a ter pensado nisso. É
fácil. Eles querem se suicidar de qualquer maneira, certo?"
Certo: somos vulneráveis, menos seguros do que pensávamos.
Uma garfada no macarrão, e ele continua falando sobre como chegou a hora de explodir todo o Oriente Médio, chega, fim, acabou; e como o mercado de energia está louco agora com os sauditas tentando fazer baixar os preços, a fim de tornar menos viável a produção de óleo de xisto americano, o que asseguraria que os Estados Unidos continuassem a comprar o petróleo cru saudita, mesmo agora que se tornou o maior produtor de óleo do mundo.
Mas é claro que os russos não estão felizes com o petróleo barato, nem os iranianos. O negócio é que que está um caos lá fora, os tubarões estão devorando um ao outro. Nada acontece por acaso, certamente não uma queda de 25% no preço do petróleo. Alguém pagaria por um roteiro desses.
E eu tive que me esforçar para lembrar que, não muito tempo atrás, esse mesmo sujeito estava transbordando de idealismo, quando abandonou um grande emprego em um banco de investimento para ir para o Oriente Médio e investir suas energias na mudança democrática, na imprensa livre, em uma nova ordem, enchendo meu ouvido sobre como tinha chegado a hora para a região e para seu país em particular se unirem ao mundo moderno. Nada no genoma árabe condenava a região ao atraso, à violência e à paranoia. Sua crença era fervorosa e era acompanhada de atos. Ele trilhou a senda da mudança. Eu estava muito admirado.
Em seguida, uma sombra caiu sobre o mundo: anexações, decapitações, peste, Síria, Gaza e o retorno dos coronéis do Oriente Médio. A esperança deu lugar à febre. Quando o Canadá deixa de ser um lugar reconfortante, então tudo está tudo acabado.
Somos vulneráveis e estamos com medo. Esse é o novo zeitgeist, pelo menos no Ocidente. O fanatismo se alimenta de frustração; e a frustração é generalizada porque a vida de muitos não está ficando melhor. As pessoas se queixam.
Pensando bem, nossa conversa não foi criptografada. Que tolice, qualquer um poderia ouvir, enviar as ideias do meu amigo para algum depósito de armazenamento de dados no deserto norte-americano, que então seriam peneiradas por um bando de agentes secretos, que provavelmente poderiam grampear o telefone dele ou acusá-lo de conspirar contra o Ocidente por suas ideias sobre a propagação do ebola. Até os enfermeiros estão sendo humilhados e colocados em quarentena, punidos por sua generosa humanidade, enquanto os humanoides dos grandes bancos de dados têm refrigerante, bife e um condomínio em Nevada.
Havia câmeras e dispositivos de escuta em todos os lugares. Bastava olhar para cima, olhar ao redor. Foi um erro dizer qualquer coisa ao alcance do telefone. Muitas pessoas estavam vulneráveis. Qualquer um poderia invadir o software do seu carro, ou o soro de sua cama de hospital, e acabar com você.
O que aconteceu? Por que essa sombra sobre a mesa de jantar e esses estranhos temores? Parece que temos o remorso de Pandora. Deixamos sair da caixa o espírito tecnológico que dá poder, que tudo abre e tudo devora e que se transformou em um monstro, dando aos assassinos em busca de um califado novos poderes de recrutamento; aos ditadores, novos meios para a repressão; aos espiões, novos meios de ouvir; aos paranoicos, novos meios para espalharem alarme; aos ricos, novos meios de ficarem mais ricos à custa da classe média; aos marqueteiros, novos meios para anestesiar; aos sonegadores de impostos, novos meios de evasão; aos vírus, novos meios de disseminação; aos dispositivos, novos meios de obsessão; às potências emergentes, novos meios para bloquear os países desenvolvidos e cansados de guerras; e à ansiedade, meios de habitar a psique.
No final das contas, a super-conexão é igual ao isolamento. Que desdobramento estranho, quase engraçado. A crise, observou Antonio Gramsci no distante século 20, "consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer". Muitas pessoas com quem eu falo, e não apenas durante o jantar, nunca se sentiram tão inquietas com o estado do mundo. Há algo no ar, uma Viena fin-de-siècle com Twitter.
A esperança, é claro, foi o único espírito deixado para trás na caixa de Pandora.
Uma das coisas no ar ultimamente foi um executivo do Google que mergulhou da estratosfera para a Terra, uma queda de 135.890 pés (ou algo como 41,4 km), caindo a uma velocidade de até 822 milhas (1.315 km) por hora, todo sorridente depois de sua queda. A tecnologia também é libertação. Só não temos essa sensação agora. Procura-se alguém que dissipe esse mau pressentimento e encarne, de novo, a esperança do mundo.
Tradutor: Deborah Weinberg
Certo: somos vulneráveis, menos seguros do que pensávamos.
Uma garfada no macarrão, e ele continua falando sobre como chegou a hora de explodir todo o Oriente Médio, chega, fim, acabou; e como o mercado de energia está louco agora com os sauditas tentando fazer baixar os preços, a fim de tornar menos viável a produção de óleo de xisto americano, o que asseguraria que os Estados Unidos continuassem a comprar o petróleo cru saudita, mesmo agora que se tornou o maior produtor de óleo do mundo.
Mas é claro que os russos não estão felizes com o petróleo barato, nem os iranianos. O negócio é que que está um caos lá fora, os tubarões estão devorando um ao outro. Nada acontece por acaso, certamente não uma queda de 25% no preço do petróleo. Alguém pagaria por um roteiro desses.
E eu tive que me esforçar para lembrar que, não muito tempo atrás, esse mesmo sujeito estava transbordando de idealismo, quando abandonou um grande emprego em um banco de investimento para ir para o Oriente Médio e investir suas energias na mudança democrática, na imprensa livre, em uma nova ordem, enchendo meu ouvido sobre como tinha chegado a hora para a região e para seu país em particular se unirem ao mundo moderno. Nada no genoma árabe condenava a região ao atraso, à violência e à paranoia. Sua crença era fervorosa e era acompanhada de atos. Ele trilhou a senda da mudança. Eu estava muito admirado.
Em seguida, uma sombra caiu sobre o mundo: anexações, decapitações, peste, Síria, Gaza e o retorno dos coronéis do Oriente Médio. A esperança deu lugar à febre. Quando o Canadá deixa de ser um lugar reconfortante, então tudo está tudo acabado.
Somos vulneráveis e estamos com medo. Esse é o novo zeitgeist, pelo menos no Ocidente. O fanatismo se alimenta de frustração; e a frustração é generalizada porque a vida de muitos não está ficando melhor. As pessoas se queixam.
Pensando bem, nossa conversa não foi criptografada. Que tolice, qualquer um poderia ouvir, enviar as ideias do meu amigo para algum depósito de armazenamento de dados no deserto norte-americano, que então seriam peneiradas por um bando de agentes secretos, que provavelmente poderiam grampear o telefone dele ou acusá-lo de conspirar contra o Ocidente por suas ideias sobre a propagação do ebola. Até os enfermeiros estão sendo humilhados e colocados em quarentena, punidos por sua generosa humanidade, enquanto os humanoides dos grandes bancos de dados têm refrigerante, bife e um condomínio em Nevada.
Havia câmeras e dispositivos de escuta em todos os lugares. Bastava olhar para cima, olhar ao redor. Foi um erro dizer qualquer coisa ao alcance do telefone. Muitas pessoas estavam vulneráveis. Qualquer um poderia invadir o software do seu carro, ou o soro de sua cama de hospital, e acabar com você.
O que aconteceu? Por que essa sombra sobre a mesa de jantar e esses estranhos temores? Parece que temos o remorso de Pandora. Deixamos sair da caixa o espírito tecnológico que dá poder, que tudo abre e tudo devora e que se transformou em um monstro, dando aos assassinos em busca de um califado novos poderes de recrutamento; aos ditadores, novos meios para a repressão; aos espiões, novos meios de ouvir; aos paranoicos, novos meios para espalharem alarme; aos ricos, novos meios de ficarem mais ricos à custa da classe média; aos marqueteiros, novos meios para anestesiar; aos sonegadores de impostos, novos meios de evasão; aos vírus, novos meios de disseminação; aos dispositivos, novos meios de obsessão; às potências emergentes, novos meios para bloquear os países desenvolvidos e cansados de guerras; e à ansiedade, meios de habitar a psique.
No final das contas, a super-conexão é igual ao isolamento. Que desdobramento estranho, quase engraçado. A crise, observou Antonio Gramsci no distante século 20, "consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer". Muitas pessoas com quem eu falo, e não apenas durante o jantar, nunca se sentiram tão inquietas com o estado do mundo. Há algo no ar, uma Viena fin-de-siècle com Twitter.
A esperança, é claro, foi o único espírito deixado para trás na caixa de Pandora.
Uma das coisas no ar ultimamente foi um executivo do Google que mergulhou da estratosfera para a Terra, uma queda de 135.890 pés (ou algo como 41,4 km), caindo a uma velocidade de até 822 milhas (1.315 km) por hora, todo sorridente depois de sua queda. A tecnologia também é libertação. Só não temos essa sensação agora. Procura-se alguém que dissipe esse mau pressentimento e encarne, de novo, a esperança do mundo.
Tradutor: Deborah Weinberg
Nenhum comentário:
Postar um comentário