Mohammad Ali Shabani - TINYT
Atta Kenare/AFP
Questões nucleares podem pressionar um diálogo mais amplo sobre a paz regionalSe o Ocidente quiser que o Irã faça parte da solução para as crises no Oriente Médio, ele precisa se envolver diretamente com o país. O diálogo até agora tem se restringido à questão nuclear. Mas o progresso recente nas negociações --em meio ao agravamento do tumulto regional-- faz com que a não retribuição da abertura do Irã seja uma oportunidade perdida.
A política regional do Irã diz menos respeito a ganhar aliados do que privar as potências rivais de aliados anti-iranianos. Esta dinâmica abre espaço para uma relação mutuamente benéfica. A questão é como proceder de uma forma que reduza o conflito, em vez de exacerbá-lo.
O histórico da coordenação iraniana-americana na luta contra o terrorismo tem sido positivo. Em 2001, levaram apenas alguns meses para derrubar o Taleban e estabelecer o novo governo afegão. E no ano passado um novo gabinete foi formado pacificamente no Iraque enquanto a blitz do Estado Islâmico lá foi interrompida.
Não é uma coincidência que os líderes iranianos nesses episódios de colaboração tácita tenham sido os mesmos. Ao contrário da percepção popular, o major general Qassem Soleimani, que lidera a poderosa Força Quds do Irã, não é um linha-dura, mas um pragmatista. E, apesar de alguns retratarem Zarif como seu inimigo moderado, os dois, na verdade, têm uma longa experiência trabalhando juntos e obtendo resultados. Juntos, eles elaboraram propostas para a Síria e Iêmen, baseadas no cessar-fogo, no diálogo nacional e no estabelecimento de governos inclusivos.
Dificuldades
E apesar dos gritos ocasionais de "Morte aos EUA" em Teerã , a realidade é que os Estados Unidos têm uma dificuldade muito maior em trabalhar com o Irã. Em Washington, o Irã é vergonhosamente usado como um futebol político, e no Oriente Médio, os EUA estão encurralados por aliados que temem que as negociações com Teerã custem caro para eles.A defesa que o presidente Obama fez das negociações nucleares teve sucesso graças ao forte argumento de que não existem outras alternativas realistas. Agora, chegou a hora de Obama esclarecer essa realidade no que diz respeito à região, também.
No Iêmen, ele mostrou coragem e visão ao não permitir que os compromissos norte-americanos com seus aliados o encurralassem com a escolha falsa de abandonar amigos ou apoiar incondicionalmente sua loucura. Os críticos do diálogo com o Irã precisam agora entender que o engajamento para estabilizar a região não é um favor inoportuno para a República Islâmica. Eles também devem se conscientizar dos muitos interesses que o Ocidente compartilha com o Irã no triângulo entre Cabul, Sana e Beirute.
Para tornar o Irã parte da solução na região, Obama deve primeiro acabar com a política de "zero contato", de décadas de existência, e colocar o ônus sobre o Irã para completar as palavras com ações. Apesar de todas as recentes negociações, os diplomatas americanos continuam tecnicamente impedidos de trocar exceto elogios com seus colegas iranianos sem a autorização explícita do secretário de Estado.
Comunicação
Para melhorar as chances de engajamento, a qualidade e a quantidade de comunicação com o Irã deve aumentar. Obama não precisa da aprovação de um Congresso hostil para atingir este objetivo. Ele pode reverter a política de "zero contato" totalmente por conta própria. Depois de reformar corajosamente a política em relação a Cuba, retirar as antiquadas restrições que são relíquias da Revolução Islâmica de 1979 e suas consequências deixam nas mãos do Irã a responsabilidade de se engajar.Em segundo lugar, o Ocidente deveria dar o exemplo para acabar com a fobia em relação ao papel do Irã na região. Os passos iniciais para este fim devem envolver a adoção de uma nova linguagem. O progresso nas negociações nucleares foi possível por conta de um discurso conjunto de "ganha-ganha". No contexto regional, seria muito útil adotar uma linguagem que retrate a influência iraniana como uma realidade, em vez de um incômodo reversível.
Em terceiro lugar, a ONU deveria ser bem utilizada, mesmo que apenas para fornecer um espaço para o diálogo. A Conferência de Bonn, de 2001, que impediu a guerra civil e marcou o início de um novo estado afegão, foi possível porque ocorreu sob os auspícios das Nações Unidas e porque as interações multilaterais anteriores tinham reunido os EUA e o Irã, bem como os outros vizinhos do Afeganistão e a Rússia.
O Irã prefere que o diálogo regional seja mantido entre as potências regionais. Mas precedentes indicam que isso pode não funcionar. Em 2012, os esforços para estabelecer um grupo de contacto para a Síria, reunindo o Irã, Egito, Turquia e Arábia Saudita, fracassaram porque os sauditas se recusaram a sentar à mesa, temendo que isso desse algum papel de legitimidade ao Irã. Essa dinâmica está agora se repetindo no Iêmen, onde a abertura do Irã foi rejeitada sob a justificativa de que "ele não faz parte do mundo árabe", ainda que a Arábia Saudita tenha pedido ajuda de tropas paquistanesas.
As atitudes sauditas provavelmente permanecerão imutáveis uma vez que servem primeiramente a fins domésticos. Obama reconhece isso, e ele afirmou corajosamente que a maior ameaça para os países árabes não vem do Irã, mas da "insatisfação dentro dos próprios países". Infelizmente, a região não pode esperar que os aliados dos Estados Unidos tratem da raiz de suas ansiedades.
Enquanto isso, deve-se buscar fóruns de diálogo regional. Estes devem incluir Egito, Irã, Arábia Saudita e Turquia, além de Estados Unidos e Rússia. Como as negociações nucleares deixaram claro, membros rivais do Conselho de Segurança que têm direito a veto podem passar por cima do rancor e serem úteis. E um grupo de contato para o Iêmen poderia criar um precedente para enfrentar desafios mais complexos como a Síria.
À medida que os diplomatas se sentam para elaborar um acordo nuclear final, a região deve considerar os benefícios de um maior envolvimento com o Irã. O Ocidente e os vizinhos do Irã não têm nada a perder, e muito a ganhar.
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