sábado, 2 de maio de 2015

Até 2020, a Califórnia deverá produzir 33% de energias renováveis
Corine Lesnes - Le Monde
Ethan Miller / Getty Images / AFP
Painéis da usina elétrica solar Ivanpah, no deserto de Mojave, Califórnia (EUA) refletem luz solar. O maior sistema de energia solar térmica do mundo começou a funcionar na semana passada, e usa 347 mil espelhos controlados por computador para concentrar a luz solar em caldeiras em cima de três torres de 140 metros de altura. A água é aquecida para produzir vapor, que movem turbinas de energia suficiente para abastecer mais de 140 mil casas na Califórnia. Aves que passam pelo raio de luz concentrado, no entanto, acabando morrendo sob o calor de mais de 500ºC Painéis da usina elétrica solar Ivanpah, no deserto de Mojave, Califórnia (EUA) refletem luz solar. O maior sistema de energia solar térmica do mundo começou a funcionar na semana passada, e usa 347 mil espelhos controlados por computador para concentrar a luz solar em caldeiras em cima de três torres de 140 metros de altura. A água é aquecida para produzir vapor, que movem turbinas de energia suficiente para abastecer mais de 140 mil casas na Califórnia. Aves que passam pelo raio de luz concentrado, no entanto, acabando morrendo sob o calor de mais de 500ºC
Na Califórnia falta água... mas Sol ela tem. Segundo a agência americana de informação sobre a energia (US Energy Information Administration), o Estado acaba de atingir um marco: agora 5% da produção anual de energia é de origem solar, algo inédito em um Estado americano. Assim, a Califórnia passa a gerar duas vezes mais energia solar que em 2013, e mais do que todos os outros 49 Estados juntos.
Duas das maiores usinas do mundo funcionam ali. A "fazenda" solar de Desert Sunlight, inaugurada em fevereiro, a leste de Palm Springs, tem uma capacidade de 550 megawatts, equivalente à alimentação de 160 mil casas. A de Topaz, perto de San Luís Obispo, com potência equivalente, funciona desde novembro de 2014. A isso se soma a onda de equipamentos individuais gerada pela queda dos preços de painéis solares (-80% em cinco anos). No total, 2,5 milhões de lares californianos já obtêm energia do Sol.
Por enquanto a energia solar não representa nem 1% do total da energia produzida nos Estados Unidos, mas seu crescimento tem sido impressionante. O setor já emprega duas vezes mais funcionários (173 mil em novembro de 2014, um aumento de 21% em um ano) do que a extração de carvão (80 mil funcionários). Segundo a revista "Fast Company", a "segunda era da energia solar já chegou." Esse novo boom se deve em grande parte ao voluntarismo do poder público. O governador da Califórnia, Jerry Brown, impôs uma ordem estrita: até 2020 as energias renováveis, hoje em 23%, deverão representar 33% da energia produzida no Estado. Segundo especialistas, essa meta será atingida com facilidade. O Estado federal, por sua vez, consentiu conceder um abatimento fiscal de 30% para os investimentos "limpos". As empresas estão correndo para obter o benefício, uma vez que a dedução deve baixar para 10% no final de 2016.
"Verdejar" a internet
Outro fator seria o papel dos gigantes das novas tecnologias, que vêm investindo maciçamente na energia solar. Em 2010, o Greenpeace havia desafiado as grandes a "verdejarem" a internet. Se a "nuvem" fosse um país, "ela seria a sexta maior consumidora de eletricidade do mundo", ressaltava a ONG. Desde então o Greenpeace tem publicado uma lista com os maus e bons exemplos. A Apple, o Facebook e muitos outros adotaram a meta de 100% de energias renováveis para todos seus centros de dados. Mas algumas empresas ficaram só nas promessas, lamenta a ONG, como a Amazon e seu braço de serviços na nuvem, AWS.
A Apple, que ainda usava 55% de energias fósseis para seus data centers em 2012, chegou em primeiro lugar no ranking do Greenpeace e foi parabenizada pela "rapidez e honestidade" com a qual ela vem tentando cumprir seus compromissos. Em fevereiro, a empresa, que possui várias usinas solares na Carolina do Norte, anunciou dois outros projetos: no Arizona (de US$ 2 bilhões ou quase R$ 6 bilhões) e na Califórnia (US$ 850 milhões), em parceria com a fabricante de painéis solares First Solar. A fazenda de Monterey, ao sul de San Francisco, permitirá alimentar todas suas operações na Califórnia, desde a gigantesca nova sede de Cupertino até as 52 Apple Stores.
No Google, as energias renováveis ainda representam somente 34% do consumo, segundo o Greenpeace. Mas o motor de buscas participa da terceira das mega-fazendas solares da Califórnia, a de Ivanpah (390 megawatts), uma central termodinâmica aberta em fevereiro de 2014 no condado de San Bernardino, mas criticada pelos ambientalistas em razão dos danos causados aos pássaros. E Elon Musk, o agitado CEO da empresa de carros elétricos Tesla, deu a entender que iria revelar um projeto ambicioso, no dia 30 de abril, em Los Angeles. Segundo a agência Bloomberg, seria uma nova bateria capaz de armazenar energia elétrica para empresas e cidadãos comuns.
Os gigantes da eletrônica pretendem estar na vanguarda dessa revolução energética. Depois do setor de transportes, de comércio e de viagens, é a vez das distribuidoras de energia se submeterem às leis da "disruption" ("disrupção"). "Vamos passar do abastecimento pelas grandes empresas para um modo de distribuição descentralizado, onde o consumidor fará suas escolhas e ele mesmo produzirá", explicou um participante do Cleantech Forum, realizado em meados de março em San Francisco. Na conferência destacou-se que a energia não será mais um produto, mas sim um "serviço", e que o armazenamento será mais importante que a produção.
Para David Crane, CEO da empresa californiana de energia NRG, as companhias elétricas terão de enfrentar o inevitável "declínio" de seu modelo. "Na indústria da eletricidade, o único lugar onde se ganha dinheiro é a alimentação das casas", ele declarou durante um debate organizado no dia 22 de abril pela publicação mensal "The Atlantic". Um quarto da eletricidade doméstica é desperdiçado, e com a popularização de painéis solares e termostatos inteligentes, essa fonte de lucro corre o risco de diminuir.
A pioneira na fabricação do equipamento Solar City, criada por Elon Musk, está revolucionando o setor de energia solar individual. A Solar City, uma modesta start-up da baía de San Francisco criada em 2006, se tornou uma companhia de 9 mil funcionários e 65 filiais, graças a um modelo que permitiu passar os painéis solares dos tetos dos ricos para os da classe média: em vez de um grande investimento inicial, as pessoas podem pagar em prestações. A Solar City anunciou no dia 24 de abril a criação de um novo fundo de US$ 750 milhões para financiar 25 mil projetos residenciais. O Google, que tem nas energias renováveis seu maior investimento, entrará com quase metade do financiamento.
Segundo um estudo de outubro de 2014 do Deutsche Bank, a energia solar terá, dentro de dois anos, um custo equivalente ou inferior ao da eletricidade convencional, em quase todos os Estados. "Já há pessoas preocupadas em saber o que será feita com toda essa energia solar", observa o CEO da NRG. "Tenho um conselho a dar a elas: façam água doce!

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