Andrew E. Kramer - NYT
Mauricio Lima/The New York Times
Igor Kostenok, ministro da Educação dos rebeldes em DonetskQuando Yevdokiya ainda era uma menina, conta seu sobrinho, os vizinhos convidaram-na para uma ocasião social de algum tipo. Isso foi durante a grande fome de 1933, disse ele, e sua família ficou alarmada quando ela não chegou em casa.
Ela nunca voltou, disse o sobrinho,
Aleksandr S. Khodakovsky, hoje alta autoridade do governo separatista
apoiado pela Rússia da República Popular de Donetsk. Para seu horror,
seus pais descobriram que ela havia sido canibalizada pelos vizinhos
desesperados, o que não era uma ocorrência incomum durante a fome que
matou 3,3 milhões de pessoas, segundo a maior parte das estimativas.
Tradicionalmente, os historiadores ucranianos caracterizaram a fome como genocídio, um resultado direto da coletivização forçada por Stalin e da requisição pelo governo soviético de grãos para exportação, deixando a Ucrânia com pouco alimento -e suas fronteiras hermeticamente fechadas. Desde que a Ucrânia conquistou a independência, isso foi o que os estudantes aprenderam nas escolas.
Mas não é isso que os alunos no sudeste da Ucrânia vão aprender este ano. Em vez disso, sob as ordens dos recém-instalados governos separatistas, eles receberão a versão higienizada russa, segundo a qual a fome era uma tragédia inevitável que se abateu sobre toda a União Soviética.
Mesmo Khodakovsky, cuja tia teve seus restos encontrados mais tarde em um poço, tem dificuldade em aceitar essa explicação. "Foi terrível", disse ele sobre a fome, e de forma alguma inevitável. Foi o resultado de políticas stalinistas, disse ele, especialmente a venda de grãos para financiar a industrialização.
A história da Ucrânia do século 20 é mergulhada em sangue. Após a fome, o país sofreu com o peso da repressão da era stalinista e da violência da frente oriental durante a Segunda Guerra Mundial, quando mais de 5 milhões de civis ucranianos morreram. Na atual guerra civil, nada, além do controle do território, foi tão disputado quanto esta história.
Natalia S. Skrichenko, professora de história, assistiu esse processo se desdobrar ao seu redor. Logo após os separatistas assumirem, Skrichenko e outros professores de história em áreas controladas pelos separatistas da Ucrânia oriental receberam ordens para jogar seus textos de história da Ucrânia no lixo.
Durante meses, os professores improvisaram, até que o Ministério da Educação separatista distribuiu neste ano novas diretrizes mimeografadas, chamadas de "Materiais para as questões de ensino de história", a serem usadas no segundo semestre deste ano -literalmente reescrevendo a história no meio do ano letivo.
"A história não muda", disse filosoficamente Skrichenko sobre o novo currículo para estudantes nas partes controladas pelos rebeldes da Ucrânia. "As pessoas simplesmente olham para os fatos com uma nova mentalidade. Nós realmente não sabemos o que aconteceu no passado. Ele se foi. Tudo o que podemos saber é o que vemos através do prisma do nosso tempo".
Na Escola No. 14 em Donetsk, onde ela ensina, os alunos estão tendo aulas impressionantemente diferentes sobre alguns dos períodos mais sombrios e controversos do seu país no século 20. Além da fome, os temas incluem as relações com os nazistas, a repressão stalinista e as relações com a Rússia.
Ela disse que estimula seus alunos que começaram a história do século 20 sob o antigo programa e mudaram de rumo agora a pensar na mudança como um momento de aprendizado, uma ilustração de como a história é escrita.
E, hoje em dia, a história está longe da acadêmica em Donetsk. A Rússia e os grupos apoiados por ela no leste da Ucrânia justificaram a sua revolta chamando o movimento que depôs o ex-presidente Viktor Yanukovych F. de neo-golpe fascista. Até agora, a revolta levou a morte de mais de 6.000 pessoas e o deslocamento de cerca de 1,5 milhão.
Como prova, eles citam reverência dos nacionalistas ucranianos em relação a Stepan Bandera, um líder da independência que a Rússia rotulou -injustamente, aos olhos de muitos historiadores e para os ucranianos ocidentais- de colaborador nazista que compartilha a culpa pelo assassinato de russos, poloneses e judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
Igor V. Kostenok, ministro da Educação dos rebeldes que preparou as diretrizes, disse em uma entrevista que a intenção do novo currículo, chamado de "História da Pátria", foi destacar os antigos laços da região de Donetsk com a Rússia e eliminar as ideias nacionalistas ucranianas, incluindo o uso da palavra "genocídio" para descrever a fome.
"É uma ideia de socialização, de criação de uma cultura, uma cultura para o mundo eslavo, para o mundo russo", disse ele em uma entrevista. Os alunos não terão uma identidade ucraniana, disse ele.
Apesar de sua história familiar horrível durante a fome, o líder separatista Khodakovsky disse que a insistência ucraniana em chamar a fome de genocídio "pretendia rasgar as raízes do que unia a Rússia e a Ucrânia" e que precisava ser interrompida.
Apenas dois tópicos de estudo, de um total de 52 para o décimo ano escolar sobre a década de 30, fazem menção "à tragédia da fome de 1932-1933". Parece pouco para um evento arrasador que despovoou o meio rural, em um sofrimento de gelar o sangue, no qual multidões de camponeses que pareciam palitos foram para as cidades mendigar e morrer aos milhares na primavera de 1933.
A família de Khodakovsky lidou com a canibalização de Yevdokiya e outras dificuldades permanecendo religiosa em segredo durante o período soviético.
"Foi Deus que nos enviou esses testes", disse ele.
De qualquer forma, ele não foi criado para odiar os russos e inclusive tem parentes que vivem em Moscou. O confisco de grãos excessivo foi uma atrocidade soviética, não russa.
"Minha mãe nunca culpou ninguém", disse ele.
Tradutora: Deborah Weinberg
Tradicionalmente, os historiadores ucranianos caracterizaram a fome como genocídio, um resultado direto da coletivização forçada por Stalin e da requisição pelo governo soviético de grãos para exportação, deixando a Ucrânia com pouco alimento -e suas fronteiras hermeticamente fechadas. Desde que a Ucrânia conquistou a independência, isso foi o que os estudantes aprenderam nas escolas.
Mas não é isso que os alunos no sudeste da Ucrânia vão aprender este ano. Em vez disso, sob as ordens dos recém-instalados governos separatistas, eles receberão a versão higienizada russa, segundo a qual a fome era uma tragédia inevitável que se abateu sobre toda a União Soviética.
Mesmo Khodakovsky, cuja tia teve seus restos encontrados mais tarde em um poço, tem dificuldade em aceitar essa explicação. "Foi terrível", disse ele sobre a fome, e de forma alguma inevitável. Foi o resultado de políticas stalinistas, disse ele, especialmente a venda de grãos para financiar a industrialização.
A história da Ucrânia do século 20 é mergulhada em sangue. Após a fome, o país sofreu com o peso da repressão da era stalinista e da violência da frente oriental durante a Segunda Guerra Mundial, quando mais de 5 milhões de civis ucranianos morreram. Na atual guerra civil, nada, além do controle do território, foi tão disputado quanto esta história.
Natalia S. Skrichenko, professora de história, assistiu esse processo se desdobrar ao seu redor. Logo após os separatistas assumirem, Skrichenko e outros professores de história em áreas controladas pelos separatistas da Ucrânia oriental receberam ordens para jogar seus textos de história da Ucrânia no lixo.
Durante meses, os professores improvisaram, até que o Ministério da Educação separatista distribuiu neste ano novas diretrizes mimeografadas, chamadas de "Materiais para as questões de ensino de história", a serem usadas no segundo semestre deste ano -literalmente reescrevendo a história no meio do ano letivo.
"A história não muda", disse filosoficamente Skrichenko sobre o novo currículo para estudantes nas partes controladas pelos rebeldes da Ucrânia. "As pessoas simplesmente olham para os fatos com uma nova mentalidade. Nós realmente não sabemos o que aconteceu no passado. Ele se foi. Tudo o que podemos saber é o que vemos através do prisma do nosso tempo".
Na Escola No. 14 em Donetsk, onde ela ensina, os alunos estão tendo aulas impressionantemente diferentes sobre alguns dos períodos mais sombrios e controversos do seu país no século 20. Além da fome, os temas incluem as relações com os nazistas, a repressão stalinista e as relações com a Rússia.
Ela disse que estimula seus alunos que começaram a história do século 20 sob o antigo programa e mudaram de rumo agora a pensar na mudança como um momento de aprendizado, uma ilustração de como a história é escrita.
E, hoje em dia, a história está longe da acadêmica em Donetsk. A Rússia e os grupos apoiados por ela no leste da Ucrânia justificaram a sua revolta chamando o movimento que depôs o ex-presidente Viktor Yanukovych F. de neo-golpe fascista. Até agora, a revolta levou a morte de mais de 6.000 pessoas e o deslocamento de cerca de 1,5 milhão.
Como prova, eles citam reverência dos nacionalistas ucranianos em relação a Stepan Bandera, um líder da independência que a Rússia rotulou -injustamente, aos olhos de muitos historiadores e para os ucranianos ocidentais- de colaborador nazista que compartilha a culpa pelo assassinato de russos, poloneses e judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
Igor V. Kostenok, ministro da Educação dos rebeldes que preparou as diretrizes, disse em uma entrevista que a intenção do novo currículo, chamado de "História da Pátria", foi destacar os antigos laços da região de Donetsk com a Rússia e eliminar as ideias nacionalistas ucranianas, incluindo o uso da palavra "genocídio" para descrever a fome.
"É uma ideia de socialização, de criação de uma cultura, uma cultura para o mundo eslavo, para o mundo russo", disse ele em uma entrevista. Os alunos não terão uma identidade ucraniana, disse ele.
Apesar de sua história familiar horrível durante a fome, o líder separatista Khodakovsky disse que a insistência ucraniana em chamar a fome de genocídio "pretendia rasgar as raízes do que unia a Rússia e a Ucrânia" e que precisava ser interrompida.
Apenas dois tópicos de estudo, de um total de 52 para o décimo ano escolar sobre a década de 30, fazem menção "à tragédia da fome de 1932-1933". Parece pouco para um evento arrasador que despovoou o meio rural, em um sofrimento de gelar o sangue, no qual multidões de camponeses que pareciam palitos foram para as cidades mendigar e morrer aos milhares na primavera de 1933.
A família de Khodakovsky lidou com a canibalização de Yevdokiya e outras dificuldades permanecendo religiosa em segredo durante o período soviético.
"Foi Deus que nos enviou esses testes", disse ele.
De qualquer forma, ele não foi criado para odiar os russos e inclusive tem parentes que vivem em Moscou. O confisco de grãos excessivo foi uma atrocidade soviética, não russa.
"Minha mãe nunca culpou ninguém", disse ele.
Tradutora: Deborah Weinberg
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