Franck Nouchi - Le Monde
Laszlo Balogh/Reuters
Sobrevivente arruma faixa de uma coroa de flores no campo de concentração de Auschwitz, em Oswiecim, na Polônia
Setenta anos após a libertação do campo de extermínio de
Auschwitz-Birkenau, é difícil, sobretudo para os mais jovens, imaginar
como foi demorada e difícil a descoberta daquilo que realmente se passou
nos campos de morte nazistas. Se hoje é normal ouvir das mais altas
autoridades alemãs, principalmente Angela Merkel, falar em
"responsabilidade eterna" da Alemanha no Holocausto, as coisas nem
sempre foram assim.
Logo após a Guerra, a maioria dos alemães não tinha vontade nenhuma de
remoer os fantasmas do passado. Em 1949 o chanceler Konrad Adenauer
pleiteava por uma reintegração maciça, especialmente na função pública,
de alemães que tivessem sido alvo de processos de expurgação. Então era
preciso tentar esquecer, não saber.Tudo mudou a partir de 1958, quando foi criada uma agência federal encarregada de investigar os crimes nazistas. Um homem importante, homenageado no filme "O Labirinto de Mentiras", de Giulio Ricciarelli, ganhou a atenção dos alemães: Fritz Bauer.
Esse magistrado havia sido preso pela Gestapo em 1933 devido às suas origens judaicas e à sua adesão ao Partido Socialdemocrata Alemão. Exilado na Dinamarca e depois na Suécia, ele voltou à Alemanha em 1949. Alguns anos mais tarde, ele se tornou procurador-geral do Land de Hesse. Foi basicamente graças a ele, e aos magistrados que trabalhavam sob seu comando na procuradoria de Franfkurt, que se tornou possível a realização do "julgamento de Auschwitz", entre dezembro de 1963 e agosto de 1965.
Dois anos após o julgamento de Eichmann em Jerusalém (Bauer não foi responsável por sua captura por parte do Mossad), vinte anos após o julgamento de Nuremberg, 22 pessoas que tiveram diferentes graus de responsabilidade em Auschwitz compareceram perante o tribunal de Frankfurt. Foi um momento capital da história recente da Alemanha. Assumir o passado começava a se tornar um dever moral para o país inteiro.
"O Labirinto de Mentiras" começa em 1958, em Frankfurt. No pátio do colégio Goethe, sob o olhar vigilante de seu professor, crianças cantam "Nenhum país é mais belo que o nosso". Há um mal-estar, que se eleva alguns instantes mais tarde, quando um ciclista cai ao cruzar o olhar do professor.
Não tardam a entrar em cena um jornalista do "Frankfurter Rundschau", Thomas Gnielka – amigo do ciclista que desmascarou o professor, um veterano da SS de Auschwitz - , e um jovem magistrado chamado Johann Radmann (embora Gnielka tenha de fato existido, Radmann foi imaginado pelos roteiristas do filme a partir da trajetória de três promotores que conduziram a investigação sob ordens de Fritz Bauer).
Uma missão a priori impossível
Radmann é um jovem magistrado que, por trás de seu jeito de genro ideal, se mostra maniqueísta e rígido. No início, seus diferentes interlocutores lhe falam de Auschwitz como se fosse um "campo de detenção preventiva", e lhe dizem que não dê atenção aos rumores segundo os quais "a maior catástrofe da humanidade" teria acontecido lá; isso teria sido "pura propaganda" espalhada pelos "vencedores".
Aliás, caso ele tivesse vontade de investigar as ações daquele ex-agente da SS, precisava saber que como todos os crimes estavam prescritos, a única solução seria estabelecer um dossiê de acusação de assassinato. Uma missão a priori impossível, considerando a lei do silêncio que prevalecia.
"Você vai conduzir a investigação", anunciou Bauer. "O país quer suavizar tudo, não quer saber a verdade." O homem visivelmente sabia muito sobre aquilo, muito mais do que deixava transparecer.
Foi o terrível momento em que a verdade começou a aflorar, com os primeiros depoimentos dos sobreviventes. Radmann acreditava estar investigando um assassinato, e um sobrevivente assinalou: "Mas são centenas de milhares de pessoas que foram mortas lá." Somente Bauer parecia ter se dado conta da enormidade da tarefa que aguardava seu protegido: "Radmann, é um labirinto no qual você vai entrar, não se perca."
Sua missão era ainda mais árdua pelo fato de que seus colegas viam sua investigação com maus olhos. "Seria a primeira vez em que um país julgaria seus próprios soldados por feitos de guerra!", protestou um deles. Já os americanos estavam céticos. Colaborar com Radmann? Para quê? "Nós temos 600 mil dossiês da SS em nossos arquivos", disse-lhe um oficial. "Oito mil deles passaram por Auschwitz". Seria um trabalho hercúleo!
Radmann trabalhou obstinado, com o auxílio eficiente de sua secretária e de um colega. Os depoimentos foram se acumulando, e o papel do sinistro Dr. Mengele foi revelado. Refugiado em Buenos Aires, ele tinha uma verdadeira impunidade na Alemanha. Para Bauer, o importante era Eichmann, o grande arquiteto da "solução final". Ele não hesitou em delegar sua prisão aos israelenses.
Foi feita uma reconstituição minuciosa, uma encenação e interpretação sóbrias e eficazes. Aos poucos a verdade acabou vindo à tona, como se estivesse saindo do nada. "O Labirinto de Mentiras", historicamente impecável, é um filme ao mesmo tempo emocionante e digno. Ele termina exatamente no momento em que vai começar o julgamento de Frankfurt. Enquanto os dois jovens promotores se preparam para entrar na sala de audiência, Bauer os puxa de lado e fala: "Vocês realizaram um trabalho formidável, senhores. É uma nova página da História."
Neste mesmo momento em que estreia "O Labirinto de Mentiras" na França, está sendo realizado aquele que provavelmente será o último julgamento do 3º Reich na Alemanha, com o ex-contador de Auschwitz Oskar Gröning, 93, comparecendo perante o tribunal de Luneburg.
A maioria dos tomadores de decisões nazistas por fim conseguiram escapar da Justiça. Mesmo assim o julgamento de Frankfurt teve uma enorme importância. Como declarou um historiador do Instituto Fritz Bauer, "de repente, o mal tinha um nome, um rosto, uma idade e um endereço."
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