Ruptura anunciada
Marta Suplicy desliga-se do PT em momento de agudo descrédito de todo o
sistema partidário; caso pode gerar nova interferência da Justiça
FSP
Construída com mais combatividade do que sutileza, a carreira política
da senadora Marta Suplicy passou por inflexão significativa nesta
semana.
Numa estratégia que se pretendia gradual, mas cujas diversas etapas não
fizeram senão multiplicar o impacto da ruptura, a ex-prefeita de São
Paulo preparou por vários meses sua saída do PT. Concretizou-a
oficialmente na terça-feira (28), abrindo caminho para participar,
possivelmente pelo PSB, da eleição municipal de 2016.
Ao motivo pragmático de sua decisão --o prefeito Fernando Haddad ocupa,
no PT, o posto de candidato natural-- a senadora acrescentou, sem
dificuldades, críticas fortes, e a bem dizer longamente adiadas, aos
desvios programáticos e éticos do partido em que militou durante 33
anos.
Sua desfiliação ocorre numa ocasião em que, como nunca, faltam ao PT argumentos para rebater os ataques que lhe são dirigidos.
Com o escândalo da Petrobras e a crise econômica, o descrédito da
agremiação governista e da presidente Dilma Rousseff se revelou tão
profundo que, entre parcelas importantes da opinião pública, há mais
comemorações pelo acerto das análises de Marta do que desconfianças
quanto ao momento de sua enunciação.
Aparentemente incólume nos julgamentos da classe média, resta à senadora
passar pelo crivo da Justiça. Em 2007, o Supremo Tribunal Federal
decidiu que, nos cargos proporcionais, como os de deputado e vereador, o
mandato não pertence ao eleito, mas sim ao partido pelo qual se
candidatou.
O raciocínio é bastante duvidoso: que se pense, por exemplo, nos casos
em que um nome extremamente popular atrai votos próprios para uma
legenda insignificante.
Num posto majoritário, como o de senador, o princípio se sustenta ainda
menos. O político que abandona sua sigla não se beneficiou, a não ser de
forma marginal, de eventuais votos de legenda para ser guindado ao
cargo. Não parece justificável, portanto, que o PT possa reter para si
próprio o lugar no Senado ocupado por Marta.
A discussão, caso prossiga, terá um componente irônico, para não dizer
incômodo. Sem que o tema pertença às suas atribuições, o Judiciário
avaliará a fidelidade não mais de um político a seu partido, mas a de um
partido a seus ideais, programas e promessas.
No afã, que vem de longa data, de purificar o sistema partidário
brasileiro através de decisões jurídicas, talvez os tribunais superiores
tivessem de capitular diante da constatação inevitável: tais e tantas
são as traições de legendas e políticos que um magistrado mais rigoroso
não hesitaria em cassar mandatos, registros e prerrogativas de quase
todos.
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