quarta-feira, 27 de maio de 2015

Superproteção de primogênito acusado de corrupção afunda a popularidade da presidente do Chile
Rafael Gumucio - El País
Jorge Loyola/Aton Chile/EFE
Sebastián Dávalos, filho da presidente do Chile, Michelle Bachelet, chega à promotoria de Rancagua para prestar depoimento sobre as supostas irregularidades na compra de terrenos em Machalí, no Chile, em abril Sebastián Dávalos, filho da presidente do Chile, Michelle Bachelet, chega à promotoria de Rancagua para prestar depoimento sobre as supostas irregularidades na compra de terrenos em Machalí, no Chile, em abril
Michelle Bachelet (nascida em Santiago do Chile em 1951) se veste sem a menor afetação ou vaidade. Caminha com ligeireza, evita naturalmente os obstáculos que surgem em seu caminho. Loura, alta, simples e franca, chama-o de "garoto", sorri e insiste que a chame de Michelle.
No único almoço que compartilhei com ela, em uma manhã de outono em 2007, eu insisti em fazer o contrário. Chamá-la simplesmente de Michelle, como ela queria, me devolvia aos tempos da ONG Pidee para vítimas da ditadura, onde eu ia de graça ao psicólogo aos 14 anos.
Para ela, mais que um trauma, essa recordação era um elogio. Ali trabalhou nos últimos anos da ditadura. Suas convicções, seus medos e suas amigas vinham da clandestinidade, mas também do mundo da reparação, do luto e da resiliência. Também do medo infinito da traição, um fantasma próximo demais: um de seus namorados da juventude, Jaime López, delatou sob tortura seus companheiros da juventude socialista.
Muitos deles morreram, outros ficaram para sempre quebrados por dentro. A presidente passou por campos de concentração e pelo exílio. Salvou-se da morte por um fio, mas na República Democrática Alemã (a extinta Alemanha Oriental), onde se formou em medicina, aperfeiçoou ainda mais sua arte de compartimentar a informação e afastar qualquer um que queira governá-la.
Sua desconfiança é legendária, mas nesse dia de 2007 queria escutar. Estávamos ali porque trabalhávamos na revista satírica "The Clinic", que a havia criticado de maneira frontal e reiterada apesar de tê-la apoiado em sua campanha. Disposta a compreender nossas razões, abriu sobre a mesa da sala de jantar do palácio de La Moneda um caderno escolar com Mickey Mouse na capa e prometeu não falar nada enquanto anotava o que quiséssemos lhe dizer.
Por sorte não cumpriu sua promessa. Cada vez que intervinha, voltava a prometer "agora sim que não falo mais", sorria e anotava alguma frase, para logo voltar a falar. As abstrações filosóficas não pareciam diverti-la. Voltava sempre que podia aos fatos, às realizações, aos projetos de lei.
Dividia os políticos dos quais falava em duas categorias: os que trabalhavam para ser famosos ou importantes e os que trabalhavam para o povo. Não gostava do poder e menos ainda das pessoas que o procuravam. Como se explica então que tenha sido duas vezes presidente? Como se explica que entre uma presidência e outra tenha sido secretária-geral da ONU Mulher? Tive a impressão de que essa contradição nem sequer havia cruzado por sua mente. Filha de general, médico pediatra, militante socialista perfeitamente disciplinada, bebia e comia sem problemas.
Apesar de ter havido rumores que a relacionaram a vários namorados, não se conhece nenhum parceiro seu desde que chegou à vida pública, há mais de dez anos. Explica a quem lhe perguntar sobre sua solidão que não há tempo para romances enquanto trabalha em tantas tarefas urgentes. Mas o que a leva a prolongar por um ano e mais outro o sacrifício de sua vida privada?
Conseguiu se reeleger justamente porque preferia ser chamada de Michelle, em vez de "presidente". Seu passado de vítima da ditadura, mas também sua condição de mãe separada, sempre permitiu que se conectasse com um país que foi objeto de abusos e foi abandonado por uma série de pais violentos e esquecidos. Sempre foi respeitada, porque faltar-lhe ao respeito seria faltar ao respeito com essa reserva de dor que todos temos por dentro.
Permitiram que se equivocasse muito mais que outros estadistas porque nunca fez nada quando nem onde se esperava. Toda a sua força reside nessa imprevisível pauta própria que ninguém pode imitar ou adivinhar. Na hora de confessar erros ou insuficiências, sempre salienta que seu instinto lhe dizia que fizesse o contrário do que fez. Não importa que fale do transporte público, da reforma educacional ou da transparência e corrupção, para a presidente sempre há um conselheiro que a desvia de fazer bem as coisas.
Esse debate entre seu instinto, que gosta de qualificar de "feminino", e os conselhos e a racionalidade "masculina" estão no próprio centro de seu discurso político. Em seu primeiro governo enfrentou as críticas referindo-se a um "feminicídio político".
Mas não foi um homem, um marido, um amante, e sim um filho, o seu mais velho, Sebastián Dávalos, quem destruiu a aura de incorruptibilidade ao usar e abusar das portas abertas que lhe permitiam seus sobrenomes e fazer negócios de especulação imobiliária ao largo da lei e muito longe da ética e da estética de sua mãe.
E o supostamente infalível instinto dela a levou a nomeá-lo, apesar das advertências, chefe de organizações sociais e culturais do palácio de La Moneda, cargo que equivalia ao posto de primeira-dama.
Atingida no flanco mais íntimo, a presidente não reagiu a tempo. O filho renunciou em fevereiro, quando o incêndio já havia arrasado as redes sociais. A presidente, que sempre rejeitou as formalidades do cargo, viu quando os chilenos começaram a lhe pedir que se comportasse como presidente, e não como mãe.
Em poucos dias, todo o Chile parecia ter esquecido que essa era justamente sua graça, ser uma presidente que o trata como uma mãe. Algo parecido aconteceu com a falta de habilidade ou de discurso com que enfrentou as suspeitas de corrupção que afetaram o ex-ministro do Interior Rodrigo Peñailillo, considerado filho político e sucessor da presidente.
Alérgica aos conselhos dos políticos de sempre, manteve o gabinete em pé além de toda a previsão. Terminou com ele inesperadamente no final desta semana, em meio a uma entrevista a Mario Kreutzberger, o apresentador mais famoso da televisão chilena.
Em outro gesto inesperado, deu a si mesma ao vivo pela televisão 72 horas para escolher quem sairia e quem ficaria de seus ministros. O gesto não deixou de lembrar outro que a tornou famosa: quando era ministra da Saúde e o presidente Ricardo Lagos lhe deu 60 dias para acabar com as filas nos consultórios. Não conseguiu tanto, mas ganhou milagrosamente o carinho dos chilenos, que viram seus sofrimentos encarnados nela.
Naquele dia de 2007 a presidente insistiu em que não trabalhava para ter uma estátua, e sim para melhorar a vida das pessoas. O programa de seu segundo mandato propõe em menos de quatro anos fazer a maior reforma tributária dos últimos 40, uma reforma em todos os níveis educacionais, uma reforma trabalhista e uma nova Constituição política. Pode-se abordar um programa tão vasto sem ter a menor ambição de estátua?
Salvador Allende dizia, meio brincando e meio a sério, que tinha "carne de estátua". A geração que se tornou adulta depois do golpe de Estado preferiu, com certo ceticismo compreensível, ser de carne e osso até o final. Em seu primeiro governo, Michelle Bachelet conseguiu justamente isso. Os chilenos perdoaram todas as suas insuficiências porque se conectaram com sua sincera vontade de ajudar e melhorar suas vidas. Terminou com 85% de aprovação, em um governo de continuidade com os executivos moderados que o antecederam.
O empenho por manter o gabinete, apesar das tramas de corrupção que eclodiram nos últimos meses, cobrou a conta de sua popularidade, que baixou 9 pontos, para 29%, enquanto a rejeição aumentou para 56%, segundo as últimas pesquisas. A história do segundo governo está para ser escrita, mas por enquanto está claro que nele a presidente terá de começar um novo trato com seu melhor aliado e seu pior inimigo: Michelle Bachelet Jeria.

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