quarta-feira, 27 de maio de 2015

Trem noturno entre Milão e Paris tem frequentes imigrantes no bagageiro
Maryline Baumard - Le Monde
Trem Milão-Paris segue para o norte com seu contingente regular de imigrantes clandestinos e de fiscalizações noturnas
Uma vez esquecidos o aroma do café expresso e o tanino dos vinhos franceses, uma vez esmaecidas as fotos da viagem pela Europa, restará a "noite no Thello". Segundo as conversas matinais dos norte-americanos e dos mexicanos que ocupam os leitos 60 a 64, no carro 86 do trem noturno que liga Milão a Paris, o momento mais incrível da jornada deles pelo Velho Continente foi essa noite de 18 de maio.
Bakou, um jovem malinês de 16 anos, dormiria em um dos leitos superiores do compartimento. Quando acordaram, os dois casais se espantaram com o fato de que ele preferiu o nicho destinado às malas, acima da porta, à sua cama. Eles quase concluíram que o jovem talvez preferisse um leito rudimentar, mas depois ficou claro para esses turistas que eles estavam meio deslocados nesse "trem de imigrantes".
A estratégia de Bakou tinha a ver com a grande questão europeia do momento: a chegada de uma onda migratória à costa italiana, com alguns deles prosseguindo viagem até o norte da Europa. Quando ele subiu até Milão, não apresentou carteira de identidade nem visto de permanência ao fiscal do vagão. "Seu pai o enviou do Mali para mim há duas semanas, e vou acompanhá-lo até a casa da família na periferia de Paris. Mas ele não tem documentos", conta no comecinho da manhã seu tio, instalado no compartimento vizinho, que mora regularmente na Itália e está "preocupado com o pequeno".

"Onde está o outro indivíduo?"

Nesse trem que liga a Itália à França todas as noites, atravessando a Suíça, para simplificar as fiscalizações noturnas dos policiais, os passageiros deixam seus vistos de permanência ou passaportes com o chefe de cabine. Este junta cuidadosamente os documentos por compartimento, cola um 'post-it' neles e amarra tudo com um elástico, antes de dar um sorriso satisfeito a seus viajantes.
Asmara e Sara, duas jovens eritreias instaladas na cabine vizinha à de Bakou, logo lhe explicam que elas não têm nenhum documento, só a passagem de trem. Há um momento de tensão, mas a angústia das duas jovens logo passa: o chefe de cabine, imperturbável, tica o número do leito delas em seu formulário e sai. Ele sabe que elas não terminarão a noite no trem.
Às 5h da manhã, a locomotiva, que já havia parado por um tempo na estação de Domodossola, na Itália, que fica a dois passos da fronteira com a Suíça, e depois em Vallorbe, na Suíça, pouco antes da França, para mais uma vez com um longo assobio da frenagem, em uma plataforma da estação de Frasne (departamento de Doubs), em meio à luz pálida da manhã. No corredor do carro 86, quatro policiais repetem os números dos leitos. Quando o policial bate à porta do compartimento de Bakou, os quatro turistas respondem em inglês que já deram seu passaporte.
E à pergunta "onde está o outro indivíduo?", feita várias vezes em voz alta diante do leito superior vazio, ninguém responde. "Ele saiu para se esconder ou seus colegas já passaram aqui", conclui o homem de voz alta. Bakou não se mexeu e não foi visto. "É a rotina. Todos os dias é assim nessa linha", conta mais tarde o fiscal dos vagões.
Asmara e Sara, as eritreias do compartimento vizinho, acompanham docilmente o policial francês, que as fez descerem do trem junto com outras 28 pessoas. Nesse fresco início de manhã em Frasne, Asmara e Sara têm como bagagem somente uma bolsinha a tiracolo. Asmara estava em Milão havia uma semana, aonde havia chegado após uma longa espera na Líbia, e queria ir até Paris, onde esperava encontrar membros de sua família --entre eles seu marido, que fez a travessia antes dela.
"Esse controle é feito baseado no artigo 78-2, parágrafo 8 do Código Penal, que autoriza fiscalizações aleatórias nos trens que operem em uma linha internacional", lembra Bruno Vinay, advogado na comuna de Bobigny. Esse texto é especificado por um decreto de março de 2012 de Claude Guéant, então ministro do Interior, visando exatamente esse trem.
Para o advogado, essas fiscalizações são irregulares pois só podem ser efetuadas na "primeira parada do trem". Ocorre que "Frasne não é uma parada oficial, nenhum passageiro pode subir nem descer do trem", acredita Bruno Vinay. A primeira parada do Thello na França, na verdade, é Dijon. Mas isso os imigrantes não sabem, e a maior parte acaba sendo enviada de volta para a Itália.

"Falta de estabilidade"

Já dois outros rapazes expulsos do trem, Moulou e Aynalem, ambos etíopes, se dirigiam para Calais. Eles provavelmente não voltarão até Milão, onde devoraram uma pizza junto com um grupo de uns 60 etíopes, somalis, eritreus e iemenitas, logo antes de subirem no trem, no dia 18 de maio. "Esta noite, dois jovens do grupo me pediram para lhes comprar uma passagem para a França. A família deles tinha acabado de lhes enviar dinheiro para isso", conta Chiara Zanini, algumas horas antes da partida do Thello.
Chiara é uma voluntária do coletivo Cambio Passo, que ajuda os sobreviventes do Mediterrâneo quando eles desembarcam em Milão. Toda noite, cinco ou seis deles chegam por volta das 20h. "É a hora em que um representante da prefeitura de Milão se instala ao nosso lado. Ele oferece os alojamentos que a prefeitura ainda tem." No dia 18 de maio, 12 deles conseguiram uma cama, entre mães de família e seus filhos, e também menores de idade.
"O número de lugares varia de um dia para outro. Falta estabilidade", lamenta Salvatore, enquanto termina de distribuir pizza para os cerca de 60 homens e crianças, que sentirão o frio da pedra dessa estação apelidada por Jean-Paul Sartre de "o monumento mais horrível de toda a Itália".
E para sair dela, assim como em cada etapa do longo caminho das migrações, acontece um pequeno mercado em plena luz do dia. "Se você quer ir até Munique, pegue esta passagem para Verona. Depois você já estará quase lá", explica um jovem africano a um homem que chegou mais recentemente, cuja esposa carrega um bebê nos braços.
Diante da entrada das plataformas, aqueles que revenderam passagens explicam que trem cada um deve pegar. Isso obviamente faz parte do serviço, ainda mais necessário pelo fato de que não é tão óbvio tomar um trem na direção de Berna para chegar até Berlim. Esse é um dos muitos mistérios desse mundo não muito fácil de desvendar para aquele que, até algumas semanas antes, vivia em uma sociedade muito diferente, que ele nunca havia deixado em grande parte dos casos.

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