Roger Cohen - TINYT
AFP
Milhões de judeus teriam morrido por ataques químicos nos campos de concentração mantidos por tropas nazistasUm filme muito importante sobre o Holocausto chegou a Nova York pela primeira vez esta semana, no final de uma jornada tortuosa que começou 70 anos atrás, quando as forças aliadas e cinegrafistas de notícias se depararam com os campos de concentração nazistas. Intitulado "German Concentration Camps Factual Survey" ["Visão Factual dos Campos de Concentração Alemães"], o filme é tão sem adornos quanto seu título, um documento filmado no momento para capturar para sempre as provas do inimaginável.
Em vez disso, depois que uma versão cortada, contendo apenas cinco dos seis rolos planejados inicialmente, foi exibida no Ministério em 29 de setembro de 1945, ele ficou enterrado durante décadas nos arquivos do Museu Imperial de Guerra da Inglaterra. Só recentemente "Factual Survey" foi restaurado, digitalizado e concluído pela equipe do museu com a incorporação do sexto rolo.
O documentário, exibido no Museu da Herança Judaica, é importante não só pelo que ele é –- um testemunho impressionante da perversidade nazista -– mas também por sua história estranha, na qual pairam lições sobre as mudanças de prioridades políticas e omissões envergonhadas.
Vou começar pelo filme em si, que leva o espectador de volta a 1945, primeiro em Bergen-Belsen. A câmera parte da tranquilidade da floresta nas proximidades do campo, passando por prisioneiros indiferentes no interior, até o horror no centro do lugar. Corpos emaciados empilhados. Olhos vidrados no infinito. Cadáveres jogados em covas por guardas alemães bem alimentados. A morte que não discrimina, jovens e velhos entrelaçados, empilhados uns em cima dos outros. A narração faz uma pausa. Gritos silenciosos parecem emanar de cada forma inerte para afirmar a humanidade que lhes foi negada.
Cidadãos locais são levados para dentro; eles tiram os chapéus numa hipocrisia repugnante. É claro que sabiam. Um jovem soldado inglês mal pode expressar sua indignação. A câmera investiga o que Hollywood desde então retratou de mil formas diferentes. Em sua crueza, as imagens têm um peso que nenhuma perfeição de estúdio pode atingir.
Foi assim que aconteceu, uma "Visão Factual". Os fatos importam. Como Bernstein intuía, certamente haveria quem negasse. Eles se multiplicam hoje, um dos motivos pelos quais é tão essencial ver o documentário.
O filme também é problemático. Ele passa dos campos de concentração da Alemanha –- incluindo Dachau e Buchenwald -– para vislumbres breves dos campos de extermínio na Polônia –- Auschwitz e Majdanek -– sem fazer uma ligação entre eles: que no fim da guerra um grande número de sobreviventes judeus das instalações de extermínio nazistas do leste tinham sido conduzidos em marchas fatais a lugares como Buchenwald. Muitas das figuras esqueléticas que vemos são, sem dúvida, estes judeus.
No entanto, não há nenhuma menção ao Holocausto, e raramente uma alusão aos judeus. Bernstein queria um filme cujo testemunho sobre a crueldade humana, e o apelo para que ela seja vigiada, fosse universal; pode-se argumentar que, ao não especificar o sofrimento, a mensagem foi reforçada. Também é verdade, contudo, que o genocídio dos judeus europeus foi um embaraço para os Aliados. Na "Declaração Sobre Atrocidades", de outubro de 1943, um documento conjunto emitido por Churchill, Roosevelt e Stálin, não houve menção aos judeus, embora naquele momento milhões já tivessem sido mortos nas câmaras de gás ou a tiros. Já em 1945, o destino dos judeus era uma questão embaraçosa em Londres.
Além disso, surgiram outras prioridades. A Guerra Fria se aproximava. A Alemanha Ocidental era necessária para lutar contra esta ameaça. Ela tinha de ser reconstruída. Não havia razão para bater na cabeça dos alemães com a culpa. Ou pelo menos foi o que acharam na época. A Inglaterra também enfrentava uma questão delicada na Palestina, em 1945, onde os judeus estavam se levantando para lutar contra o domínio britânico e exigiam uma pátria. E assim, um filme poderoso, com suas próprias evasivas intrigantes, encontrou ainda mais evasivas, e saiu de cena para dentro dos arquivos.
A supressão do filme foi a decisão errada. Quando morei na Alemanha após a reunificação, cheguei a presenciar a batalha geracional para revelar o que os nazistas tinham feito. "Factual Survey" poderia ter acelerado esse processo. Jane Wells, filha do produtor, contou que seu pai lhe disse que não ter terminado o filme foi o maior arrependimento de sua vida.
O Museu Imperial de Guerra, excessivamente cauteloso quanto à distribuição do filme, produziu um filme de "orientação" de 12 minutos para exibir na sequência. Neste, David Cesarani, professor de história do Royal Holloway College, diz: "Muitas autoridades britânicas, inclusive do Ministério da Informação, temiam que, se apontassem para o sofrimento dos judeus, se falassem exclusivamente sobre o destino dos judeus, sobre os horrores infligidos contra os judeus, eles estariam de certa forma endossando a posição nazista de que os judeus eram um povo à parte, uma raça à parte."
Isto parece um contorcionismo intelectual agonizante. É pouco persuasivo. Cortem a "orientação", distribuam o filme por toda parte, e deixem que ele conte cada camada de sua história devastadora.
Tradutor: Eloise De Vylder
Nenhum comentário:
Postar um comentário