quarta-feira, 27 de maio de 2015

Os lamentáveis sofismas do governo francês em relação aos refugiados
Le Monde
O drama dos refugiados, que são amontados em embarcações improvisadas por sinistras máfias de coiotes e afundam no Mediterrâneo, tragicamente tem pontuado os últimos acontecimentos. Depois de por muito tempo derramar lágrimas de crocodilo, a Comissão Europeia acabou assumindo suas responsabilidades.
No dia 13 de maio, seu presidente, Jean-Claude Juncker, propôs um plano de ação limitado, mas coerente. A medida mais concreta consiste em não deixar a Itália e a Grécia sozinhas na linha de frente diante do fluxo maciço desses refugiados e em dividir de maneira mais equitativa a responsabilidade de seu acolhimento entre os Estados-membros da União Europeia.
Segundo a porcentagem de distribuição proposta por Bruxelas – e que será submetida ao Conselho Europeu em junho - , a França deverá acolher, nos próximos dois anos, mais 2.375 refugiados qualificados para o direito de asilo, ou seja, vítimas de perseguições políticas ou de guerras.
Ocorre que, há uma semana, François Hollande, Manuel Valls e Bernard Cazeneuve entraram em uma patética combinação de sofismas e palinódias. Fincados em seus princípios, o presidente da República, o primeiro-ministro e o ministro do Interior recusaram essa política de "cotas", ainda que Bruxelas tenha cuidadosamente evitado esse termo.
Eles alegam que o asilo é um direito, resultante de leis e compromissos internacionais e cuja aplicação cabe a cada país. Para eles, esse direito não poderia ser alvo de cotas determinadas, mas sim de um "mecanismo de distribuição solidária" entre toda a Europa. Ou seja, se palavras querem dizer alguma coisa, exatamente aquilo que a Comissão propõe.
Esses contorcionismos semânticos são lamentáveis. Por duas razões. Por um lado, o governo pretende demonstrar grande firmeza e mostrar que a Europa não pode lhe ditar sua política em um terreno tão delicado.
Mas em sua obsessão por frustrar as diatribes incessantes da Frente Nacional contra a imigração e por se opor ao presidente da UMP, Nicolas Sarkozy, que chamou a proposta de Bruxelas de "loucura europeia", Manuel Valls acabou indo parar nesse mesmo campo e se desviando para as mesmas confusões. Como quando ele fala de "cotas de migrantes", sendo que a ideia é somente melhorar a acolhida de refugiados requerentes de asilo.
Por outro lado, o poder público quer evidenciar a ideia de que a França já está assumindo em muito sua parte do fardo. Ocorre que os números levam a olhar com cuidado essa afirmação. Dos 625 mil pedidos de asilo registrados em 2014 na União Europeia (aumentando quase 200 mil em um ano), a França registrou 62.735 deles. Menos que na Itália (64 mil), na Suécia (81 mil) e sobretudo na Alemanha (202 mil).
Além disso, a análise de pedidos de asilo é muito menos generosa na França: somente 30% recebem uma resposta positiva, contra quase 50% na Alemanha, 60% na Itália e mais de 80% na Suécia, segundo os últimos números do Eurostat. O exemplo dos sírios é bem representativo: a França se comprometeu a receber 1.500 deles, pré-selecionados pelo Alto Comissariado para os Refugiados, sendo que a Alemanha recebeu 20 mil deles.
Assumir sua firmeza no combate à imigração clandestina é uma coisa. Outra é assumir plenamente seu dever de solidariedade em relação aos refugiados. A menos que se evidencie a ideia de que a França decididamente não é mais uma terra de asilo.

Nenhum comentário: