Rodrigo Constantino - VEJA
O malabarismo semântico das esquerdas é
realmente impressionante. Trata-se de um verdadeiro contorcionismo
linguistico para justificar o injustificável. É o caso de Francisco
Bosco em sua coluna
de hoje no GLOBO. Bosco, não custa lembrar, é o mesmo que disse que
“minoria” pode ser uma maioria numérica, pois seria uma “minoria
social”. Desta vez o alvo foi o conceito de “elite branca”.
Abro um parêntese: há um método infalível
de identificar um “petralha”. Basta verificar se ele se refere à
presidente Dilma como “presidenta”, aderindo ao puxassaquismo oficial
daqueles que preferem torturar nossa língua em vez de contrariar a
Toda-Poderosa, que nunca foi uma boa “estudanta” (a menos que seja a
fusão de estudante com anta). Bosco chama Dilma de “presidenta” logo no
começo. Fecho o parêntese.
Volto ao conceito de “elite branca”.
Segundo Bosco, pode despertar certa perplexidade em alguns o fato de
muita gente branca e rica fazer coro na acusação contra a tal “elite
branca”, puxada pelo ex-presidente Lula, ele mesmo um branco milionário.
Marta Suplicy atacando a “elite branca”? Pode isso, Arnaldo? Sim, para
Bosco é algo perfeitamente normal. Afinal, ela é petista…
Parece piada, e até é, mas de muito mau gosto. Após os truques rudimentares do colunista, descobrimos que tudo se resume ao seu discurso ideológico, à sua retórica política.
É isso mesmo! Se você for podre de rico, juntar milhões de patrimônio
de forma bem gananciosa, mantiver apartamentos luxuosos em Paris (alô,
Chico Buarque!), morar em coberturas no Leblon (alô, Chico Buarque
novamente!), mas defender a “justiça social”, assumir bandeiras
“progressistas”, então você está livre da pecha de membro da sinistra
(ou seria destra?) “elite branca”.
Bosco, para chegar ao ápice do absurdo,
usa a cor branca aqui como uma cor “simbólica”. Ou seja, Marta Suplicy,
mais branca do que bunda de dinamarquês, não é da “elite branca”, pois
não possui a cor branca “simbólica”, já que é do PT, um partido de
esquerda e, portanto, automaticamente preocupado com os mais pobres,
segundo o tosco, digo, Bosco.
Mas Joaquim Barbosa, negão que veio da
pobreza, pode muito bem ser um ícone, quiçá um líder da “elite branca”,
pois ousou, pasmem!, fazer cumprir as leis e mandar para a Papuda os
pobres coitados da “ralé negra” (devo supor que este seja o oposto de
“elite branca”), como Dirceu e Genoíno, eles mesmos ricos e brancos.
Coisa de burguês, claro!
Não estou inventando nada disso, por mais
inverossímil que pareça. Bosco afirma exatamente isso: pertencer à
“elite branca” tem tudo a ver com seu partido, não com sua cor, sua
renda ou os círculos que você frequenta. Vejam com seus próprios olhos:
O que a
expressão “elite branca” pretende caracterizar não é a situação
excessiva ou relativamente privilegiada em que se encontra um grupo
social, mas o modo como esse grupo se posiciona diante das desigualdades estruturais do país.
Pertencem à “elite branca” aqueles que pensam e agem no sentido da
manutenção dessas desigualdades e, consequentemente, de seus
privilégios, atuando como um grupo dominador. Não pertencem a essa
“elite branca” (que, portanto, é uma categoria mais política e moral do
que econômica e fenotípica) aqueles que, situando-se em um grupo social
privilegiado, pensam e agem no sentido do combate às desigualdades,
renunciando a privilégios em benefício da justiça social.
Pensar e agir “no sentido do combate às
desigualdades sociais”, que fique bem claro, significa, para Bosco,
aderir ao socialismo, defender o PT, ou melhor!, o PSOL, enaltecer a
ação dos black blocs criminosos (como Bosco já fez), atacar o
capitalismo (no discurso, sempre no discurso), pregar mais impostos
ainda, etc. Abrir mão de privilégios? Isso ainda está para nascer…
Não importa que, na prática, a esquerda socialista jamais tenha ajudado os mais pobres. Não importa o resultado concreto. Não vem ao caso o fato de que essa esquerda não possui um único exemplo
de sucesso para mostrar em seu infame currículo (cem milhões de mortes
inocentes pelo comunismo não contam como algo positivo, creio eu).
Vale o discurso, ponto final. É de
esquerda, elogia Marcelo Freixo, aplaude o MST e os vândalos mascarados
que depredam bancos e lojas contra o “sistema”, tudo isso enquanto se
esbalda com os lucros capitalistas do mesmo sistema, então parabéns,
você não é da “elite branca”, mas um ilustre membro da… esquerda caviar!
Bosco mereceria apenas ser ignorado, não
fosse um retrato perfeito dessa distorção conceitual que a esquerda faz.
Notem que o sujeito vai até o limite do ridículo ao dar um exemplo
concreto do tipo de bandeira que é preciso defender para pular fora da
“lista negra” da “elite branca”:
Fazem parte
da “elite branca” todos os sujeitos de grupos sociais privilegiados que
denunciam difusamente as desigualdades do Brasil mas repudiam qualquer
ato político real que as combata; todos os sujeitos incapazes de pensar e
agir coletivamente, sempre colocando em primeiro, senão único lugar as
suas vantagens pessoais; todos os sujeitos que, para dar um exemplo
entre inúmeros possíveis, não apoiaram a greve dos vigilantes, que
reivindicavam um piso salarial de pouco mais de R$ 1 mil (e R$ 20 de
vale-refeição), diante dos bilhões de reais que os bancos lucraram no
ano passado.
É contra as greves que paralisam o país
de forma oportunista, para beneficiar mais sindicalistas do que
trabalhadores de verdade? Então é da “elite branca”, ora! Só há
redenção na esquerda radical, sindicalista, socialista, defensora do
bolivarianismo, do modelo venezuelano. Fora isso, são todos uns
insensíveis, egoístas, capitalistas selvagens! Chama-se “monopólio da
virtude” essa tática manjada.
Minha maior indignação com essa perfídia
toda é a destruição de um conceito nobre como “elite”. Pensemos em Tropa
de Elite: seria algo ruim pertencer a ela? Mas após tantos anos de
discurso raivoso das esquerdas, de disseminação de ódio, o conceito
assumiu tom completamente pejorativo. Pertencer às elites seria algo
terrível por esta ótica canhota.
Pois eu digo que a legítima elite, branca
ou negra, é aquela que, como diria Ortega y Gasset, assume as rédeas da
própria vida e o fardo de carregar nas costas responsabilidades, em vez
de viver como uma “boia à deriva”, como massa amorfa incapaz de pensar
por conta própria, dependente dos demais para tudo. São as elites que
acabam determinando os rumos de uma sociedade.
Infelizmente, enquanto nossas “elites”
forem covardes, dissimuladas, hipócritas, e preferirem os aplausos
fáceis dos inocentes úteis ao resultado concreto de ações decentes, de
gente que sustenta a importância da ética, da responsabilidade
individual e da meritocracia, então não corremos mesmo “risco” de dar
certo (para a felicidade dessas “elites” que exploram a ignorância e a
miséria alheia).
Com membros da “elite” como Francisco Bosco, Chico Buarque, Wagner Moura, Marilena Chauí e tutti quanti,
todos “extremamente” preocupados com os mais pobres, quem sabe não
viramos logo uma Venezuela, ou mesmo Cuba, para a “alegria” geral dos
mais pobres!

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