Rodrigo Constantino VEJA
A Argentina volta às páginas dos jornais
de economia do mundo todo, com o risco de nova rodada de calotes agora
que a Suprema Corte americana reconheceu os direitos dos credores que se
recusaram a engolir os termos impostos pelo governo na reestruturação
de sua dívida externa no começo do novo século.
A esquerda brasileira, que até ontem
defendia o modelo argentino, assume uma das duas posturas: ou procura se
afastar taticamente do novo fracasso, como se nunca tivesse aplaudido
as medidas do governo Kirchner na esperança de que a memória dos demais
seja curta; ou apela à velha vitimização, endossando a retórica
sensacionalista do próprio governo Kirchner, como se o país fosse alvo
de um “ataque especulativo” dos fundos “abutres”.
Falemos mais do segundo caso, já que o
primeiro, apesar da imensa cara de pau, ao menos denota a compreensão de
que o desenvolvimentismo falhou uma vez mais no país vizinho. Abutres
só avançam sobre carniça. Elementar, meu caro Watson! São animais que se
alimentam de carne em estágio de putrefação. Não atacam bichos
saudáveis.
Apesar de algo lógico, isso costuma ser
ignorado pelos adeptos da vitimização. O termômetro só aponta a febre do
doente, sintoma de seus problemas. Ele não cria a própria
doença. Os “especuladores” podem até explorar as fraquezas de certos
países para ganhar dinheiro, como faz George Soros, o bilionário
especulador adorado por parte da esquerda “progressista” por milhões de
motivos (muitos milhões). Mas eles não inventam essas fraquezas.
É análogo, se for para forçar a barra,
aos agiotas. Quando alguém bate na porta de um, é porque já está
encalacrado até o pescoço com dívidas. O agiota não é o culpado por
isso. O culpado é o endividado. Quando governos imploram por recursos de
especuladores ou do FMI, isso quer dizer que foram irresponsáveis na
gestão da coisa pública. E a Argentina desarrumou a própria casa, cavou o
próprio buraco. Foi o recado de Alexandre Schwartsman em sua coluna de hoje na Folha:
De fato, até
há pouco o país era o preferido dos nossos “keynesianos de quermesse”,
com seu modelo que privilegiava a administração da taxa de câmbio,
devidamente apoiada pela política monetária que, para manter o câmbio
depreciado, não podia ser utilizada para controlar a inflação.
O descaso
com a inflação, porém, tem custos. Preços administrados foram
“congelados”, desarticulando serviços públicos, assim como alguns preços
da cesta básica. Subsídios para compensar este problema foram
gradualmente erodindo as finanças públicas e o resultado primário do
governo nacional, que havia chegado a 3-4% do PIB entre 2004 e 2008,
minguou para um déficit em torno do 1% do PIB no ano passado.
Não bastasse
isto, as estatísticas oficiais foram maquiladas: enquanto o índice de
inflação calculado pelo governo insistia em taxas inferiores a 10% ao
ano, estimativas de consultores privados sugeriam algo entre 25% e 30%
ao ano, o que os levou a serem perseguidos pela máquina pública.
O resultado
foi desconfiança generalizada, retração do setor privado, reforçadas
pela atitude beligerante do governo, e, portanto, baixo crescimento e
desorganização da economia.
Isso tudo, somado à fuga de capitais,
levou ao caos atual. É uma tragédia anunciada, que surpreende apenas os
esquerdistas. Schwartsman ainda ironiza o ataque dessa esquerda aos
“pessimistas” e “conservadores” que apontam semelhanças entre o modelo
argentino e o brasileiro do governo Dilma. Não vamos aprender nada com
os erros alheios?
Apesar do ataque que sofrem dos
populistas, os investidores lutam na justiça apenas pelo direito básico
de receber aquilo que é seu. Na hora de atrair investidores do mundo
todo, com seus demandados dólares, euros e ienes, esses governos de
países emergentes fazem de tudo e são só elogios ao capital
especulativo. Depois querem simplesmente dar uma banana para os gringos e
ficar por isso mesmo? Nem a pau, Juvenal!
A esquerda precisa parar de acreditar em
“almoço grátis”. A credibilidade de um país é fundamental para o seu
progresso, e esta credibilidade se constrói com muito esforço,
respeitando contratos ao longo do tempo, pagando todas as contas
devidas. Caloteiros não gozam de respeito e só conseguem atrair capital
pagando juros altos demais. O preço sai caro.
O governo argentino, cuja equipe
econômica é liderada pelo jovem desenvolvimentista Axel Kicillof, que
foi festejado como um grande popstar e gênio das finanças pela ala
canhota, escolheu o caminho da retórica sensacionalista, tentando se
fazer de vítima. Não colou. Agora parece mais disposto a sentar à mesa e
tentar negociar com os credores, que têm direitos legítimos sobre seus
recursos.
Veremos o final da novela – ou do tango,
que pode ter impacto negativo para o Brasil, caso o calote seja a
escolha tomada. É lamentável que de tempos em tempos os países
latino-americanos caiam nas mesmas armadilhas do passado. Aprendemos com
a História que poucos aprendem com a História…

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