quarta-feira, 27 de maio de 2015

"Não, obrigado", dizem Merkel e Hollande para Cameron
Philippe Ricard - Le Monde
A agenda de Angela Merkel e de François Hollande para a zona do euro, resumida em um documento obtido pelo "Le Monde", pode deixar pelo menos uma pessoa descontente: David Cameron, que é esperado na quinta-feira (28) em Paris e na sexta-feira (29) em Berlim. Após sua reeleição, o primeiro-ministro britânico espera esta semana estender sua vantagem para obter concessões por parte do presidente francês e da chanceler alemã e preparar da melhor forma possível o referendo que ele promete para o final de 2017 sobre a permanência ou não de seu país na União Europeia.
Cameron terá trabalho, na medida em que França e também Alemanha já rejeitam por antecipação, nesse texto, uma das reivindicações do chefe do governo de Sua Majestade --a alteração dos tratados europeus-- e sugerem, pelo contrário, que seja reforçada a integração do continente, através de pequenos retoques.
Em uma contribuição enviada no sábado (23) para Jean-Claude Juncker, o presidente da Comissão, que até o final de junho conduzirá a preparação de um relatório sobre o aprofundamento da união monetária, França e Alemanha propõem que a zona do euro adote um programa em "quatro domínios de ação, que deverão ser desenvolvidos no contexto dos tratados atuais nos próximos anos": a política econômica; a convergência econômica, fiscal e social; a estabilidade financeira e os investimentos; e a governança da união monetária. Nada menos que isso.

Reforma profunda

Após a urgência do salvamento do euro nos últimos anos, Merkel e Hollande concordam que "etapas suplementares são necessárias", enquanto Cameron faz um apelo para repatriar determinadas competências às capitais, para que a União "cada vez mais estreita" prometida por seus fundadores não seja mais intocável. Enquanto Cameron pretende limitar a liberdade de circulação, proteger o centro financeiro dos esforços de regulação continentais e atuar sozinho, Paris e Berlim privilegiam aquilo que agora consideram o núcleo duro da construção europeia --a união monetária--, cuja existência foi abalada pelo interminável naufrágio da Grécia.
Preparado na maior discrição por seus respectivos 'sherpas', o documento foi finalizado por François Hollande e Angela Merkel, paralelamente à cúpula da "parceria oriental" com seis países da ex-URSS, entre eles a Ucrânia, na sexta-feira (22), em Riga. Nesse dia, David Cameron não descartou fazer um apelo pela votação do "não", caso não consiga nada de seus parceiros europeus antes de consultar os britânicos.
A "contribuição sobre a união monetária" deles demonstra que os dirigentes franceses e alemães não têm muito em comum com David Cameron. Em seu documento, o chefe do Estado e a chanceler chegam a anunciar que querem propor até o final de 2016 "etapas suplementares (...) que, dessa vez, poderão examinar o quadro político e institucional, os instrumentos em comum e as bases jurídicas (...) pertinentes a longo prazo".
Nada garante que isso não terminará em uma reforma profunda dos tratados. Mas nem no sentido nem segundo o cronograma esboçado por David Cameron.

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