Triste espetáculo
O Estado de S.Paulo
É constrangedor - para não dizer humilhante - o espetáculo do
poder público, em todos os seus níveis, dobrando-se às vontades e
caprichos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Primeiro o
prefeito Fernando Haddad, depois a presidente Dilma Rousseff e agora o
governador Geraldo Alckmin vêm cedendo à chantagem do coordenador desse
movimento, Guilherme Boulos, cada vez mais afoito e seguro de si, que
começou ameaçando todos com manifestações capazes de tumultuar a Copa do
Mundo em São Paulo, se seus desejos não forem satisfeitos, e agora está
literalmente sitiando a Câmara Municipal com o mesmo objetivo.
O
MTST prometeu realizar uma ocupação de novos terrenos por dia, sem
falar nas manifestações que estão virando rotina, até que a Câmara vote o
projeto de revisão do Plano Diretor, que prevê - como resultado de
pressão dele - a transformação em Zonas Especiais de Interesse Social
(Zeis), para nelas serem construídas moradias populares, de quatro áreas
ocupadas pelo movimento: Faixa de Gaza, em Paraisópolis; Nova
Palestina, em M'Boi Mirim; Dona Deda, no Parque Ipê; e Capadócia, no
Jardim Ingá.
A elas foi acrescentada a Ocupação Copa do
Povo, em terreno situado, não por acaso, a apenas 4 km do Estádio
Itaquerão, na zona leste. Como a inclusão dessa Zeis no projeto do Plano
poderia complicar sua aprovação, já que bom número de vereadores com
isso não concorda, optou-se - para atender a mais essa exigência do MTST
- por fazer isso por meio de projeto de lei separado.
Como
se não bastasse a ameaça de mais ocupações e manifestações, o movimento
sitiou a Câmara na terça-feira e diz que os 9 mil sem-teto - mil
segundo a PM, mas o número a essa altura pouco importa - que se
encontram acampados em frente ao prédio, com colchões, cobertores e
cozinha improvisada, dali só sairão quando os vereadores aprovarem tudo
que lhes interessa.
Ou seja, o MTST se julga no direito de
comandar a pauta do Legislativo municipal, não apenas nela colocando
matérias de seu interesse, como estabelecendo prazos para sua aprovação.
Nesse caso, com a agravante de que faz isso por meio de manipulação do
Plano Diretor, matéria da maior importância, porque deve orientar o
desenvolvimento urbano de São Paulo, mas que está sendo transformado em
reles instrumento para a satisfação de interesses de grupos aguerridos,
sempre prontos a recorrer à violência.
A essa altura
restam poucas dúvidas de que o MTST conseguirá tudo, ou quase, que
deseja. Uma indicação segura de que o sítio da Câmara já está
funcionando é que na própria terça-feira o seu presidente, José Américo
(PT), recebeu uma comitiva do movimento para negociar a data para a
votação das matérias de seu interesse.
Américo não fez mais
do que seguir o caminho aberto por Haddad e Dilma Rousseff, que numa de
suas visitas à capital paulista abriu espaço em sua agenda para receber
Boulos, a quem prometeu incluir a área da Ocupação Copa do Povo no
programa Minha Casa, Minha Vida. Dupla de governantes à qual acaba de se
juntar o governador Alckmin. Ele também se encontrou com Boulos, que
saiu triunfante de reunião de uma hora e meia. Entre outras coisas,
obteve a promessa de criação de uma comissão estadual de mediação de
conflitos urbanos, que ele certamente pretende usar para sacramentar
suas invasões.
A coisa está chegando a tal ponto que Boulos
disse ter tratado com Alckmin também de transportes na região
metropolitana e até da falta de água nas regiões sul e leste. Até onde
ele e seu movimento irão? Bem longe, certamente, porque uma
característica da chantagem é que a ela não se cede uma vez só. O
chantagista é insaciável.
Outra grave consequência dessa
rendição do poder público aos arreganhos do MTST é que, como alertam
membros do Ministério Público Estadual, as ocupações semeiam entre as
130 mil pessoas há muito inscritas nos vários programas habitacionais da
capital o medo de que os invasores de Boulos passem em sua frente. O
que já está acontecendo.
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