A armadilha do plebiscito
O Estado de S.Paulo
O PT está com pressa. Sabe que ganhou esta
eleição presidencial por pouco e não quer correr o risco de receber o
bilhete azul na próxima. Urge, portanto, "aperfeiçoar" o sistema
representativo de modo a garantir um futuro sem surpresas desagradáveis
nas urnas. É essa a razão pela qual Dilma Rousseff enfatizou, em seu
discurso de vitória, a prioridade com que se dedicará doravante, entre
todas as reformas que há muito tempo o País reclama, à reforma política.
Com um detalhe que faz toda a diferença: uma reforma política cujo
conteúdo será definido por plebiscito.
Não é de hoje
que o PT questiona, à sua maneira, o sistema representativo em vigor no
País, pelo qual o povo elege representantes que têm a responsabilidade
de propor e aprovar as leis que regem a vida em sociedade, além de
fiscalizar as ações do Poder Executivo. Assim, uma reforma política, que
depende de novas leis, é responsabilidade constitucional do Congresso
Nacional, como Dilma teve a prudência de observar em seu discurso.
Para
o PT, esse sistema representativo não funciona. O presidente do
partido, Rui Falcão, manifestou claramente essa convicção no dia
seguinte ao da eleição, ao comentar o discurso de Dilma e a relação de
suas propostas com as manifestações de rua do ano passado: "Nós, como
partido que tem relações com os movimentos sociais, só vamos obter a
reforma política com essas mobilizações. Pelo Congresso Nacional, seja
na atual configuração, seja na futura, é praticamente impossível".
Impossível é ser mais claro. Para o PT, o que funciona é a "democracia
direta", aquela em que os donos do poder cuidam para que as pessoas não
façam as escolhas erradas.
A Constituição brasileira prevê
duas formas de consulta popular: o plebiscito e o referendo. O Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) define clara e sucintamente em seu site o que
significam um e outro: "Plebiscito e referendo são consultas ao povo
para decidir sobre matéria de relevância para a nação em questões de
natureza constitucional, legislativa ou administrativa. A principal
distinção entre eles é a de que o plebiscito é convocado previamente à
criação do ato legislativo ou administrativo que trate do assunto em
pauta, e o referendo é convocado posteriormente, cabendo ao povo
ratificar ou rejeitar a proposta".
O PT insiste no
plebiscito, claro, porque quer exercer sua influência como partido do
governo para definir previamente o que deverá ser submetido ao
escrutínio público. É importante lembrar que, quando, em resposta às
manifestações de junho de 2013, Dilma propôs cinco itens prioritários
para a reforma política, o primeiro deles era a reforma do sistema
eleitoral. E o debate dessa proposta no meio político resultou em seu
engavetamento, com o apoio dos aliados do governo, especialmente o PMDB,
pela razão óbvia de que o PT a concebera na medida exata de suas
próprias conveniências.
É natural, portanto, que mais uma
vez Dilma Rousseff volte a propor, agora sob o impacto de sua reeleição,
o uso desse instrumento: "Com o instrumento dessa consulta, o
plebiscito, nós vamos encontrar a força e a legitimidade exigidas neste
momento de transformação para levarmos à frente a reforma política".
Falta
agora o PT combinar o jogo com seus aliados. Não será tarefa fácil,
principalmente porque o mais importante deles, o PMDB, está muito
satisfeito com o espaço que ocupa e não cogita de colocá-lo em risco. No
ano passado, o vice-presidente Michel Temer, peemedebista, teve um
papel decisivo na tarefa de fazer Dilma recuar na ideia do plebiscito. E
outro importante líder do partido aliado e presidente do Senado, Renan
Calheiros, já adiantou a opinião de que seria melhor pensar, talvez, num
referendo.
Uma coisa é certa: a reforma política é
necessária e urgente para corrigir as distorções que comprometem o
sistema representativo e aperfeiçoá-lo em benefício da democracia
brasileira. Mas é preciso evitar que essa reforma seja maliciosamente
colocada a serviço do projeto de poder do lulopetismo. Este é um dos
desafios que se colocam para a liderança oposicionista cuja
responsabilidade será doravante cobrada por mais de 51 milhões de
brasileiros.
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