Reinaldo Azevedo - VEJA
Um ouvinte do programa “Os Pingos nos Is”, que ancoro na Jovem Pan, enviou essa ilustração ao programa.
Transcrevo
o conteúdo porque muitos blogs e sites reproduzem os meus textos sem as
eventuais ilustrações. Abaixo da palavra “Desaparecida”, há a imagem de
Dilma, com a faixa presidencial, e a seguinte legenda: “Não é vista no
país há várias semanas. Desapareceu falando de um país com inflação sob
controle, juros baixos, crescimento alto, sem apagões, e onde não se
mexe nos direitos dos trabalhadores nem que a vaca tussa”.
Pois é… A
vaca está com o que o povo chamava antigamente “tosse comprida”, e a
gente tem de torcer é para ela não ir para o brejo. É o que vai
acontecer se a Soberana insistir em ignorar algumas advertências feitas
pela realidade. Dilma vai reaparecer nesta terça. Reunirá na Granja do
Torto aquele que deve ser o maior ministério do mundo para, segundo
consta, defender as medidas que adotou depois que as urnas foram
desligadas.
Já escrevi
aqui. Há dois domínios para essa questão. Há a política como
necessidade, e há a política como escolha de um futuro. Ainda que eu não
endosse, mesmo na esfera da necessidade, todas as medidas adotadas até
agora, reconheço a urgência de algumas intervenções. Ocorre que eu já a
reconhecia antes. Afinal, dizem os puxa-sacos financiados por estatais,
sou, como é mesmo?, um reacionário, um conservador, um direitista. Os
progressistas, afinal, são Dilma Rousseff e o PT, certo?
Não dá
para renunciar, em nome da necessidade, à política como escolha de um
futuro. Pergunta-se: a Dilma que lidera o encontro dos ministros nesta
terça é a mesma que venceu a eleição? Não se trata de exigir a coerência
absoluta entre intenção, a anunciada ao menos, e gesto. Todos sabemos
que a vida pública comporta algumas zonas de amoralidade para que o
político possa alegar alguma interveniência inesperada, justificando,
assim, o descumprimento da palavra empenhada.
Sim,
milhões de brasileiros não caíram no truque e negaram seu voto a Dilma.
Mas o que ela tem a dizer àqueles que acreditaram, não porque militantes
petistas, não porque alinhados com os preconceitos ideológicos do
partido, não porque fiéis à causa da legenda. Nada disso! Quem deu a
vitória a Dilma foram pessoas sem pedigree partidário, gente comum, que
fez dela a fiel depositária de suas esperanças.
Que fique
claro: Dilma não está ME traindo. Ao contrário: ela cumpre fielmente as
minhas expectativas. Ela estaria, parece-me, obrigada a se explicar com
aqueles a quem prometeu um novo umbral do desenvolvimento. Posso ouvir
uma indagação: “Você queria o quê? Que ela realmente pusesse em prática
aquele discurso irresponsável da campanha?”
Não! Eu
não queria isso! Ainda bem que Dilma resolveu jogar no lixo aquela
maçaroca de incongruências e bobagens. Mas, em momentos assim, o
pragmatismo não pode ser o nosso último Deus, ou passaremos a admitir a
política como o lugar natural da mentira, da trapaça, da vigarice, do
engodo.
Se Dilma
estivesse fazendo o que prometeu, é certo que eu a estaria criticando, e
seria uma crítica legítima. Como ela está fazendo o contrário do que
anunciou — e, já escrevi, acho algumas medidas corretas —, eu a estou
criticando porque mentiu. E essa crítica não é nem menos legítima nem
menos necessária do que a outra.
Abrir mão de fazê-la corresponderia a conceder ao PT o direito de exercer a política como monopólio da trapaça. Não será aqui.

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