terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A dialética do terror
Humoristas atingidos e as outras pessoas assassinadas em Paris não passaram de pretextos para os crimes 
Daniel Aarão Reis - O Globo
Alguém disse que os humanos são trágicos, não tristes. Mas as mortes de 17 pessoas, em Paris, entre os dias 7 e 9 deste mês, em circunstâncias trágicas, deixaram tristes os que aspiram a uma sociedade democrática.
Não há conjunção adversativa nem contextos históricos que relativizem a barbárie dos assassinatos cometidos. Uma infâmia, como certeiramente os qualificou Michel Lowy.
Na aparência demencial destes crimes, seria possível distinguir alguma lógica?
Desejar-se-ia punir o duvidoso humor dos que se divertiam com as referências sagradas da religião islâmica? Se fosse este o caso, as ações foram inócuas, pois este tipo de humor não começou ontem, nem acabará amanhã. Além disso, não foram somente os humoristas que perderam a vida: o guarda-costas de um deles, já ferido, também foi liquidado, sem contar alguns assassinados apenas por serem de origem judaica.
Outro equívoco é analisar o episódio como expressão de uma suposta “guerra religiosa" entre cristãos e muçulmanos. A hipótese é de uma pobreza franciscana, pois, se ela tivesse substância, seria incompreensível a condenação dos atentados por grande parte dos representantes dos muçulmanos franceses, assim como seria ininteligível a presença de líderes políticos e religiosos do mundo islâmico, de várias tendências, na grande manifestação de protesto, realizada na capital da França no dia 11 de janeiro.
Não há guerras religiosas à vista, basta ver a coalizão que se formou para derrotar Saddam Hussein. Ou a aliança para aniquilar o autodenominado Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Nos dois casos, foi e tem sido sólida a aliança entre cristãos e muçulmanos — de direita. Por outro lado, um mínimo de informação é suficiente para saber que a imensa maioria dos que morrem nas mãos deste tipo de assassinos são igualmente muçulmanos, estejam eles na Síria, no Iraque, na Somália, no Sudão, na República Centro-Africana ou na Nigéria.
Os humoristas atingidos e as outras pessoas assassinadas em Paris não passaram de pretextos para os que perpetraram os crimes.
Mas quais seriam, então, os objetivos dos criminosos?
O que eles desejam é incitar polarizações políticas radicais no mundo ocidental e entre os próprios muçulmanos. Pode-se dizer que têm alcançado estes objetivos.
Nos EUA, depois do ataque às Torres Gêmeas, em setembro de 2001, uma sociedade plural e diversa uniu-se, assustada, em torno da mediocridade de George W. Bush, e aprovou a Lei Patriótica. Resultados? Restrição das liberdades, espionite, repressão, prisões e processos sumários, tortura como política de Estado. Consequências? Direitização do debate político, crescimento do Tea Party, de extrema-direita, numa atmosfera envenenada pelo medo.
Na França, está ocorrendo processo análogo.
Também medíocres, o presidente François Hollande, e seu primeiro-ministro, Manuel Valls, que de socialistas só conservam o nome, desacreditados e em declínio, no contexto de uma sociedade cada vez mais crítica, recuperam-se como lideranças da nação enlutada. Estamos em guerra! União sagrada! De olhos marejados de lágrimas, mãos no peito, os deputados e senadores franceses, cantando à capela o Hino Nacional, aprovam, por esmagadora maioria, pacotes de leis repressivas e de guerra.
A adoção do Passenger Name Record (PNR), proposta pelos EUA, já condenada pela Comissão de Liberdades Civis do Parlamento Europeu, e derrotada ano passado, vai novamente ser solicitada por Manuel Valls. Prevê a captura e a centralização de informações de todos os passageiros de viagens aéreas (nomes completos, datas, itinerários, cartões de créditos usados etc.). Enquanto isso, a ministra da Justiça expede instruções para que procuradores e juízes sejam severos, apliquem penas maiores, lancem mão de agravantes e procedimentos sumários. Uma deputada de direita, em surto de sincericídio, exclamou: "Não é possível ter mais segurança sem renegar as liberdades". Um policial clamou pela intervenção “indispensável” das Forças Armadas.
Era tudo o que desejavam os que mataram os humoristas. Eles não representam o Islã, assim como Bush e Hollande não representam a Cristandade. São partidários de uma proposta política de direita, antimoderna, autoritária, machista e repressiva. E preferem como oponentes governos e partidos de direita, também autoritários e antidemocráticos, liderados por tipos como Bush, Valls ou, no limite, pelo Tea Party ou pelos fascistas europeus, cuja importância aumenta a cada atentado.
As guerras contra o Afeganistão e o Iraque pareceram liquidar a al-Qaeda, sobretudo após a prisão e morte de Bin Laden. Ledo engano. A mancha da direita islâmica só fez crescer e cresce cada vez mais. A cada bomba, mais um homem-bomba. A cada homem-bomba, mais bombas.
É a dialética do terror, a cultura da morte.
Se a opinião e as forças democráticas não lidarem com esta ameaça, teremos um sombrio século XXI.

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