Tahmima Anam - NYT
É temporada de casamentos em Daca. Os convites foram enviados - envelopes grossos e dourados convidando as pessoas para festas em hotéis de luxo. Prédios de apartamentos, às vezes até mesmo ruas inteiras da cidade, são enfeitados com luzinhas.
Uma amiga minha da escola
(não posso dar o nome dela) se casou quando nós tínhamos vinte e poucos
anos. Foi, segundo todos os relatos, uma história de amor moderna. Ela
conhecia o noivo desde o ensino médio; ambos tinham frequentado a
faculdade na costa leste dos Estados Unidos, e voltaram a Daca depois de
se formar.
Foi um casamento chique, com flores importadas, DJs, roupas combinando para todos os padrinhos, uma recepção em um hotel, um bolo de casamento de três andares e a lua-de-mel em Bali. De presente, eles ganharam um carro e um apartamento mobiliado.
Poucas semanas depois do casamento, minha amiga me contou uma história que eu nunca esqueci. Ela disse que tinha ido almoçar na casa dos sogros e sua sogra tinha feito camarão ao curry, um prato favorito dos recém-casados. Enquanto os pratos eram servidos, a mãe do marido dela anunciou: "não se esqueça de dar o camarão maior para meu filho".
Isso surpreendeu minha amiga, mas ela sorriu obediente, como alguém deve fazer nessas situações, e serviu o camarão maior para seu marido. Uma semana mais tarde, eles foram convidados para almoçar na casa dos pais dela. De novo o cardápio era camarão ao curry. Desta vez, foi a própria mãe dela que disse: "dê o camarão maior para seu marido". Na minha opinião, este foi o começo do fim da ideia de igualdade da minha amiga. Talvez isso soe mesquinho - o que são dois camarões, afinal? - mas a história insinua uma injustiça maior.
Quando minha amiga foi para a casa dos sogros, pediram que ela demonstrasse ostensivamente que estava servindo o marido, quando ele era perfeitamente capaz de se servir, em uma casa na qual, tecnicamente, ela era a convidada e ele era o anfitrião. E depois, mesmo em sua própria casa, seu status foi reduzido. A igualdade, ao que parece, terminava na porta de entrada do casamento.
Não se podia chamar o casamento dos dois de precoce - esse termo é reservado para as mulheres que se casam antes da idade legal de 18 anos (como a maioria faz aqui, algumas com até 12 anos) - mas eu acredito que ela se casou muito nova. Ela tinha estudado, escolhido seu marido, e seguiu construindo uma carreira de sucesso. Mas há uma forma mais sutil de hegemonia mascarada pela pompa de um casamento pródigo e uma aparência de igualdade. E ela dita que a nora é alguém que deve ser avaliada, enquanto o genro é alguém para ser exaltado.
Um estudo recente feito pela organização de desenvolvimento Plan Bangladesh e pelo Centro Internacional para Pesquisa da Diarreia, Bangladesh, mostrou que 64% das mulheres entre 20 e 24 anos se casam antes dos 18 anos. O casamento e a maternidade precoces são a causa de uma série de problemas sociais e de saúde, desde uma maior incidência de violência doméstica até um risco maior de mortalidade infantil e materna. Jovens noivas param de ir à escola (de acordo com a Unicef, 5,6 milhões de crianças em Bangladesh abandonaram os estudos mais cedo por causa do casamento) e assim têm menos oportunidades de emprego, e, crucialmente, pouco conhecimento de seus direitos dentro do casamento.
Para o assombro das ONGs, funcionários de saúde e ativistas de Bangladesh, a resposta do governo a esse estudo foi uma proposta para reduzir a idade legal do casamento para 16 anos. A ministra para assuntos das mulheres e crianças, Meher Afroz Chumki, comentou: "em nosso país, as meninas ficam maduras aos 14 anos. Isso pode se tornar um fardo para muitas famílias. Se o país permite que os pais casem suas filhas cedo, muitos problemas sociais podem deixar de existir também."
O ministro para questões de saúde e da família, Zahid Maleque, confundiu ainda mais as coisas insistindo que o problema era que as "adolescentes do meio rural fogem de casa para se casar". O que une os dois ministros é a ideia de que a sexualidade de uma menina adolescente é um perigo para sua família, e de que o casamento é uma forma de controlar o comportamento sexual feminino. Este, em vez de um sistema que limita as escolhas das mulheres jovens, é o problema na visão deles.
Reconhece-se que Bangladesh deu grandes passos na igualdade de gêneros através da ênfase na educação das meninas e de um melhor acesso à saúde. O governo também está expandindo um sistema de benefícios destinados a manter as meninas matriculadas no ensino secundário.
Mas esses programas não podem ter sucesso até que o casamento deixe de ser um rito supervalorizado pelo qual uma mulher deve passar quando jovem, abandonando sua independência, suas conquistas acadêmicas e, em muitos casos, seu bem-estar emocional e físico.
Para uma menina em um vilarejo remoto, os motivos para se casar cedo são em grande parte econômicos. As famílias com frequência casam suas filhas para evitar pagar dotes muito altos, uma vez que, quanto mais nova for a noiva, menos os pais devem pagar.
Minha amiga, que teve um casamento de cidade grande, parece bem distante da garota do vilarejo cujos pais obrigam que case na adolescência, mas elas fazem parte do mesmo sistema. A glorificação do casamento, no qual os pais gastam uma imensa fatia de sua renda na festa, significa que as filhas não conseguem suportar a pressão social para casar cedo.
O dever de nossos políticos eleitos deveria ser proteger as jovens de costumes reacionários que limitam seu potencial, e não mudar as regras para melhorar as estatísticas do governo. Apesar da resposta inadequada dos políticos, o futuro parece promissor: estudos mostram que a taxa de casamentos precoces está caindo. Mas temos muito chão pela frente para reverter a crença antiga de que uma garota adolescente é um problema para o qual a solução é o casamento.
Tradutor: Eloise De Vylder
Foi um casamento chique, com flores importadas, DJs, roupas combinando para todos os padrinhos, uma recepção em um hotel, um bolo de casamento de três andares e a lua-de-mel em Bali. De presente, eles ganharam um carro e um apartamento mobiliado.
Poucas semanas depois do casamento, minha amiga me contou uma história que eu nunca esqueci. Ela disse que tinha ido almoçar na casa dos sogros e sua sogra tinha feito camarão ao curry, um prato favorito dos recém-casados. Enquanto os pratos eram servidos, a mãe do marido dela anunciou: "não se esqueça de dar o camarão maior para meu filho".
Isso surpreendeu minha amiga, mas ela sorriu obediente, como alguém deve fazer nessas situações, e serviu o camarão maior para seu marido. Uma semana mais tarde, eles foram convidados para almoçar na casa dos pais dela. De novo o cardápio era camarão ao curry. Desta vez, foi a própria mãe dela que disse: "dê o camarão maior para seu marido". Na minha opinião, este foi o começo do fim da ideia de igualdade da minha amiga. Talvez isso soe mesquinho - o que são dois camarões, afinal? - mas a história insinua uma injustiça maior.
Quando minha amiga foi para a casa dos sogros, pediram que ela demonstrasse ostensivamente que estava servindo o marido, quando ele era perfeitamente capaz de se servir, em uma casa na qual, tecnicamente, ela era a convidada e ele era o anfitrião. E depois, mesmo em sua própria casa, seu status foi reduzido. A igualdade, ao que parece, terminava na porta de entrada do casamento.
Não se podia chamar o casamento dos dois de precoce - esse termo é reservado para as mulheres que se casam antes da idade legal de 18 anos (como a maioria faz aqui, algumas com até 12 anos) - mas eu acredito que ela se casou muito nova. Ela tinha estudado, escolhido seu marido, e seguiu construindo uma carreira de sucesso. Mas há uma forma mais sutil de hegemonia mascarada pela pompa de um casamento pródigo e uma aparência de igualdade. E ela dita que a nora é alguém que deve ser avaliada, enquanto o genro é alguém para ser exaltado.
Um estudo recente feito pela organização de desenvolvimento Plan Bangladesh e pelo Centro Internacional para Pesquisa da Diarreia, Bangladesh, mostrou que 64% das mulheres entre 20 e 24 anos se casam antes dos 18 anos. O casamento e a maternidade precoces são a causa de uma série de problemas sociais e de saúde, desde uma maior incidência de violência doméstica até um risco maior de mortalidade infantil e materna. Jovens noivas param de ir à escola (de acordo com a Unicef, 5,6 milhões de crianças em Bangladesh abandonaram os estudos mais cedo por causa do casamento) e assim têm menos oportunidades de emprego, e, crucialmente, pouco conhecimento de seus direitos dentro do casamento.
Para o assombro das ONGs, funcionários de saúde e ativistas de Bangladesh, a resposta do governo a esse estudo foi uma proposta para reduzir a idade legal do casamento para 16 anos. A ministra para assuntos das mulheres e crianças, Meher Afroz Chumki, comentou: "em nosso país, as meninas ficam maduras aos 14 anos. Isso pode se tornar um fardo para muitas famílias. Se o país permite que os pais casem suas filhas cedo, muitos problemas sociais podem deixar de existir também."
O ministro para questões de saúde e da família, Zahid Maleque, confundiu ainda mais as coisas insistindo que o problema era que as "adolescentes do meio rural fogem de casa para se casar". O que une os dois ministros é a ideia de que a sexualidade de uma menina adolescente é um perigo para sua família, e de que o casamento é uma forma de controlar o comportamento sexual feminino. Este, em vez de um sistema que limita as escolhas das mulheres jovens, é o problema na visão deles.
Reconhece-se que Bangladesh deu grandes passos na igualdade de gêneros através da ênfase na educação das meninas e de um melhor acesso à saúde. O governo também está expandindo um sistema de benefícios destinados a manter as meninas matriculadas no ensino secundário.
Mas esses programas não podem ter sucesso até que o casamento deixe de ser um rito supervalorizado pelo qual uma mulher deve passar quando jovem, abandonando sua independência, suas conquistas acadêmicas e, em muitos casos, seu bem-estar emocional e físico.
Para uma menina em um vilarejo remoto, os motivos para se casar cedo são em grande parte econômicos. As famílias com frequência casam suas filhas para evitar pagar dotes muito altos, uma vez que, quanto mais nova for a noiva, menos os pais devem pagar.
Minha amiga, que teve um casamento de cidade grande, parece bem distante da garota do vilarejo cujos pais obrigam que case na adolescência, mas elas fazem parte do mesmo sistema. A glorificação do casamento, no qual os pais gastam uma imensa fatia de sua renda na festa, significa que as filhas não conseguem suportar a pressão social para casar cedo.
O dever de nossos políticos eleitos deveria ser proteger as jovens de costumes reacionários que limitam seu potencial, e não mudar as regras para melhorar as estatísticas do governo. Apesar da resposta inadequada dos políticos, o futuro parece promissor: estudos mostram que a taxa de casamentos precoces está caindo. Mas temos muito chão pela frente para reverter a crença antiga de que uma garota adolescente é um problema para o qual a solução é o casamento.
Tradutor: Eloise De Vylder
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