A Petrobrás e os abutres
O Estado de S.Paulo
Abutres começam a rondar a Petrobrás, ainda
viva e em condições de recuperação, mas em estado bastante precário para
atrair a atenção de aves de rapina. Num esforço para organizar o
ataque, o fundo americano Aurelius Capital Management convocou
detentores de papéis da empresa para notificá-la por atraso na
publicação do balanço do terceiro trimestre. Se a notificação for feita
por 25% dos credores de bônus de uma determinada emissão, a estatal terá
60 dias para divulgar as demonstrações financeiras. Se estourar o
prazo, poderá ser declarada em calote técnico. Nesse caso, terá de
antecipar o pagamento de bilhões de dólares. Em mais um esforço para
neutralizar essa ameaça, a Petrobrás anunciou a intenção de publicar o
balanço, mesmo sem o aval de um escritório de auditoria, até 31 de
janeiro. Poderá fazê-lo antes disso. A empresa já havia renegociado
dívidas bancárias de US$ 7 bilhões, tentando ganhar algum tempo para a
divulgação de suas contas.
A Petrobrás já adiou duas
vezes a publicação do balanço. Com a multiplicação de denúncias sobre a
pilhagem da empresa, a PricewaterhouseCoopers (PwC), a firma de
auditoria, recusou avalizar as contas. Com isso, evitou o risco de um
dano importante à sua imagem e o perigo de um processo legal nos Estados
Unidos. Mas a cautela da PwC foi apenas um dos impedimentos. A própria
estatal se exporia a problemas muito graves, se divulgasse os dados
contábeis antes de uma boa avaliação dos estragos acumulados em vários
anos de bandalheira. Em resumo, a gestão petista conseguiu assustar os
auditores e atrair os abutres.
Enquanto as aves permanecem a
distância, dirigentes da empresa tentam melhorar sua imagem e torná-la
menos vulnerável a novos ataques de corruptos e corruptores. Na
segunda-feira passada, a diretoria anunciou a decisão de vetar o acesso
de 23 grandes empresas a suas licitações. A lista inclui as maiores e
mais conhecidas firmas brasileiras de engenharia, suspeitas de
participação em cartel para a partilha de contratos bilionários com a
Petrobrás. A relação foi elaborada, segundo o comunicado da estatal, com
base nos depoimentos tomados durante a Operação Lava Jato.
A
empresa informou também a suspeita de envolvimento da Fundação
Petrobrás de Seguridade Social (Petros) nos fatos apontados pelos
investigadores oficiais. A suspeita é baseada numa apuração independente
conduzida por dois escritórios de advocacia contratados pela estatal.
Mesmo
sem a ação ostensiva de abutres, a Petrobrás já foi amplamente
prejudicada no mercado de capitais, com a desvalorização de seus papéis e
o comprometimento de sua imagem. Durante o governo da presidente Dilma
Rousseff a empresa perdeu mais de metade de seu valor de mercado - uma
redução de cerca de R$ 200 bilhões. Sua ação, próxima de R$ 30 há quatro
anos, foi negociada há poucos dias abaixo de R$ 10.
Sua
nota de crédito já foi rebaixada e há ameaça de novo rebaixamento. A
empresa enfrenta processos nos Estados Unidos por haver publicado
informações duvidosas, isto é, sem mostrar os danos causados pela
corrupção instalada em sua administração. O mais recente, movido pela
prefeitura da cidade de Providence, capital do Estado de Rhode Island,
menciona a presidente Dilma Rousseff e outras 11 figuras - autoridades e
empresários - como "pessoas de interesse da ação". A notícia desse
processo bastou para causar mais uma queda de 6% no valor das ações da
companhia, no dia 26 de dezembro.
A ameaça dos fundos
abutres poderá ser neutralizada nas próximas semanas, com a publicação
do balanço do terceiro trimestre. Mas a mera atração de abutres deveria
ser mais que suficiente - se isso ainda fosse necessário - para eliminar
qualquer dúvida sobre os males causados à maior empresa brasileira pela
gestão petista. Fundos abutres ganham dinheiro com papéis podres.
Ações
e títulos de crédito apodrecem porque seus gestores cometem erros
graves e se tornam indignos da confiança dos mercados. Os papéis e a
imagem da Petrobrás podem ser ainda recuperados. Mas o primeiro a
demonstrar respeito à empresa deve ser o governo. Faltou esse respeito
durante o governo petista. Os abutres são uma consequência.
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