domingo, 4 de janeiro de 2015

Cedendo ao poder da China
Mark Kitto - TINYT
Dez anos atrás escrevi um livro chamado "That's China" ["Isso é a China"]. Ele contava a história de como a editora de revistas que eu construí na China, lutando até o fim, principalmente contra as agências de governo que controlavam a mídia, foi tirada de mim pelo governo, destruindo minha carreira.
Os editores do livro ficaram animados com o projeto. Sabíamos que a história perturbaria pessoas poderosas na China. "Nós amamos a controvérsia", disseram. "É esse o sentido de publicar livros."
No último minuto, os editores enviaram uma cópia revisada para o escritório de seu representante em Pequim, cuja resposta foi: "jamais conseguiremos desenvolver negócios na China se vocês publicarem isso".
A publicação foi cancelada. Meu editor admitiu em uma conversa particular que eles estavam com medo.
 Eu estava familiarizado com o poder do governo chinês. Eu já tinha lidado com censores - "inspetores de conteúdo", como eles preferem ser conhecidos - diariamente, face a face. Eu tinha ouvido eles explicarem: "nós gostamos de uma controvérsia. Nós adoramos uma discussão. Mas não podemos permitir que seus leitores tenham isso, especialmente se forem chineses."
De vez em quando eu irritava os censores. Fui acusado de apoiar a independência de Taiwan, interferir na questão do Tibete, incentivar a seita religiosa Falun Gong, vender serviços sexuais, pornografia e, por fim, fui acusado de separatismo muçulmano. No entanto, toda vez que eu tive problemas, não foi porque os censores propriamente ditos tinham lido e encontrado algo perturbador. Foi porque meus rivais comerciais tinham encontrado essas coisas para eles.
A censura era uma ferramenta comercial, uma arma do arsenal de negócios. Você a usava para prejudicar as pessoas. Minhas revistas perderam milhares de dólares em receitas graças à queixa de "serviços sexuais", que foi dirigida contra nossos classificados pessoais. O concorrente por trás desse ataque acabou lançando sua própria seção de classificados, que tinha páginas de anúncios de serviços de massagem que oferecem "finais felizes".
Hoje, muitos dos mesmos líderes políticos e empresariais que se queixam da censura chinesa e de suas consequências severas --como a prisão de escritores como o vencedor do prêmio Nobel da Paz Liu Xiaobo-- aceitam em silêncio a censura do Partido Comunista Chinês. Alguns até mesmo se autocensuram, para não irritar o partido ou, pior ainda, para não prejudicar sua própria chance de ganhar dinheiro na China.
Os sul-africanos negaram um visto ao Dalai Lama. A Feira do Livro de Londres de 2012 permitiu que a Administração Geral de Imprensa e Publicação da China (minha velha adversária) ditasse a lista de convidados, e banisse outro prêmio Nobel chinês, Gao Xingjian, que vive no exílio na França. Em novembro, altos executivos de empresas internacionais de tecnologia, entre elas Facebook, LinkedIn e Apple, participaram da primeira Conferência Mundial de Internet na província de Zhejiang.
O acesso a muitos dos sites e serviços dos participantes da conferência é bloqueado na China, mas nenhum deles levantou o problema em público com a anfitriã, uma agência estatal, apesar da oportunidade. Nem qualquer um deles comentou a ironia, pelo menos em público. Em março, a Readers Digest fez cortes em uma publicação que está sendo impressa na China, a pedido da editora. No mesmo mês, o presidente da Bloomberg, questionou publicamente se a sua organização deveria ter "repensado" a cobertura de notícias politicamente sensíveis na China.
O mundo está fazendo de tudo para agradar ao Partido Comunista Chinês. Nós o chamamos de China, mas trata-se de uma bandeira de conveniência, uma folha de bananeira para cobrir nossa vergonha.
Um dos feitos mais notórios do Partido Comunista, um de seus maiores sucessos, é a criação de uma impressão intangível, aterrorizante, de uma grande força invisível, um monstro na sala ao lado. Ele não tem nome, não tem identidade. É o espírito do partido, os fantasmas dos "mártires revolucionários". Até os próprios líderes têm medo dele. Se você não pode dar um nome para alguma coisa, você não pode falar com ela ou argumentar com ela. Tudo o que você pode fazer é temê-la.
O sistema prospera com o medo. No entanto, o partido em si tem muito medo - do povo. Daí a censura e punição contra aqueles que ousam falar.
Agora monstro do partido está apavorando o mundo ocidental. Ele controla a única esperança, como diriam os líderes do Ocidente, para a economia mundial. Ele deve ser apaziguado. Mas os líderes de governos ocidentais e as grandes corporações ralham contra a censura, a repressão de escritores e pensadores e dos direitos humanos. Essa atitude dupla deleita o Partido Comunista Chinês. Ela tem cooptado o Ocidente a jogar pelas regras do partido, onde a hipocrisia é a regra número 1, onde todos são culpados em certa medida e podem ser responsabilizados de acordo com a conveniência de quem está no comando.
E o mundo está colocando a China no comando. É uma manobra política muito antiga e muito inteligente por parte da China. Para o partido, a supremacia chinesa é apenas natural, uma reversão para como as coisas deveriam sempre ter sido, se não fosse a Revolução Industrial e alguns outros momentos fugazes na história do mundo. A China é a líder legítima do mundo civilizado.
Como fizeram os Estados suseranos que a cercavam séculos atrás, o mundo novamente paga tributo na esperança de que a China o trate bem, e o partido vê isso como uma confirmação de sua posição elevada, dá como certo o tributo e vê o doador como um fraco, enquanto o governo ou a empresa estrangeira felicita-se por ter a promessa de acesso ao mercado chinês, ou de investimento chinês em seu país ou empresa. Eles ignoram ou esquecem o fato de que o mercado chinês é para os chineses, assim como os lucros.
Na conferência da APEC em Pequim no início de novembro, a censura chinesa, como ela funciona, como ela deve ser enfrentada, e como os governos ocidentais podem lidar com ela foram temas que se aglutinaram em um breve momento no final da coletiva de imprensa. Um jornalista do New York Times perguntou ao presidente Xi Jinping sobre a emissão de vistos para correspondentes estrangeiros na China. O New York Times tem tido dificuldades em obter vistos desde que publicou uma reportagem sobre a riqueza privada de altos membros do partido, o mesmo tema que a Bloomberg quis repensar. Xi praticamente ignorou a pergunta. O presidente Obama, de pé ao lado, virou-se para os jornalistas, ergueu as sobrancelhas, sorriu e deu de ombros.
Esperemos que tenha sido um gesto de desconsideração, e não de aceitação. 
Tradutor: Eloise De Vylder

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