Canal competente
Dora Kramer - OESP
A eficácia dos acordos de delação premiada
nas investigações decorrentes da Operação Lava Jato e seus
desdobramentos - indiciamentos, apresentação de denúncias, abertura de
processos e possíveis condenações - enfraquece a ideia da oposição de
abrir novas CPIs para investigar casos de corrupção em órgãos
governamentais.
É que os depoimentos feitos no
âmbito das comissões de inquérito parlamentar não rendem aos delatores
os benefícios que podem ser obtidos por eles quando as informações são
prestadas aos investigadores da esfera policial, em segredo de Justiça.
Ou
seja, não é vantagem colaborar no ambiente público e político do
Legislativo que não tem o poder de decidir sobre uma redução ou isenção
de pena. Note-se, por exemplo, a situação do ex-deputado Roberto
Jefferson.
Ele denunciou a existência do mensalão em
entrevista à Folha de S.Paulo, avançou nas acusações no curso da CPI dos
Correios, mas não forneceu ao Ministério Público informações que
reforçassem a denúncia apresentada ao Supremo Tribunal Federal com
provas ou autoria de crimes, além dos conhecidos por ocasião da abertura
do processo.
Resultado, ainda que um ou outro ministro do
STF tivesse argumentado em favor de atenuantes, Roberto Jefferson foi
condenado a sete anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de
dinheiro e atualmente cumpre pena em regime semiaberto.
Embora
haja uma polêmica em torno do instrumento - advogados argumentam que
acaba representando uma espécie de salvo-conduto ao crime, pois no
limite o autor do delito contaria com a delação como saída -, a
colaboração premiada é o que tem feito avançar as investigações sobre o
esquema montado na Petrobrás. Ao menos no que diz respeito aos
procedimentos em andamento no Brasil.
Deputados e
senadores de oposição alegam que uma nova CPI sobre a petroleira teria,
sim, eficácia, pois aqueles mesmos depoentes que no ano passado se
recusaram a falar ou quando falaram negaram a ocorrência de quaisquer
irregularidades na empresa, se chamados agora nesse novo cenário não
teriam mais motivos para calar.
Na realidade, teriam todos
os motivos para silenciar. Os que não fizeram acordos com a promotoria,
por motivos óbvios. Se não quiseram admitir culpa nem dar informações à
Justiça, por menos razões o fariam numa CPI.
Já os
acusados, ou suspeitos, que tenham se disposto a colaborar com a polícia
e o Ministério Público estariam impedidos de reproduzir seus
depoimentos em público porque a quebra do sigilo poderia implicar a
perda dos benefícios legais. E se porventura fossem chamados depois dos
processos abertos, já nada de novo teriam a revelar aos parlamentares.
Não
há, para o autor do ilícito, ganho algum naquilo que o Legislativo tem a
oferecer: uma arena política de alta exposição. Para eles pouco
interessa aparecerem como salvadores da recuperação ética da nação, como
costumam argumentar alguns parlamentares na tentativa de incentivar
depoentes a colaborar. Eles querem salvar a pele. E isso só a Justiça
pode oferecer.
A influência de governos nada garante,
conforme ficou claro no julgamento do mensalão, e o poder do Congresso
neste aspecto é limitado não só por questões legais, mas pelo fato de
ali, sim, funcionar a interferência (autorizada) do Executivo.
Os
empresários envolvidos no caso da Petrobrás tentam agora arrastar o
governo e os políticos para o centro do escândalo - dizendo-se vítimas
de uma coerção irresistível levada a termo por um projeto construído
sobre pilares da corrupção - porque não temem nenhum dos dois: nem
Executivo nem Legislativo. Estão com medo é do Judiciário.
E pelo balanço do andor, têm razões de sobra para isso.
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