Der Spiegel
Ali Soufan, um cidadão norte-americano de 43 anos de idade, trabalhou como agente especial do FBI até 2005, como parte dos esforços para combater o terrorismo. Em março de 2002, ele e um colega foram os primeiros a interrogar Abu Zubaydah, que naquele momento era considerado o mais importante prisioneiro da Al Qaeda detido pelos americanos. Como Soufan nasceu no Líbano, fala árabe e sabia citar o Alcorão durante o interrogatório, ele foi capaz de conquistar a confiança do prisioneiro.
Assim, conseguiu obter muitas informações de Zubaydah. No entanto, a
CIA ainda escolheu Zubayadah como o primeiro prisioneiro a sofrer suas
"técnicas avançadas de interrogatório". Ele foi forçado a submeter-se a
simulação de afogamento e outras medidas cruéis por pelo menos 83 vezes.
Na prisão onde Zubaydah foi interrogado, Soufan conheceu James
Mitchell, um dos dois homens altamente controversos por trás dos
programas de interrogatório da CIA. Em protesto contra os métodos de
tortura, Soufan deixou Guantánamo no verão de 2002.
Pergunta: Sr. Soufan, durante o seu tempo como agente do FBI, o senhor passou anos conduzindo interrogatórios. Agora, o senhor também escreveu um livro sobre a tortura nas prisões secretas americanas. Houve surpresas no relatório do Comitê de Inteligência do Senado dos EUA, recentemente lançado, sobre a tortura na CIA?
Soufan: Sim, havia algumas coisas que eu não sabia: que colocamos prisioneiros (incluindo Zubaydah) em uma caixa grande por um total de 266 horas –ou seja, 11 dias e duas horas- e que nós simplesmente mantivemos um dos nossos prisioneiros mais importantes, o nosso único detento de alto valor na época, em total isolamento por 47 dias em vez de questioná-lo e obter informações importantes. De fato, eu não sabia sobre essas coisas.
Pergunta: Ainda houve detalhes do relatório que o chocaram, mesmo conhecendo as alegações há anos?
Soufan: Em certos momentos era difícil de ler, especialmente as passagens sobre a tortura do primeiro prisioneiro importante que nós interrogamos, o cúmplice do terrorismo Zubaydah. O nível de falta de profissionalismo que o relatório revela é incrível. É realmente chocante. Mas não devemos nos surpreender, dado que 80% deste programa de interrogatório duro foi terceirizado para empresas externas que não tinham a menor experiência em interrogatórios. Deixamos nossos prisioneiros mais importantes nas mãos de amadores.
Pergunta: Isso também foi novidade?
Soufan: Não, eu sabia disso. Infelizmente, tive que vivenciar isso em primeira mão e ouvir as teorias dos terceirizados. Era horrível. Há outro fato interessante: após 11 de setembro, nós queríamos melhorar a comunicação entre o FBI e a CIA e derrubar a chamada muralha da China entre as agências. Afinal, tinha sido a falta de transferência de informações que tornara possível o 11 de setembro. Mas o que se lê no relatório agora é exatamente o oposto: o relatório revelou que houve uma clara intenção de privar o FBI e os militares dos interrogatórios dos presos da Al Qaeda.
Pergunta: Os EUA fizeram novos inimigos com a publicação de todos estes detalhes horríveis?
Soufan: Nossos inimigos são nossos inimigos. Eu não acho que haverá protestos notáveis. As pessoas de todo o mundo sabiam o que estávamos fazendo. O mundo sabe que nós torturamos. E isso definitivamente influencia o discurso de nossos inimigos: independentemente de se chamarem Estado Islâmico, Al Qaeda no Magreb Islâmico ou al-Shabab, existem milhares de pessoas ao redor do mundo nos dias de hoje que aderem às ideias de Osama bin Laden. Nós não tivemos a estratégia certa e, por vezes, tivemos táticas ruins. Nós colocamos as pessoas em macacões laranja, e agora nossos inimigos estão colocando reféns inocentes em macacões laranja. Estamos envolvidos em um conflito assimétrico para conquistar corações e mentes. Não é assim que você conquista corações e mentes no mundo árabe e muçulmano. Não é assim que você combate o discurso de regimes autoritários e terroristas.
Pergunta: Quando o senhor começou a perceber que estavam sendo utilizados esses "métodos de interrogatório avançados"?
Soufan: Durante o verão de 2002 -em uma prisão secreta em um país que eu ainda não posso nomear, porque é informação sigilosa. Tudo começou quando o psicólogo chegou. Até aquele ponto, nós tínhamos realizado os questionamentos e interrogatórios tradicionais de acordo com o princípio da "construção de confiança". Primeiro você estabelece uma relação com o prisioneiro -você tem que conquistá-lo- e então ele vai contar as coisas.
Pergunta: E como isso é feito?
Soufan: Você faz um jogo de pôquer mental com eles, mas apresenta consistentemente fatos e provas de que são culpados, falando a língua deles -figurativa e literalmente- que é algo que nenhuma dessas empresas privadas contratadas pela CIA poderia fazer. Por exemplo, eu questionei Salim Ahmed Hamdan, motorista de Bin Laden, em Guantánamo. Ofereci-lhe chá, possibilitei que ele ligasse para sua esposa -coisas que haviam sido prometidas a ele, mas as promessas não eram cumpridas. Durante os interrogatórios, eu deitava ao lado dele no chão e nós conversávamos. Esse é o método clássico de "construção de confiança".
Pergunta: Em 2002, o senhor lidou com Zubaydah, um prisioneiro de alto escalão. Ele havia sido capturado no Paquistão em março de 2002, mas sofreu graves ferimentos com tiros durante sua prisão. Na época, o presidente George W. Bush elogiou a prisão como uma grande vitória. Ele acabou sendo o primeiro prisioneiro em quem esses métodos de interrogatório avançados foram testados.
Soufan: Sim, todo mundo ficou muito animado (com a prisão), e chegaram instruções claras de Washington que era essencial que nós o mantivéssemos vivo. Os meus colegas do FBI e eu fomos as primeiras pessoas que conversaram com ele. E Zubaydah cooperou desde o início.
Pergunta: Apesar de estar muito mal de saúde?
Soufan: Sim, tão mal que tivemos que levá-lo para o hospital, para que não morresse durante os interrogatórios. Foi certamente estranho. Estávamos lutando pela vida de um terrorista cujo objetivo declarado era matar americanos, mas ele tinha informações que nós precisávamos muito. Meu parceiro e eu me sentamos ao lado da cama por dias, cuidamos dele, seguramos sua mão. E nós conversamos com ele, em árabe. Quando ele estava fraco demais para falar, nós trabalhamos com uma tabela do alfabeto árabe. Ele cooperou com isso, também.
Pergunta: E vocês obtiveram informações relevantes usando esse método?
Soufan: Certamente -na verdade, muito antes de utilizarem as técnicas especiais de interrogatório em Zubaydah. Enquanto ele ainda estava em sua cama de hospital, ele começou a nos dizer as coisas. Ele foi o primeiro a identificar Khalid Sheikh Mohammed (que atendia pelo codinome "Mukhtar") e a nos explicar o papel fundamental que desempenhara no 11 de setembro. Quando mostramos algumas fotos para ele em relação a outra pessoa, de repente ele disse: "Esse é Mukhtar, o cara que planejou 11 de setembro". Ele revelou quem deu as cartas por trás dos ataques, inteiramente sem tortura, sem afogamento, sem a gente ter pedido ou antecipado esse tipo de informação.
Pergunta: O presidente Bush mais tarde sugeriu que essas coisas eram o resultado de "técnicas de interrogatório aprimoradas", em outras palavras, do programa de interrogação. A CIA alega até hoje que foi esse o caso.
Soufan: Isso não é verdade. Os terceirizados da CIA ainda não tinham chegado à prisão secreta naquele ponto. Até hoje, eu não tenho conhecimento de qualquer dado relevante que tenha sido obtido através do uso de tortura. O relatório do Senado confirma isso também.
Pergunta: O que aconteceu com Zubaydah depois de receber alta do hospital?
Soufan: Enquanto ele ainda estava no hospital, a CIA nos avisou que ia mudar as táticas usadas com ele. Os interrogatórios de Zubaydah agora seriam orquestrados apenas pelos terceirizados contratados da CIA, sem a presença do FBI. Esta mudança de estratégia foi contraditória diante de todos os êxitos obtidos até aquele ponto. Tentamos negociar, mas fomos negados sem discussão. Os terceirizados tinham uma ideia fixa: eles estavam convencidos de que Zubaydah só tinha entregado informações inúteis e que havia mantido as coisas importantes para si.
Pergunta: E então chegou o novo contratado da CIA, o psicólogo James Mitchell, nessa prisão secreta?
Soufan: Sim, embora eu não possa confirmar o nome para você. Como ex-agente do FBI, ainda sou obrigado a manter a confidencialidade. E oficialmente o nome do psicólogo continua sendo uma informação confidencial. É um absurdo, mas é assim. Em meu livro, eu o chamei de psicólogo Boris, então vamos chamá-lo assim também. Boris assumiu imediatamente quando Zubaydah recebeu alta do hospital. O preso foi levado para uma sala completamente branca, sem a luz do dia ou janelas, apenas quatro lâmpadas alógenas no teto. O canto para interrogatórios do quarto também era separado por uma cortina branca. Todas as pessoas que ele via, entretanto, estavam vestidas de preto: uniformes, botas, luvas, óculos -tudo era preto. O que nos explicaram era que o único contato humano que ele teria seria com seu interrogador.
Pergunta: O senhor conversou com Boris, o psicólogo?
Soufan: Sim, e ele me disse que iria forçar Zubaydah a se submeter. O prisioneiro deveria ver seu interrogador como uma espécie de deus, alguém capaz de controlar o seu sofrimento. Desta forma, Boris me disse, ele se tornaria rapidamente maleável. Zubaydah, disse ele, precisava entender que tinha perdido sua chance de cooperar e que já não estávamos mais fazendo seu jogo. Quando eu disse que o prisioneiro já tinha de fato revelado informações, ele não se interessou.
Pergunta: De acordo com o relatório, a CIA implementou seus novos métodos de interrogatório, em meados de abril de 2002. O senhor ainda estava lá?
Soufan: Sim, eu ainda estava lá, mas não no quarto. Primeiro, eles o despiam. Isso serviria para humilhá-lo, disse Boris, e ele iria cooperar a fim de obter sua roupa de volta. Eles também o bombardeavam com música alta. Ele acabaria por falar, a fim de fazer a música parar, disse Boris. A mesma canção de rock era tocada repetidamente, o dia todo. Até na sala de observação, a música nos deixava loucos. Então Boris decidiu tentar a privação do sono. Mas isso tampouco aumentou a disposição de Zubaydah em cooperar. A pior parte para nós foi que, por dias, nós tivemos que assistir enquanto eram usados métodos que nenhum interrogador decente jamais consideraria.
Pergunta: O senhor foi o único que pensava assim naquele momento?
Soufan: Não, meu parceiro e muitos dos agentes da CIA concordavam e entraram em contato com sede em Langley para obter instruções.
Pergunta: O senhor voltou a ver Zubaydah?
Soufan: Sim, quando não obtiveram sucesso com seus métodos, eles nos deixaram falar com ele novamente. Isso foi difícil. Ele não entendia o que estava acontecendo. Nem nós entendíamos. Ele estava nu, demos-lhe uma toalha para que ele pudesse se cobrir. Demos-lhe uma cadeira, para que ele pudesse se sentar e oferecemos água. Ele conversou conosco, e revelou alguns detalhes -um suposto plano para construir uma "bomba suja", uma bomba radioativa, por exemplo. Depois disso, os agentes terceirizados tentaram assumir o controle novamente. A coisa toda foi muito frustrante, não só para nós, também para o pessoal da CIA no local. Nós escrevemos para nossos superiores diversas vezes, dizendo que aquilo não podia continuar daquela forma. Estas cartas de protesto agora podem ser lidas no relatório do Senado. O relatório também observa que alguns dos agentes da CIA tinham lágrimas nos olhos enquanto observavam Zubaydah ser afogado pelos contratados. Mas nada disso serviu para mudar a situação.
Pergunta: Quando o senhor decidiu partir?
Soufan: No final de maio, liguei para sede do FBI e falei sobre a privação do sono, a caixa, a música alta. A resposta da sede do FBI foi inequívoca: "Nós não fazemos esse tipo de coisa. Volte". Foi totalmente frustrante e, eventualmente, voltamos para os EUA.
Pergunta: Como o senhor explica o fato de a CIA ter terceirizado o interrogatório do prisioneiro mais importante dos Estados Unidos para psicólogos incompetentes e que todo os sistemas de supervisão tenham falhado?
Soufan: Não foi toda a CIA. Em última análise, acredito que a decisão foi tomada por apenas algumas pessoas que escolheram este curso de ação por razões políticas, razões de segurança e razões comerciais. Muitos dos agentes da CIA ficaram tão horrorizados quanto eu. Inclusive, suas queixas maciças levaram à investigação em 2004 e ao relatório crítico feito pelo inspetor da CIA, General John Helgerson.
Pergunta: Mas, até hoje, a CIA não se distanciou do que fez. Pelo contrário, a agência continua a defender estes métodos como necessários ao combate ao terrorismo.
Soufan: Sim, e não foi que deram a estes dois psicólogos total liberdade por meses e, em seguida, suspenderam tudo por ser inútil e cruel. Os dois psicólogos foram autorizados a conduzir o seu programa de interrogatórios sem sentido por quatro anos, de 2002 a 2006. E eles ganharam mais de US $ 80 milhões (em torno de R$ 200 milhões) para isso. Inacreditável.
Pergunta: Que conclusões podem ser tiradas do relatório do Senado?
Soufan: O bom é que este relatório não pode ser eliminado. Não é um relatório político, é uma impressionante coleção de fatos: foram analisados centenas de milhares de documentos e despachos da CIA. O relatório tem impressionantes 6.800 páginas, incluindo 38 mil notas de rodapé. Isso é uma enorme conquista. Até agora, só vimos cerca de 600 páginas, ou seja, nem 10% do total. Isso é algo que temos que lembrar. Mas nós também mostramos, como nação, que estamos dispostos a lançar luz sobre este lado negro da nossa história. Um voto bipartidário levou à investigação e outra votação bipartidária levou à divulgação do relatório. Dedicar atenção a este capítulo não foi uma decisão solitária feita pela senadora (democrata) Dianne Feinstein -ela e outros, como o senador (republicano) John McCain, têm que ser aplaudidos por assumirem um enorme risco político para fazerem a coisa certa.
Pergunta: Aqueles que conduziram a tortura e que aprovaram este programa deveriam ser levados à justiça?
Soufan: Eu não acho que este capítulo pode ser tratado através de uma ação legal no ambiente político de hoje. No entanto, temos de assegurar que esses métodos de interrogatório nunca mais sejam usados. Todos nós, de todas as linhas partidárias, devemos ler este relatório intensamente, levar seus resultados a sério e aprender com eles.
Tradutor: Deborah Weinberg
Pergunta: Sr. Soufan, durante o seu tempo como agente do FBI, o senhor passou anos conduzindo interrogatórios. Agora, o senhor também escreveu um livro sobre a tortura nas prisões secretas americanas. Houve surpresas no relatório do Comitê de Inteligência do Senado dos EUA, recentemente lançado, sobre a tortura na CIA?
Soufan: Sim, havia algumas coisas que eu não sabia: que colocamos prisioneiros (incluindo Zubaydah) em uma caixa grande por um total de 266 horas –ou seja, 11 dias e duas horas- e que nós simplesmente mantivemos um dos nossos prisioneiros mais importantes, o nosso único detento de alto valor na época, em total isolamento por 47 dias em vez de questioná-lo e obter informações importantes. De fato, eu não sabia sobre essas coisas.
Pergunta: Ainda houve detalhes do relatório que o chocaram, mesmo conhecendo as alegações há anos?
Soufan: Em certos momentos era difícil de ler, especialmente as passagens sobre a tortura do primeiro prisioneiro importante que nós interrogamos, o cúmplice do terrorismo Zubaydah. O nível de falta de profissionalismo que o relatório revela é incrível. É realmente chocante. Mas não devemos nos surpreender, dado que 80% deste programa de interrogatório duro foi terceirizado para empresas externas que não tinham a menor experiência em interrogatórios. Deixamos nossos prisioneiros mais importantes nas mãos de amadores.
Pergunta: Isso também foi novidade?
Soufan: Não, eu sabia disso. Infelizmente, tive que vivenciar isso em primeira mão e ouvir as teorias dos terceirizados. Era horrível. Há outro fato interessante: após 11 de setembro, nós queríamos melhorar a comunicação entre o FBI e a CIA e derrubar a chamada muralha da China entre as agências. Afinal, tinha sido a falta de transferência de informações que tornara possível o 11 de setembro. Mas o que se lê no relatório agora é exatamente o oposto: o relatório revelou que houve uma clara intenção de privar o FBI e os militares dos interrogatórios dos presos da Al Qaeda.
Pergunta: Os EUA fizeram novos inimigos com a publicação de todos estes detalhes horríveis?
Soufan: Nossos inimigos são nossos inimigos. Eu não acho que haverá protestos notáveis. As pessoas de todo o mundo sabiam o que estávamos fazendo. O mundo sabe que nós torturamos. E isso definitivamente influencia o discurso de nossos inimigos: independentemente de se chamarem Estado Islâmico, Al Qaeda no Magreb Islâmico ou al-Shabab, existem milhares de pessoas ao redor do mundo nos dias de hoje que aderem às ideias de Osama bin Laden. Nós não tivemos a estratégia certa e, por vezes, tivemos táticas ruins. Nós colocamos as pessoas em macacões laranja, e agora nossos inimigos estão colocando reféns inocentes em macacões laranja. Estamos envolvidos em um conflito assimétrico para conquistar corações e mentes. Não é assim que você conquista corações e mentes no mundo árabe e muçulmano. Não é assim que você combate o discurso de regimes autoritários e terroristas.
Pergunta: Quando o senhor começou a perceber que estavam sendo utilizados esses "métodos de interrogatório avançados"?
Soufan: Durante o verão de 2002 -em uma prisão secreta em um país que eu ainda não posso nomear, porque é informação sigilosa. Tudo começou quando o psicólogo chegou. Até aquele ponto, nós tínhamos realizado os questionamentos e interrogatórios tradicionais de acordo com o princípio da "construção de confiança". Primeiro você estabelece uma relação com o prisioneiro -você tem que conquistá-lo- e então ele vai contar as coisas.
Pergunta: E como isso é feito?
Soufan: Você faz um jogo de pôquer mental com eles, mas apresenta consistentemente fatos e provas de que são culpados, falando a língua deles -figurativa e literalmente- que é algo que nenhuma dessas empresas privadas contratadas pela CIA poderia fazer. Por exemplo, eu questionei Salim Ahmed Hamdan, motorista de Bin Laden, em Guantánamo. Ofereci-lhe chá, possibilitei que ele ligasse para sua esposa -coisas que haviam sido prometidas a ele, mas as promessas não eram cumpridas. Durante os interrogatórios, eu deitava ao lado dele no chão e nós conversávamos. Esse é o método clássico de "construção de confiança".
Pergunta: Em 2002, o senhor lidou com Zubaydah, um prisioneiro de alto escalão. Ele havia sido capturado no Paquistão em março de 2002, mas sofreu graves ferimentos com tiros durante sua prisão. Na época, o presidente George W. Bush elogiou a prisão como uma grande vitória. Ele acabou sendo o primeiro prisioneiro em quem esses métodos de interrogatório avançados foram testados.
Soufan: Sim, todo mundo ficou muito animado (com a prisão), e chegaram instruções claras de Washington que era essencial que nós o mantivéssemos vivo. Os meus colegas do FBI e eu fomos as primeiras pessoas que conversaram com ele. E Zubaydah cooperou desde o início.
Pergunta: Apesar de estar muito mal de saúde?
Soufan: Sim, tão mal que tivemos que levá-lo para o hospital, para que não morresse durante os interrogatórios. Foi certamente estranho. Estávamos lutando pela vida de um terrorista cujo objetivo declarado era matar americanos, mas ele tinha informações que nós precisávamos muito. Meu parceiro e eu me sentamos ao lado da cama por dias, cuidamos dele, seguramos sua mão. E nós conversamos com ele, em árabe. Quando ele estava fraco demais para falar, nós trabalhamos com uma tabela do alfabeto árabe. Ele cooperou com isso, também.
Pergunta: E vocês obtiveram informações relevantes usando esse método?
Soufan: Certamente -na verdade, muito antes de utilizarem as técnicas especiais de interrogatório em Zubaydah. Enquanto ele ainda estava em sua cama de hospital, ele começou a nos dizer as coisas. Ele foi o primeiro a identificar Khalid Sheikh Mohammed (que atendia pelo codinome "Mukhtar") e a nos explicar o papel fundamental que desempenhara no 11 de setembro. Quando mostramos algumas fotos para ele em relação a outra pessoa, de repente ele disse: "Esse é Mukhtar, o cara que planejou 11 de setembro". Ele revelou quem deu as cartas por trás dos ataques, inteiramente sem tortura, sem afogamento, sem a gente ter pedido ou antecipado esse tipo de informação.
Pergunta: O presidente Bush mais tarde sugeriu que essas coisas eram o resultado de "técnicas de interrogatório aprimoradas", em outras palavras, do programa de interrogação. A CIA alega até hoje que foi esse o caso.
Soufan: Isso não é verdade. Os terceirizados da CIA ainda não tinham chegado à prisão secreta naquele ponto. Até hoje, eu não tenho conhecimento de qualquer dado relevante que tenha sido obtido através do uso de tortura. O relatório do Senado confirma isso também.
Pergunta: O que aconteceu com Zubaydah depois de receber alta do hospital?
Soufan: Enquanto ele ainda estava no hospital, a CIA nos avisou que ia mudar as táticas usadas com ele. Os interrogatórios de Zubaydah agora seriam orquestrados apenas pelos terceirizados contratados da CIA, sem a presença do FBI. Esta mudança de estratégia foi contraditória diante de todos os êxitos obtidos até aquele ponto. Tentamos negociar, mas fomos negados sem discussão. Os terceirizados tinham uma ideia fixa: eles estavam convencidos de que Zubaydah só tinha entregado informações inúteis e que havia mantido as coisas importantes para si.
Pergunta: E então chegou o novo contratado da CIA, o psicólogo James Mitchell, nessa prisão secreta?
Soufan: Sim, embora eu não possa confirmar o nome para você. Como ex-agente do FBI, ainda sou obrigado a manter a confidencialidade. E oficialmente o nome do psicólogo continua sendo uma informação confidencial. É um absurdo, mas é assim. Em meu livro, eu o chamei de psicólogo Boris, então vamos chamá-lo assim também. Boris assumiu imediatamente quando Zubaydah recebeu alta do hospital. O preso foi levado para uma sala completamente branca, sem a luz do dia ou janelas, apenas quatro lâmpadas alógenas no teto. O canto para interrogatórios do quarto também era separado por uma cortina branca. Todas as pessoas que ele via, entretanto, estavam vestidas de preto: uniformes, botas, luvas, óculos -tudo era preto. O que nos explicaram era que o único contato humano que ele teria seria com seu interrogador.
Pergunta: O senhor conversou com Boris, o psicólogo?
Soufan: Sim, e ele me disse que iria forçar Zubaydah a se submeter. O prisioneiro deveria ver seu interrogador como uma espécie de deus, alguém capaz de controlar o seu sofrimento. Desta forma, Boris me disse, ele se tornaria rapidamente maleável. Zubaydah, disse ele, precisava entender que tinha perdido sua chance de cooperar e que já não estávamos mais fazendo seu jogo. Quando eu disse que o prisioneiro já tinha de fato revelado informações, ele não se interessou.
Pergunta: De acordo com o relatório, a CIA implementou seus novos métodos de interrogatório, em meados de abril de 2002. O senhor ainda estava lá?
Soufan: Sim, eu ainda estava lá, mas não no quarto. Primeiro, eles o despiam. Isso serviria para humilhá-lo, disse Boris, e ele iria cooperar a fim de obter sua roupa de volta. Eles também o bombardeavam com música alta. Ele acabaria por falar, a fim de fazer a música parar, disse Boris. A mesma canção de rock era tocada repetidamente, o dia todo. Até na sala de observação, a música nos deixava loucos. Então Boris decidiu tentar a privação do sono. Mas isso tampouco aumentou a disposição de Zubaydah em cooperar. A pior parte para nós foi que, por dias, nós tivemos que assistir enquanto eram usados métodos que nenhum interrogador decente jamais consideraria.
Pergunta: O senhor foi o único que pensava assim naquele momento?
Soufan: Não, meu parceiro e muitos dos agentes da CIA concordavam e entraram em contato com sede em Langley para obter instruções.
Pergunta: O senhor voltou a ver Zubaydah?
Soufan: Sim, quando não obtiveram sucesso com seus métodos, eles nos deixaram falar com ele novamente. Isso foi difícil. Ele não entendia o que estava acontecendo. Nem nós entendíamos. Ele estava nu, demos-lhe uma toalha para que ele pudesse se cobrir. Demos-lhe uma cadeira, para que ele pudesse se sentar e oferecemos água. Ele conversou conosco, e revelou alguns detalhes -um suposto plano para construir uma "bomba suja", uma bomba radioativa, por exemplo. Depois disso, os agentes terceirizados tentaram assumir o controle novamente. A coisa toda foi muito frustrante, não só para nós, também para o pessoal da CIA no local. Nós escrevemos para nossos superiores diversas vezes, dizendo que aquilo não podia continuar daquela forma. Estas cartas de protesto agora podem ser lidas no relatório do Senado. O relatório também observa que alguns dos agentes da CIA tinham lágrimas nos olhos enquanto observavam Zubaydah ser afogado pelos contratados. Mas nada disso serviu para mudar a situação.
Pergunta: Quando o senhor decidiu partir?
Soufan: No final de maio, liguei para sede do FBI e falei sobre a privação do sono, a caixa, a música alta. A resposta da sede do FBI foi inequívoca: "Nós não fazemos esse tipo de coisa. Volte". Foi totalmente frustrante e, eventualmente, voltamos para os EUA.
Pergunta: Como o senhor explica o fato de a CIA ter terceirizado o interrogatório do prisioneiro mais importante dos Estados Unidos para psicólogos incompetentes e que todo os sistemas de supervisão tenham falhado?
Soufan: Não foi toda a CIA. Em última análise, acredito que a decisão foi tomada por apenas algumas pessoas que escolheram este curso de ação por razões políticas, razões de segurança e razões comerciais. Muitos dos agentes da CIA ficaram tão horrorizados quanto eu. Inclusive, suas queixas maciças levaram à investigação em 2004 e ao relatório crítico feito pelo inspetor da CIA, General John Helgerson.
Pergunta: Mas, até hoje, a CIA não se distanciou do que fez. Pelo contrário, a agência continua a defender estes métodos como necessários ao combate ao terrorismo.
Soufan: Sim, e não foi que deram a estes dois psicólogos total liberdade por meses e, em seguida, suspenderam tudo por ser inútil e cruel. Os dois psicólogos foram autorizados a conduzir o seu programa de interrogatórios sem sentido por quatro anos, de 2002 a 2006. E eles ganharam mais de US $ 80 milhões (em torno de R$ 200 milhões) para isso. Inacreditável.
Pergunta: Que conclusões podem ser tiradas do relatório do Senado?
Soufan: O bom é que este relatório não pode ser eliminado. Não é um relatório político, é uma impressionante coleção de fatos: foram analisados centenas de milhares de documentos e despachos da CIA. O relatório tem impressionantes 6.800 páginas, incluindo 38 mil notas de rodapé. Isso é uma enorme conquista. Até agora, só vimos cerca de 600 páginas, ou seja, nem 10% do total. Isso é algo que temos que lembrar. Mas nós também mostramos, como nação, que estamos dispostos a lançar luz sobre este lado negro da nossa história. Um voto bipartidário levou à investigação e outra votação bipartidária levou à divulgação do relatório. Dedicar atenção a este capítulo não foi uma decisão solitária feita pela senadora (democrata) Dianne Feinstein -ela e outros, como o senador (republicano) John McCain, têm que ser aplaudidos por assumirem um enorme risco político para fazerem a coisa certa.
Pergunta: Aqueles que conduziram a tortura e que aprovaram este programa deveriam ser levados à justiça?
Soufan: Eu não acho que este capítulo pode ser tratado através de uma ação legal no ambiente político de hoje. No entanto, temos de assegurar que esses métodos de interrogatório nunca mais sejam usados. Todos nós, de todas as linhas partidárias, devemos ler este relatório intensamente, levar seus resultados a sério e aprender com eles.
Tradutor: Deborah Weinberg
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