O lugar dos judeus
Governos israelenses não representam judeus como um todo
Heliete Vaitsman - O Globo
A conclamação do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu para
que os judeus franceses emigrem para Israel ofendeu muitos judeus mundo
afora. Como teria ofendido o historiador Marc Bloch, membro da
Resistência Francesa, fuzilado pelos nazistas em 16 de junho de 1944.
Quando lhe ofereceram o apoio de um rabino, minutos antes da execução,
Bloch respondeu que morria como francês, não como judeu. A identidade
que se atribuía não era a mesma que os carrascos quiseram lhe impor.
E teria soado igualmente estranha a outro historiador, o francês e
judeu Pierre Vidal Naquet, cujos pais foram mortos em Auschwitz e que,
defensor ferrenho da liberdade de expressão, não hesitou em defender o
banimento da esfera pública dos apologistas de crimes raciais e
negadores do Holocausto.
Ao contrário da suposição que às vezes domina o imaginário coletivo, os
governos israelenses não representam os judeus como um todo. Inexistem
blocos monolíticos no judaísmo, que tem, entre suas características, a
pluralidade de ideias, estimulada pela inexistência de uma estrutura
burocrática central.
Pluralidade tão antiga que no Talmude se encontram ao menos duas
posições frente ao mesmo problema, e reiterada pelos movimentos sociais e
intelectuais judaicos dos últimos dois séculos. Embora o judaísmo
apresente traços em comum (e uma ética firmada em pilares como a
memória, a responsabilidade coletiva e a inclusão social), a impressão
de uniformidade remete às noções de estranheza e alteridade mencionadas
pelo sociólogo Zygmunt Bauman quando se referiu aos judeus como os
estranhos por excelência na Europa.
A marca da estranheza abriu lugar, por um sinistro paradoxo, à
criatividade intelectual intensa que se sedimentou como cultura moderna.
Os judeus ocidentais dos séculos 19 e 20 acreditaram na modernidade
como um conjunto de valores que permitiriam sua integração nas
sociedades onde se encontravam.
O nazismo abalou a crença, e os estilhaços ecoam até hoje. No solo
francês, judeus têm sido atacados por serem judeus, talvez considerados,
pelos que os odeiam, símbolos de uma liberdade tão ampla que prescinde
ate mesmo da fé (judeus podem ser ateus sem ser excluídos de suas
comunidades).
Um dos aspectos distintivos da religião judaica, que influencia os não
praticantes, é que nela o fiel não aspira à salvação individual, mas tem
seu destino ligado ao coletivo “Israel”. A narrativa fundadora da
condição humana que a religião faz requer apego à letra da Lei.
Ou a França é segura para todos ou não é para ninguém. Em discurso
ovacionado na Assembleia Nacional, o primeiro-ministro Manuel Valls
repetiu várias vezes a palavra laicismo. A laicité é o coração da
República Francesa, disse, e os herdeiros dos valores democráticos se
sentiram representados.
O Estado de Israel não é uma República laica, ainda que fossem
seculares seus fundadores, tenha eleições livres e abrigue uma vasta
gama de ideologias.
Não é preciso estar lá para cumprir os mandamentos que exigem do ser humano, acima de tudo, o pacto com a vida.
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